Cartas de um cristão a um jovem discípulo #4 [o equilíbrio da vida centrada na igreja]
“Correria!”, costumamos dizer. “A vida está corrida demais!”. “Precisaríamos de 36 horas para fechar todas as coisas do dia”, dizem alguns…
Cartas de um cristão a um jovem discípulo #4 [o equilíbrio da vida centrada na igreja]
“Correria!”, costumamos dizer. “A vida está corrida demais!”. “Precisaríamos de 36 horas para fechar todas as coisas do dia”, dizem alguns. “Não posso perder as oportunidades que estão se abrindo!”.
Como você e eu conversamos em nosso último encontro (não transforme semanas difíceis em semanas desperdiçadas), é possível ser engolido pela agitação ao ponto de termos a coragem — ou tolice — de dizer que não lemos a bílbia, oramos e tivemos comunhão com os irmãos durante a semana porque não tivemos tempo para isso.
E é nesse momento que os sábios se levantam com as suas vozes de experiência e dizem:
- Isso é só uma fase, vai passar;
- O equilíbrio está em que todas as coisas sejam prioridades iguais, cada qual a seu tempo;
- “Deus acima de tudo”, mas saiba equilibrar todas as coisas para não perder nenhuma delas por uma entrega exagerada à igreja.
Bom, concordo com você que essas falas são, em geral, bem intencionadas. Eles buscam preservar as pessoas de determinados excessos que realmente acontecem, de vidas que negligenciam áreas importantes como trabalho, família e até mesmo a igreja. Porém, a Bíblia parece apontar o equilíbrio para uma outra direção, e não é uma direção óbvia para todos: uma vida centrada na igreja. Sim, isso mesmo, você não leu errado. Apenas me dê alguns de seus preciosos minutos para meditarmos sobre isso antes de afirmar com a sua jovial e rápida convicção de que isso seja de outra forma. Como discípulos de Cristo temos um chamado especial para ouvir.
Primeiramente observe comigo o texto de Efésios 1, especialmente a partir do verso 15. Paulo começa a desenvolver uma linha de raciocínio com uma oração, dele mesmo, em favor da igreja de Éfeso, para que eles sejam cheios do poder de Deus. Ele dirá, inclusive, que esse é o mesmo poder que, “ressuscitando-o [Cristo] dentre os mortos [o fez] sentar à sua direita [de Deus Pai] nas regiões celestiais,” (Ef 1.20). Paulo quer que eles possam ter esse mesmo poder inundando as suas vidas. O apóstolo sabe que eles precisam desse poder para viver a vida cristã de modo intenso e vibrante, com a coragem necessária para encarar esse mundo caído e dominado por Satanás (Ef 2.2). Mas em seguida Paulo diz que esse poder, que está em Cristo, não foi depositado, alocado, disponibilizado em vários lugares ou grupos de pessoas. Ele afirma que esse poder foi dado exclusivamente à igreja:
“ [Deus] sujeitou todas as coisas debaixo dos pés de Cristo e, para ser o cabeça sobre todas as coisas, o deu à igreja, a qual é o seu corpo, a plenitude daquele que a tudo enche em todas as coisas. (Ef 1.22–23)
Repare a linha de raciocínio teológico de Paulo:
1 — Deus quer dar a igreja mais do Seu poder;
2 — Esse é o mesmo poder “extraordinariamente poderoso” que levantou Jesus dentre os mortos;
3 — Esse poder está em Cristo, e Cristo foi dado exclusivamente à igreja;
4 — Sendo assim, a plenitude, o poder e a presença Deus em Cristo estão na igreja, e ela é o seu corpo.
ok!, mas como isso se relaciona com uma vida equilibrada?
A questão é a seguinte: se Deus deu Cristo a igreja, e se todo poder para viver a vida estão em Cristo, centralizar a vida na igreja — oferecendo nossos dons, construindo relacionamentos, obtendo sabedoria, dispensando nosso tempo, buscando discernimento e conselhos — são o modo como podemos equilibrar a vida. Deus depositou o “seu melhor na igreja” e nós devemos dar o “nosso melhor a ela” como uma resposta clara ao que Deus fez.
