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Quem decide as prioridades do país? A sub-representatividade feminina na política brasileira

Por Ana Júlia Galhardo, Camila Félix, Camila Rangel, Júlia Pádua, Nina Simonetti e Stella Soares, alunas do JOS1E

JOS1 H, E e C · 2026-06-21 02:24 · 0 claps · 6.5 min read
#mulher #politica #política-brasileira #representatividade #feminismo
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Quem decide as prioridades do país? A sub-representatividade feminina na política brasileira

Por Ana Júlia Galhardo, Camila Félix, Camila Rangel, Júlia Pádua, Nina Simonetti e Stella Soares, alunas do JOS1E

No Senado, mulheres ocupam menos de 20% das cadeiras e enfrentam violência política, de gênero e raça de forma sistemática

Marco Oriolesi via Unsplash

Marco Oriolesi via Unsplash

“A mulher merece respeito, a ministra não.” Essa foi a maneira que o senador Plínio Valério, filiado ao Partido da Social-Democracia Brasileira (PSDB), escolheu para se manifestar em uma comissão do Senado Federal. Esse ataque direcionado à ministra do meio ambiente, Marina Silva, não é uma situação isolada, mas reflexo de um histórico de desvalorização da atuação feminina nos espaços de poder. As mulheres, hoje, são maioria na população e no eleitorado, mas ocupam apenas **18% das cadeiras na Câmara dos Deputados e 20% no Senado. Além disso, o Brasil registra cerca de[ sete casos de violência política de gênero por mês](https://fpabramo.org.br/violencia-de-genero-um-problema-cotidiano-em-casa-na-rua-ou-na-politica/)*, segundo o Conselho Nacional de Justiça. *Esse cenário evidencia que a misoginia na política não se limita a episódios pontuais, mas se manifesta de forma estrutural, dificultando o acesso e a permanência de mulheres em cargos de poder.

A respeito disso, Renata Bravo, vereadora, secretária de Desenvolvimento Social e ex-vice-prefeita de Santos depois de mais de vinte anos sem uma mulher no Executivo, compartilhou sua experiência na politica:

“ Foram incontáveis as vezes em que eu tive de fazer alguns discursos e as pessoas olhavam para mim e diziam: ‘Ai, lá vem ela com mais uma invenção’. Falar de mulher para mulher é muito fácil, a gente se conecta, se entende, você vai entender a minha dor e eu vou entender a sua. Agora, quando a gente fala para homens, infelizmente ainda existe aquela barreira do tipo ‘ah, tá chateadinha’”.

As experiências vividas por Renata ilustram como essa barreira se manifesta nos detalhes do cotidiano político. O que chama ainda mais atenção é que as ofensas não vêm só de homens. Quando a vereadora decidiu se licenciar da Câmara para assumir a secretaria de Desenvolvimento Social, foi duramente criticada por outra mulher em um veículo de comunicação de Santos. “Quando um homem larga o mandato e vai assumir uma secretaria, as pessoas elogiam. Quando uma mulher faz isso, as pessoas criticam”, diz. “Pior do que escutar uma ofensa de um homem é escutar de uma outra mulher. Dá vontade de olhar para ela e falar: cara, você não entendeu nada.”

Há alguns anos, a legislação eleitoral passou a prever que 30% dos cargos em uma chapa precisam ser preenchidos por mulheres, uma conquista que Renata revela como um ganho “mais ou menos”, pois, na prática, para cumprir essa exigência, os partidos começaram a preencher as chapas com “qualquer mulher”, o que as levou a fazerem o papel de “laranjas” no processo eleitoral. Consequentemente, essas mulheres nunca eram eleitas, pois não eram as cabeças de chapa ou os nomes principais.

“A gente só vai ter mulheres candidatas reais, não candidatas laranjas, quando começar a trazer as mulheres para a disputa política, para elas entenderem a importância que é elas estarem dentro de um pleito eleitoral.”

History in HD via Unsplash

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Cidadania, direito e representatividade

Ana Helena Baptista, formada em Comunicação Social e doutora em Relações Internacionais pela Universidade de São Paulo (USP), também traz seu ponto de vista sobre o assunto. Ela comenta que as políticas voltadas para mulheres são sempre as primeiras a sofrer retrocessos. O termo “gênero”, por exemplo, foi retirado do Plano Nacional de Educação (PNE) sob pressão conservadora, e demonstra como avanços podem ser revertidos mesmo em políticas de longo prazo.

A estudiosa pontua também que o Brasil está muito abaixo da média mundial e de seus vizinhos latino-americanos em porcentagem de mulheres no Parlamento, o que fragiliza a defesa de agendas ligadas à mulher. “Ainda persiste uma cultura política que associa as mulheres à esfera doméstica e os homens à esfera pública”, ressalta Baptista.

Em seu artigo “Presidentas Legislam para Mulheres”, publicado em 2025, Ana Helena demonstra que a presença feminina no Executivo vai além do simbolismo, ela se traduz em mudanças legislativas concretas. Tanto Dilma Rousseff, no Brasil, quanto Michelle Bachelet, no Chile, registraram taxas anuais de produção de leis pró-mulheres superiores às de seus antecessores e sucessores homens. No total de seus mandatos, Dilma alcançou 6,88 documentos por ano voltados ao desenvolvimento econômico feminino, sendo essa a maior taxa entre os governantes brasileiros empossados no período entre 1999 e 2019.

