Ter 20 e poucos anos em dois lados da História
Lançada em 1994 por Fabio Junior e relançada no ano 2000 — início de um novo mundo que se aproximava com medos dignos de “the end” — pelos…

Ter 20 e poucos anos em dois lados da História
Lançada em 1994 por Fabio Junior e relançada no ano 2000 — início de um novo mundo que se aproximava com medos dignos de “the end” — pelos Raimundos, “20 e Poucos Anos” traz uma letra carregada de força e potencia de quem sonha, almeja, resiste e persiste em seus planos, desejos, projetos, felicidade e buscas por algo que parecia estar para além do que existia no aqui e agora ofertado para esses jovens. Existe uma coisa de imaginar e de vislumbrar algo para além do agora.
E diferentemente de Elis em “Como nossos pais”, onde os jovens reproduzem exatamente o que os mais velhos conhecem bem, Fabio Jr e Rodolfo contam de alguém nos 20 e poucos anos que já sabe, conhece e já está acostumado com as novidades. Como se eles é que tivessem o único acesso a todo esse novo que está adiante, tendo o papel de compartilha — lo com todos aqueles que não as tem ou as vislumbram.
A letra que cantam em 94/2000 traz em si a consciência de “crescer”, como é o que é esperado ao jovem, mas “crescer” na música é no sentido de “não ser mais enganado”, isto é, de entender como funciona o jogo da vida, da sociedade e no próprio sujeito. “Crescer” não subentende — se romper com a ideia dos “20 e poucos” de força , potencia , planos, etc,etc e etc.
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Você já sabe Me conhece muito bem Eu sou capaz de ir Vou muito mais além Do que você imagina…
Eu não desisto Assim tão fácil meu amor Das coisas que Eu quero fazer E ainda não fiz Na vida tudo tem seu preço Seu valor E eu só quero dessa vida É ser feliz Eu não abro mão…
Nem por você Nem por ninguém Eu me desfaço Dos meus planos Quero saber bem mais Que os meus 20 E poucos anos…(2x)
Tem gente ainda Me esperando prá contar As novidades que eu Já canso de saber Eu sei também Tem gente me enganando Ah! Ah! Mas que bobagem Já é tempo pra crescer Eu não abro mão…
Nem por você Nem por ninguém Eu me desfaço Dos meus planos Quero saber bem mais Que os meus 20 e poucos anos…(4x)
17 anos passados, e agora?
Mas e agora, 17 anos depois, com pandemias, novas tecnologias, crises climáticas, burnout ter se tornado um verbo (“burnoutar”), uberização do trabalho e proximidade de um cenário distópico, como estão esses jovens de “20 e poucos”??
Há aproximadamente 1 semana terminei a leitura do livro “Conversas entre amigos” da irlandesa Salley Rooney. Um livro que não desperta grandes emoções e prazeres durante a leitura, salvo raras exceções (como quando curtas passagens refletem o lugar de fala de europeus irlandeses a respeito de racismo e guerra no oriente médio), e termina com uma experiência que…não sei, uma coisa vazia, como se vc olhasse para sí ao termino da leitura e não visse nada demais.
Mas deixando o texto assentar, após 1 semana, consigo olhar e identificar valor e representatividade na obra e em seu significado (entendendo porquê li em algum lugar que Sally Rooney é a autora da geração Z).
Acompanhamos Francis mas podemos perceber em todos com quem ela se relaciona que há algo estranho.
Casamento, relacionamento saudável, riqueza, emprego, família (pais), amizades e quem ser para elas, escolhas e valores, tudo não vai bem. Mesmo tendo algum deles, as personagens não estão bem.
E tal crise chega a pontos bem delicados e profundos a ponto de não saberem como lidar.
O que é certo e o que é errado?
Todos tem uma única busca: serem felizes. Mas não estão.
Por que?
Minha conclusão da leitura? Pois todos não tem referenciais.
Muitos pontos passaram por desconstruções — algumas por lutas e realmente são resultados que devem ser reconhecidamente e sem sombra de dúvidas como conquistas, outras não exatamente porque quisemos — ou ruíram mesmo nas andanças e mudanças do mundo (e do capitalismo).
