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Resenha de Fetichismo (1927) de Freud

Freud afirma, a partir de sua experiência clínica, que apesar de geralmente o fetichista reconhecer sua prática sexual como uma…

César Assis · 2022-04-02 13:45 · 2 claps · 3.2 min read
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Resenha de Fetichismo (1927) de Freud

Freud afirma, a partir de sua experiência clínica, que apesar de geralmente o fetichista reconhecer sua prática sexual como uma anormalidade, ela não é sentida como uma doença que gere sofrimento. De outro modo, é comum que ele esteja satisfeito e louve o fato de o fetiche facilitar a sua vida erótica. Por conta disso, dificilmente uma pessoa vem para a análise por causa de seu fetiche.

Para Freud o fetiche “é um substituto do pênis da mulher (da mãe) em que o menininho outrora acreditou e que — por razões que nos são familiares — não deseja abandonar” (2006 [1927] p. 155). Com relação a essas razões, Freud está se referindo à recusa do menino em tomar conhecimento de que a mulher não tem pênis, pois tal fato coloca em risco o seu próprio pênis, fazendo com que ele sinta como real a ameaça da castração.

Freud afirma que não há um apagamento da percepção da ausência do pênis na mulher. Na verdade, a percepção permanece, mas uma ação muito enérgica é empreendia para manter a rejeição. Após tomar a consciência da ausência de pênis, a crença da criança não fica inalterada. Ela retém a crença da presença de pênis, mas a abandona. Nos termos de Freud

“no conflito entre o peso da percepção desagradável e a força de seu contradesejo, chegou-se a um compromisso, tal como só é possível sob o domínio das leis inconscientes do pensamento — os processos primários. Sim, em sua mente a mulher teve um pênis, a despeito de tudo, mas esse pênis não é mais o mesmo de antes. Outra coisa tomou seu lugar, foi indicada como seu substituto, por assim dizer, e herda agora o interesse anteriormente dirigido a seu predecessor. Mas esse interesse sobre também um aumento extraordinário, pois o horror da castração ergueu um monumento a si próprio na criação desse substituto” (idem, p. 156–7).

O fetiche realiza alguns efeitos que precisam ser considerados. Ele protege contra a ameaça de castração. Salva também o fetichista de se tornar homossexual, pois confere às mulheres características que as tornam toleráveis como objetos sexuais. Além disso, a vida erótica do fetichista fica facilitada, pois o significado do fetiche é desconhecido para os outros, o que torna o seu objeto de desejo mais acessível.

Para Freud, o indivíduo humano do sexo masculino não é poupado do susto da castração diante da visão de um órgão genital feminino. Alguns se tornam homossexuais, outros fetichista, e a grande maioria supera esse trauma.

Embora seja comum que os órgãos ou objetos escolhidos como substitutos para o falo ausente da mulher lembrem símbolos para o pênis, para Freud isto não é o mais decisivo. “Antes, parece que, quando o fetiche é instituído, ocorre certo processo que faz lembrar a interrupção da memória na amnésia traumática” (idem, p. 157). É como se o interesse do indivíduo parasse a meio caminho. A última impressão antes da traumática é tomada como fetiche. É o que explica, por exemplo, o fetiche por pé ou sapato, que foi formado por conta da vista da criança para o órgão sexual partir de baixo, das pernas para cima. Além disso, pelos e veludos são fixados em substituição aos pelos púbicos. Peças íntimas também prestam a esse objeto, pois “cristalizam o momento de se despir, o último momento em que a mulher ainda podia ser encarada como fálica” (idem, p. 158).

Freud também argumenta sobre certa divisão diante da castração feminina. Tanto a rejeição quanto a afirmação da castração estão presentes na construção do fetiche. Em seu exemplo, um homem tinha fetiche por um suporte atlético, utilizado também como calção de banho. Como tal vestimenta esconde os órgãos genitais, ele tem a função ambivalente de afirmar que a mulher é e não é castrada, assim como faz com que o homem seja possivelmente castrado.

Essa atitude dividida também se revela no que o fetichista faz com o fetiche, na realidade ou em sua imaginação. A afeição ou hostilidade em relação ao fetiche, que ocorre em paralelo à rejeição e ao reconhecimento da castração, estão mescladas em proporções desiguais em casos diferentes. No exemplo de Freud, o fetichista cortador de tranças, ao se identificar com o pai, executa o ato que ele mesmo rejeita. Para Freud, “sua ação contém em si própria as duas asserções mutuamente incompatíveis: ‘a mulher ainda tem um pênis’ e ‘meu pais castrou a mulher’’’(idem, p. 159).

Referência bibliográfica

FREUD, Sigmund. Fetichismo (1927). In: FREUD, Sigmund. O futuro de uma ilusão, o Mal-estar na civilização e outros trabalhos (1927–1931). Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Volume XXI. Rio de Janeiro: Imago, 2006. 151–160p.


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