O Sol e a Árvore
Amizade de mútua afetação.
O Sol e a Árvore

Esse pequeno conto infantil foi escrito para o Motriz em homenagem à Lizandra Muniz
— Não fique assim, Árvore. Quando você menos perceber, estarei de volta. — disse o Sol para sua amiga. A Árvore estava triste porque ele, que tinha ajudado tanto ela a crescer, iria se ausentar por algum tempo.
— Mas e se o eclipse nunca passar? — ela retrucou, olhando para cima e dando graças a Gaia que o brilho forte do seu amigo o atrapalhava perceber o que era lágrima e o que era orvalho.
— Isso não existe, Árvore! — disse a grande bola de fogo, com uma pitada de risada. — Já imaginou se o Astro Rei some para sempre? Existem muitas coisas que desandariam por aqui sem mim. E, sabe, eu quero ir. Sinto que mais do que querer, eu preciso ir.
A Árvore sabia que o eclipse faria bem para o Sol. Ele poderia finalmente se ocupar em apenas olhar para o grande espaço sideral, contemplar todas as outras estrelas, asteroides e o enorme espaço infinito do universo. Ele conheceria coisas que só imaginava existir e, ainda por cima, poderia compartilhar suas descobertas com ela assim que voltasse.
Ao mesmo tempo, isso não deixava de fazer a Árvore se sentir triste. Ela tentava não mostrar, mas suas folhas pareciam até um pouco mais sem vida desde o dia em que soube que o eclipse estava nos planos do seu amigo.
— Além do mais — continuou o Sol, com carinho –, são apenas 6 minutos de eclipse. Tudo vai ficar bem. Podemos conversar pelo vento. Você sabe que esse é um ótimo meio para entregar mensagens para quem está longe. Eu só não vou conseguir te ver.
— É que eu estou tão acostumada em ter o seu calor, amigo… 6 minutos parecem até 6 meses… Mas sei que você volta, me desculpe o sentimentalismo. Você sabe que eu sou dessas que criam raízes demais. — disse a Árvore, sacudindo um pouco os galhos para ver se as lágrimas paravam de sair e se envergonhando por soar tão sentimental.
O Sol sorriu com a fala da sua amiga. Mesmo quando estava tristinha, a Árvore ainda conseguia falar algo bem-humorado que colocava um sorriso nele, até sem ela perceber.
No outro dia, na parte da tarde, a movimentação para o eclipse começou. O Sol parecia até irradiar mais do que o normal com a excitação de finalmente conhecer partes do universo que ainda não tinha visitado.
Quando seu amigo foi desparecendo, sendo tampado por uma escuridão cada vez mais forte, a Árvore respirou fundo. Assim como ela previu, a hora da partida parecia durar uma eternidade. Quando tudo se fez breu, ela não aguentou e começou a chorar. Felizmente havia deixado de lado a ideia de gravar um vídeo e enviar para o Sol, senão tinha certeza de que não conseguiria manter presa todas aquelas lágrimas enquanto gravava alguma mensagem para o amigo.
Estar sem ele parecia estranho. Era como se tudo estivesse igual, mas também estivesse totalmente diferente. A Árvore sabia que seu amigo era um figurão lá em cima, mas aparentemente ela nunca tinha notado o quanto as coisas ficavam estranhas sem ele iluminando tudo.
Sempre que se despediam e sua outra amiga, a Lua, chegava, a Árvore também adorava conversar com ela. Só que era diferente. A Lua clareava tudo ao redor com sua luz branca e forte, o que fazia com que a Árvore percebesse as coisas de uma maneira totalmente nova durante a noite, mas a Lua não era o Sol. E ela sentia como se precisasse dos dois.
Os minutos se arrastaram como meses, mas depois de algum tempo, aquela luz radiante e amarela tão característica deu os primeiros sinais de que seu dono estava voltando. A Árvore se aprumou toda para receber o amigo. Queria recebê-lo com um de seus maiores sorrisos.
— Isso foi uma das coisas mais gostosas que comi lá. Fico feliz por você ter gostado tanto também, Árvore! — disse o Sol no terceiro dia depois que ele havia retornado, falando sobre os waffles que tinha trazido para a amiga.
— Eu gostei muito mesmo. É uma delícia! Obrigado por ter trazido, eu não ia aguentar só ouvir você falar sobre essa gostosura e não provar nem um pedaço.
— É claro que eu não ia esquecer de você, Árvore. — disse, sorrindo lá do alto. — Mas me conta como estava tudo por aqui. Você não disse muito do que aconteceu. Como andam as coisas com aquela Colina pela qual se apaixonou? Vocês conversaram de novo ou preferiu não falar mais nada com ela?
— Eu acho que ainda não estou preparada para falar sobre isso, amigo. Ainda estou processando. Depois que passar o outono e minhas folhas forem renovadas, acho que estarei melhor para conversar sobre essa minha paixão. — disse a Árvore. Antes mesmo do eclipse chegar, ela havia se apaixonado por uma Colina linda, mas só foi jogar as palavras para o vento entregar ao Sol quando o eclipse estava mais ou menos na metade.
— Tudo bem, amiga. — falou o Sol, com o mesmo sorriso sincero de sempre e com um olhar que parecia carregar algo de novo. A Árvore, percebendo aquele brilho novo no amigo, o olhou como se o encorajasse a falar algo. — O que foi, Árvore?
— Não sei… — falou, sorrindo. — Me diga você.
— É que… durante o meu tempo fora, eu ficava me perguntando se tudo estaria o mesmo. É estranho perceber que mesmo em apenas 6 minutos, algumas coisas mudaram tanto. Alguns amigos nossos parecem diferente, não sei bem explicar. Não que seja uma mudança ruim, sabe? Mas ainda assim é um pouco estranho.
— Como quem?
— A Lua, por exemplo. Eu a sentia um pouco distante de mim, mas durante o eclipse ela me mandou mensagens pelo vento falando que estava com saudades. Foi legal receber esse carinho, mas me perguntei se mais coisas estariam diferentes quando eu voltasse. Ao mesmo tempo, sempre soube que nossa amizade seria a mesma, então isso me acalmava o coração. Eu gosto de mudanças, mas às vezes elas me assustam um pouco. Acho que assustam todos nós, para falar a verdade. Então ter algo certo, como sua amizade, faz toda a diferença para alguém que não para de queimar e que está constantemente sentindo tantas emoções fortes. Acho que… só queria dizer que eu te amo muito, amiga.
Naquela hora, a Árvore, querendo manter a dureza de sua casca, guardou dentro de si as lágrimas que queriam sair para fora. Só que não durou muito. Em questão de segundos aquele brilho perolado escorria pelo seu tronco e qualquer um perceberia, mesmo de muito longe, que não era orvalho. Soluçando, disse:
— Eu também te amo muito, amigo. Sua amizade sempre foi muito importante para mim e agora eu tenho a certeza de que sempre poderei contar com você para crescer cada vez mais.
Aquele foi o dia em que o Sol brilhou mais forte e a Árvore fez uma de suas melhores fotossínteses.
메타데이터
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- 2026-07-30 03:36:44