Hansjörg Keller via Unsplash

Hansjörg Keller via Unsplash

O trabalho no país ainda é refém de recortes de gênero?

O valor econômico do trabalho realizado pelas mulheres é muitas vezes ignorado por quem decide as prioridades orçamentárias. No livro Uso do Tempo e Gênero, os autores Hildete Pereira de Melo, Cláudio Monteiro Considera e Alberto di Sabbato calcularam o valor gerado anualmente em serviços domésticos no período de 2001 a 2011 como 11,4% do PIB brasileiro. Ou seja, em uma década, o trabalho doméstico realizado por mulheres gerou para a sociedade um volume de serviços equivalente ao PIB anual do Brasil.

Os dados apresentados pelos pesquisadores revelam um abismo entre a realidade econômica e a prioridade política: o trabalho doméstico não remunerado permanece invisível para quem assina os cheques do orçamento nacional. Como destaca Ana Helena Baptista, em momentos de ajuste fiscal, o Estado se retira e as mulheres acabam servindo de “amortecedor”. Elas absorvem sozinhas os custos sociais da falta de creches e saúde pública.

A busca por equidade na política

Com o objetivo de promover suporte político e o enfrentamento da violência de gênero, a ONG Rede A Ponte apoia mandatos femininos subnacionais, que priorizem, em suas agendas políticas e candidaturas, a diversidade racial e regional.

O projeto foi idealizado pela diretora Amanda de Albuquerque em 2020. De início, estabeleceu-se por meio de uma vaquinha online, voltada para a formação de mulheres na política e, posteriormente, evoluiu para sua estruturação como uma organização não governamental.

Buscando atingir um perfil composto por 60% de mulheres negras e 40% de representantes das regiões Norte e Nordeste, as parlamentares selecionadas são escolhidas por meio da metodologia de pesquisa RCT (Estudo Controlado Aleatorizado).

A organização oferece suporte gratuito, incluindo apresentações institucionais, assessoria técnica para mandatos solos e a iniciativa “Maré de PLs”, que fornece projetos de lei para que parlamentares possam protocolar em seus municípios. A rede utiliza um grupo de whatsapp para o compartilhamento de experiências, além de aplicar formulários bimestrais para identificar as necessidades individuais de cada mandato.

Até mesmo entrar em contato com as parlamentares é um processo complexo. Lauana Chantal, coordenadora de mobilização e articulação política da Rede A Ponte, relata que essa busca exige um trabalho intensivo de contatos telefônicos: “Muitas delas acabam não tendo presença digital, muitas não têm nem assessores. É toda a responsabilidade nas mãos delas”.

Segundo a coordenadora, mais de 90% das políticas ligadas à ONG relatam já ter sofrido algum tipo de violência política. Neste cenário, a rede segue orientando as parlamentares sobre como proceder diante de violações.

Após a eleição, a dificuldade se mantém. A solidão no ambiente legislativo, o machismo presente em espaços historicamente dominados por homens e a falta da redes de apoio pré-existentes compõem uma luta constante pela presença da mulher na esfera política. Lauana observa:

“O isolamento político é um dos principais obstáculos da mulher, é um ambiente muito sozinho. A mulher chega lá muitas vezes sem o apoio até de seus próprios familiares. Elas sentem que não há outros parlamentares para apoiar suas bandeiras”.

Para além das ações da ONG, Lauana aponta a necessidade de reforma do sistema político brasileiro, a partir de maiores financiamentos nas candidaturas femininas, da garantia de mandatos seguros e da fiscalização rigorosa contra candidaturas “laranjas”:

“Para ter uma democracia de fato representativa, a gente precisa garantir que elas mantenham esses mandatos seguros”.

[embed]Lauana Chantal em entrevista exclusiva para esta reportagem

Uma luta constante, histórica e necessária

No artigo “Mulheres no poder: a trajetória política de Eunice Michiles, a primeira senadora no Brasil”, Michelle Vale, assistente social, mestra em Sociedade e Cultura pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e pós-graduada em Antropologia Social, busca compreender os desafios enfrentados por uma mulher pioneira na política do país.

Em entrevista exclusiva, Michelle aponta que os processos de colonização, escravização e imposição religiosa no Brasil construíram, de forma integrada, um espaço político de supremacia masculina.

Para a autora, essa inferiorização histórica da mulher afasta lideranças femininas da política e prejudica a aprovação de projetos de lei voltados não só às questões de gênero, como também à saúde pública e à criança e ao adolescente.

A estudiosa explica que a figura feminina foi, historicamente, atrelada ao trabalho de cuidado, e que isso se reflete até os dias atuais no cenário político. Para ela, grupos que lutam pela equidade entre gêneros, ao assumirem uma visão progressista, tendem a apoiar projetos relacionados à ascensão social e à redução das desigualdades.

Apesar de a realidade atual ser marcada por disparidades, o cenário social brasileiro nem sempre foi estruturado de forma misógina. A estudiosa ressalta que anteriormente à dominação colonial as populações tradicionais, sobretudo os povos originários, se organizavam através da equidade, da inexistência de hierarquias e, inclusive, da liderança feminina.

Para Michelle, esse passado é apagado pelas dinâmicas políticas que assistimos hoje, o que distancia, cada vez mais, a mulher dos espaços de poder e de prestígio.

“A mulher não sofre violência apenas dentro dos espaços políticos. Ela é violentada quando tenta alcançá-los a partir de uma corrida injusta”, conclui a estudiosa.


메타데이터
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