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A Turma do "Bem Viver"

Fui ao clube cancelar a musculação. Aquela atividade sempre me aborreceu — pesos, aquele monte de TVs ligadas e sem som, instrutores com…

Gilberto De Martino · 2026-04-16 14:13 · 0 claps · 3.1 min read
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A Turma do "Bem Viver"

Fui ao clube cancelar a musculação. Aquela atividade sempre me aborreceu — pesos, aquele monte de TVs ligadas e sem som, instrutores com receitas mágicas de shakes, workouts e outras bobagens. Queria mudar, me inscrever no Pilates. Simples assim.

A mocinha da recepção foi gentil. Me entregou uma lista de horários como quem oferece um cardápio generoso. Escolhi. Saí feliz da vida.

· · ·

Então veio o email.

Apologético, claro. São sempre apologéticos quando querem dizer uma coisa ruim com palavras bonitas. O texto explicava que, “devido à minha faixa etária”, eu só poderia me inscrever na turma do Bem Viver. Que, aliás, estava com lista de espera.

Bem Viver.

Pode haver nome mais infeliz para maquiar a velhice? Tentaram suavizar o golpe com positividade de autoajuda, com aquela terminologia cor-de-rosa que esconde o que não tem jeito de esconder. Bem Viver é o eufemismo educado para: você é velho, fique no seu canto.

· · ·

Fiquei irritado. Deprimido. Assustado. E, estranhamente, animado.

Tudo ao mesmo tempo. Essa mistura me assustou mais do que o email.

Me explico.

Essa ficha não caiu ainda. Não de verdade. Quando me enquadram numa categoria etária como se eu fosse um documento fora do prazo de validade, sinto um desconcerto genuíno — não de quem sabe e resiste, mas de quem ainda não acredita. Como se houvesse um equívoco administrativo. Como se o sistema tivesse confundido meu cadastro com o de outra pessoa.

Mas o sistema não errou. O sistema sabe exatamente o que faz. E no fundo eu também sei. Não sou um "sem noção". Nunca fui.

· · ·

O que mais me incomoda não é a regra em si. É a presunção. A ideia de que, a partir de certa idade, somos intercambiáveis. Que um Pilates com jovens vai me contaminar — ou que eu os contaminarei a eles. Que meu corpo pertence naturalmente àquela turma que se reúne às terças pela manhã para conversar sobre joelhos doloridos.

Sou professor. Toda a minha vida profissional foi construída no contato com gente mais nova. Esse contato não é caridade — é troca. Eles me forçam a me atualizar, a questionar certezas, a não beatificar o que ficou para trás. E eu levo algo também: experiência sem nostalgia, convicção sem rigidez.

Tirar isso de mim não é me proteger. É me empobrecer.

· · ·

Conheço bem essa turma para quem estou sendo redirecionado. E não é maldade da minha parte dizer o que que penso.

Os homens envelhecem em silêncio — um silêncio resignado, como quem entregou os pontos há muito tempo. São presenças que ocupam cadeiras e raramente fazem perguntas. E eles não duram muito. Ficam pra trás, mas deixam suas pensões e aposentadorias para as estoicas sobreviventes.

As mulheres, não envelhecem assim. Elas dominam qualquer espaço que habitam, e dominam com uma energia particular: com a idade se aperfeiçoam na reclamação como forma de arte, como vocação, quase como esporte competitivo entre elas. O cardápio temático é terrivelmente limitado — saúde, filhos ingratos, o mundo que foi e não volta mais — , mas a criatividade dentro desses temas é verdadeiramente impressionante.

E essa mitologia do passado glorioso desfila incansável na nossa frente. Antes era diferente. Antes as pessoas eram melhores. Antes se respeitava. Não era. Não eram. Não se respeitava. Sempre foi complicado, sempre houve gente boa e gente ruim, sempre convivemos com injustiça e beleza no mesmo dia. A memória não é arquivo — é curadoria seletiva. E a curadoria da amargura escolhe apenas o que confirma a amargura.

· · ·

Reconheço que hoje me canso mais facilmente. Que há coisas que antes eram automáticas e agora me pedem atenção. O corpo tem sua honestidade brutal — não mente, não negocia comigo.

Mas ainda faço coisas que gente trinta anos mais jovem não cogita nem tentar. Caminho de verdade. Pinto. Escrevo. Viajo sozinho. Tenho curiosidade — não a curiosidade decorativa de quem pergunta para parecer interessante, mas aquela que dói um pouco porque expõe o quanto ainda não se sabe.

Não sou jovem. Mas também não sou aquilo.

· · ·

A fila de espera do Bem Viver vai esperar.

Vou insistir no Pilates. Vou recorrer, questionar, pedir exceção. Se não der, encontro outro lugar. Mas não vou me acomodar numa categoria que não reconheço como minha só porque é mais fácil para o sistema me encaixar lá.

Envelhecer, tudo bem. Mas envelhecer resignado — esse luxo não me permito. E é o que me faz sentir animado.


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