Francis não tem nada: não tem os pais casados, não tem boa relação com o pai — que é extremamente machista — , não tem emprego, não tem dinheiro, não tem exatamente um relacionamento mesmo havendo traços de, com um homem casado, não tem sua carreira de escrita e quando surge a oportunidade, se dá expondo claramente a amiga (e que mesmo sabendo o faz por um valoRe$) e ainda descobre uma doença sem cura.
Com todas essas “perspectivas” (ler com tons de ironia), ao que se agarrar para construir planos, projetos e futuro ? Que futuro ela carrega nas mãos? O que ela pode mostrar para os mais velhos ou mais novos? Que novidades elas tem para contar dentro de um mundo assim ?
E ai, percebendo isso, a obra se torna grande de um tamanho imenso pelo significado e o que ela representa sobre o tempo presente. Ou melhor, sobre ter “20 e poucos anos” no tempo presente.
Se a fase dos 20 anos é uma fase onde a criança/jovem começa a ser reconhecido oficialmente como adulto pela sociedade, adentrando ao mercado de trabalho e ao grupo dos que tem poder de ação para construção do mundo, de suas próprias vidas e dos outros, (lembrando que existem adultos “extra oficiais”, que já tem todas as responsabilidades e vida adulta mas não são considerados assim), a geração de Francis — e dessa geração nascida nos anos 2000 — é capaz de construir o que?
E que sentimentos e caminhos esse contextos pode gerar nesses que se encontram nessa etapa do processo dentro deles?
O que resta para se segurar? Para construir referencias e pegadas nesse caminho invisível de certezas que é o futuro?
Ao que a personagem recorre? À religião. Cristã. À bíblia. Um futuro muito…promissor? A única certeza que se pode ter remete e essa?
A única maneira de encontrar referencias é a religião?
Essa personagem — e sua geração? — não tem essas certezas, sonhos, persistência, caminho. Rodopiam no ar tentando se agarrar a algo, e a única coisa que a personagem acaba se encontrando é… com a religião cristã.
Um retorno ao passado. Não por libertação mas por libertação dessa angústia e falta de caminhos. Ela vai ao lugar onde aprendeu para encontrar referenciais da vida, ideias e valores.
(Mesma maneira que minha avó fez para encontrar jeitos de estar em um casamento que não lhe agradava muito e não aceitar que queria o divórcio).
E olhando de agora, o livro é muito interessante e importante por isso. E atinge com um impacto sem igual já que fala sobre esse vácuo entre o desconstruir e o não construir e o que gera em ação — ou falta dela — ? E onde estão as possibilidades de encontrar alternativas e força para construir esses caminhos? Se as relações não são mais as mesmas, e não se constrói nada novo de referência, a bíblia como alternativa geraria o que?
E isso não é necessariamente uma crítica ou algo ruim. É só um questionamento sobre caminhos. E ética.
Existem outros modelos e alternativas? Sim. Talvez não tão enraizados e com um marketing orgânico tão milenar como a bíblia, mas existem sim. Mas para Francis, essas referencias não são o suficiente.
Francis não resume todas as possibilidades. Ela é apenas uma em cada escolha que a autora fez para sua personagem. E isso é muito interessante para pensarmos sobre esse sentimento e nas ações que podem ser observadas e tomadas a partir de então.
Se a literatura é uma possibilidade de olhar pelos olhos de outro, obrigado Sally Rooney por me colocar nos olhos dos jovens de 20 e poucos anos de agora. Esse jovem de 20 e poucos anos dos anos 2000 aqui agradece por mais possibilidades de leitura, compreensão e questionamentos novos que você o permitiu conhecer para conhecer melhor o mundo em que vive.
Ou para construir possibilidades de existir em um mundo que não mais vive. (rs)
Parabéns Sally Rooney pela obra. E grandes obras nem sempre são compreendidas em seu tempo ou tem um sabor gostoso. Nem toda leitura é gostosa, mas isso não impede de dizer muito.
Mesmo que seja com seus vazios.
메타데이터
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