Minha vida na tecnologia — Parte 2
Prometi, e vou cumprir: a segunda parte. Se o primeiro computador foi o primeiro produto "high-tech" de alto impacto na minha vida, o…
Minha vida na tecnologia — Parte 2
Prometi, e vou cumprir: a segunda parte. Se o primeiro computador foi o primeiro produto "high-tech" de alto impacto na minha vida, o SEGUNDO computador (ou, primeiro com modem) foi talvez um salto ainda maior. Ele foi o portão de entrada da internet na minha vida (ou da "rede mundial de computadores", ou da "information superhighway", termos muito comuns à época). Diria que a internet não foi o evento mais influente na minha existência. Ele foi o evento mais influente na história da nossa era.
Como definir (para quem não viveu) o que foi o mundo sem internet? Qualquer definição vai ser sempre incompleta. Quase tudo o que fazíamos antes, de variadas formas, hoje fazemos via internet. Antes eu juntava o dinheiro da mesada pra comprar um CD por mês no Shopping; hoje, tem Spotify. Antes, a gente ia sexta à noite na locadora pegar duas fitas pra assistir no fim-de-semana (ou até ia ao cinema); hoje, tem Netflix. Antes, caixa eletrônico; hoje, app de banco. Antes, livraria; hoje, Kindle. Antes, escritório com máquina de escrever (meu pai viveu isso); hoje, home-office. Antes, a gente, pasmem, fazia visitas surpresas aos amigos do bairro pra jogar videogame; hoje, WhatsApp e Steam. Antes, a gente tinha alguma vergonha na cara ao dar nossas opiniões em rodas de amigos; hoje, Facebook. Antes, a gente não gostava de expor muito nossa vida; hoje, Instagram.
Mas, antes de me perder nessa "cachaça, desgraça" que a distopia de hoje nos obriga a engolir, vou falar dos primórdios da internet. Meados para o fim dos anos 90. Ô, época boa! Você só acessava a internet por algumas horas, bloqueando completamente a linha telefônica da casa (muitas vezes de madrugada, para pagar um só pulso). A internet no celular analógico era uma utopia. No celular digital, era uma piada, caríssima por sinal. Tinha que ser no seu computador via linha telefônica, não tinha outro jeito. E tinha que ser uma interação precisa: a velocidade não permitia baixar arquivos muito grandes. Mais de um mega, já era um sofrimento sem fim, especialmente se a chamada caísse no meio.
Então, com essa economia de possibilidades finitas, não tinha jeito, você tinha que escolher as suas lutas. Chat? Só de texto. Ninguém era louco de mandar áudio. Chat do UOL, mIRC, ICQ. De vez em quando você entrava num site (tinha que saber o endereço de cor, muitas vezes). Ler alguma informação que você não conhecia sobre sua banda favorita num website feito por um fã no Geocities. Ou baixar algumas imagens (suitable for work ou não). Não tinha Google, tinha que buscar no Yahoo! — era uma busca baseada em palavras-chave que você, dono do site, cadastrava. Não tinha busca no texto do site, ainda. Baixar músicas? Muito difícil, comprar CD ainda era o caminho — isso até o surgimento do Napster, mas isso fica pra depois. Vídeos? Nem pensar.
Parece ironia da minha parte falar em "ô, época boa!" então, né? Tudo era mais difícil, tudo era mais precário. Mas não é brincadeira: era uma época fantástica. A gente não enxergava nada daquilo como precário, embora enxergássemos claramente as limitações. A questão é que era uma época de grande otimismo com a tecnologia. Conversar por horas com alguém em outra cidade via ICQ pagando uma ligação local era uma revolução (coisa que eu fazia muito com meus amigos de Ribeirão Preto quando já estava em São Paulo). Acessar um site dedicado à sua banda favorita era um alento quando, antes, se sua banda favorita fosse "obscura", você encontrava uma ou duas pessoas para conversar sobre. Isso quando dava sorte. Baixar emuladores e relembrar os "saudosos" jogos de nintendinho (que foram lançados cinco anos atrás) no computador. Comprar online e receber na porta de casa, sem precisar ir na loja! Conhecer completos desconhecidos via internet e marcar de encontrar um dia…
Se com uma tecnologia ainda em seus primórdios a gente já conseguia fazer tantas coisas disruptivas, imagina com a evolução dela? Talvez a gente fosse conseguir ouvir o disco que quisesse, quando quisesse, no computador. Ou até ver filmes em tempo real! Quem sabe, um dia, a gente não possa trabalhar de casa para empresas do outro lado do mundo? Já imaginou se a gente consegue conectar a TV à internet? Ou acessar a internet do celular? Pois é, me diz se o otimismo não era justificável? Era um otimismo muito palpável, como podemos ver hoje, anos depois, ao alcance de nossos dedos.
Faço tudo isso hoje, literalmente, e com a maior facilidade do mundo. Não há mais muitos limites. E isso é ruim. Ter otimismo com um quê? Otimismo pressupõe a ideia de melhora. Quase tudo que tinha pra ser melhorado então parece que já foi melhorado alguns anos atrás. O problema é que, quando não há mais o que melhorar, sempre existe um conjunto de pessoas que quer piorar, através da instauração de um grande caos. Talvez com intuito de dominação, certamente com intuito de lucro. Fato é que estamos vendo várias coisas piorarem.
Se o peer-2-peer do Napster foi o ápice na democratização da música, hoje o Spotify ou outros serviços não têm aquele disco raro que antes você encontrava numa loja de bairro. Filmes clássicos, que antes você baixava no bit torrent, hoje não dão lucro e, portanto, tem muitos que simplesmente sumiram do catálogo de Netflix, Amazon Prime e afins. Antes o jornalismo era limitado a sites de grandes portais, mas havia uma preocupação com a apuração — se havia preocupação com opinião tendenciosa, pelo menos ela era baseada em fatos verificados e noticiados, não em fake news e posts de redes sociais.
Talvez, o que estragou o sonho da internet aberta e da democratização da informação foi mesmo o grande capital. Que novidade, não? Ou talvez, foi simplesmente a falta de vontade de boa parte dos seres humanos em se esforçar para nivelar por cima a curadoria do conhecimento. Talvez, foram as duas coisas. Mas calma, amigos, nem tudo está perdido, ainda! Sim, o mundo está distópico, estamos elegendo autocratas e vendo golpistas e criminosos terríveis serem exaltados por causa de redes sociais; mas no próximo texto vou falar de um outro presente tecnológico — as melhorias que eu queria ver nos computadores e internet nos anos 90 que vieram pra me trazer alguns alentos. Aguardemos!
메타데이터
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