A igreja, tendo a plenitude de Cristo, onde “a qual é o seu corpo, a plenitude daquele que a tudo enche em todas as coisas” (Ef 1.23) pode direcionar o coração e a mente de alguém na proporção certa de trabalhar, estudar, ter família e parentes, mas o contrário não pode ser verdade. O seu chefe no trabalho não lhe dirá: “acho que você precisa se dedicar mais a seus imãos de fé”, mas irmãos sábios são capazes de dizer “você não pode tratar assim o seu trabalho, Deus lhe pôs nele!”. Seus parentes não vão lhe dizer “Ei, o churrasco de domingo aqui vai terminar às 17 horas, isso não vai te atrapalhar a chegar no culto?”, mas o seu pastor pode dizer, “chegue pelo menos para a pregação, mas procure não faltar ao culto. Contudo, não deixe de estar no churrasco de aniversário de sua mãe”.
Há ainda ilusões provocadas por “mimos” que o mundo que não pode amar sem Deus vai querer te dar. Não ser cobrado pelo mundo em um servo de Deus e de seus irmãos da igreja pode te confundir ao te oferecer um ambiente livre de cobranças relacionais morais. Mas isso é apenas uma ilusão! Como a vida ímpia é compartimentada, você pode ser um adúltero/a e continuar servindo no seu trabalho secular, enquanto na igreja você seria disciplinado e afastado até sua recuperação. Isso faz parecer que os ímpios “te entendem melhor”.
Somam-se a isso os elogios pelo seu desempenho no trabalho concorrendo em seu coração com as glórias que você não recebe na igreja, pois elas são unicamente para Deus. Sim, a verdadeira igreja não glorifica seus trabalhadores, não lhês dá abonos salariais por horas extras de discipulado e nem exalta seus feitos, ao menos sem antes dizer Quem verdadeiramente fez todas as coisas: Jesus!
Lydia Schaible, autora do artigo “Vida centrada na igreja”, desenvolve de modo simples e brilhante esse tema. Ao falar sobre uma vida cristã “marginal à igreja” ela diz:
Negligenciar a vida da igreja leva à deterioração em outras áreas da vida. Podemos pensar que abandonar as reuniões da igreja por reuniões familiares abençoará nossa família, que mudar para longe da igreja por causa de nossa carreira vale o custo, que a escola dominical é mais dispensável do que uma hora extra de sono ou que menos relacionamentos e compromissos da igreja reduzirão nosso estresse. Mas o inverso é verdadeiro.
Essas são mentalidades nascidas do esquecimento. Esquecemos que Cristo é nossa maior fonte de bênção, e sua igreja é muitas vezes o principal meio que ele usa para nos crescer, sustentar e encorajar. Os meios ordinários de graça da igreja são o modus operandi para conhecer mais a Cristo.
Sobre como isso pode afetar as diversas áreas e grupos da igreja ela diz:
Um membro da igreja que participa da graça sem entusiasmo não apenas prejudica a si mesmo, mas também a toda a igreja. A saúde de uma igreja dependerá em grande parte de como seus membros a priorizam. A mera frequência leva a uma igreja sem vida, um lugar de pessoas espiritualmente isoladas e solitárias. Os solteiros sentem seu estado relacional de forma mais aguda, os idosos se sentem irrelevantes, os casais mantêm suas lutas enterradas profundamente e os filhos nunca expressam suas dúvidas. Estas são igrejas onde o pecado se esconde com segurança, cobertas por relacionamentos superficiais, longe dos olhos curiosos do discipulado.
Assim como a desnutrição física leva à deterioração, fome e, eventualmente, morte, também a negligência da igreja.
Sei que estou insistindo com você em uma reflexão um pouco mais longa que o habitual sobre a questão de “uma vida centrada na igreja”, mas precisamos admitir que a busca por equílibrio tem levado muitos a um distanciamento da vida com Deus. Tentando colocar todas as coisas no mesmo nível de prioridade e tempo, acabamos por “esfriar na fé”, secularizando a nossa agenda e empobrecendo a igreja.
Para terminarmos, repare como a mesma autora que citei anteriormente termina seu breve artigo falando sobre como a vida centrada na igreja é vigorosa, bela e alegre:
Em contraste, uma igreja cheia de membros comprometidos com sua centralidade é cheia de vida. Os membros se conhecem intimamente, tendo se sentado juntos em torno de mesas de jantar. Após o culto corporativo, os adolescentes são encontrados segurando bebês, dando às mães privadas de sono um momento para meditar sobre o sermão pregado. Casais sem filhos são encontrados conversando com crianças. As viúvas são convidadas para as casas das famílias jovens.
O pecado profundamente enraizado é desenterrado quando homens e mulheres se encontram enquanto trabalham no quintal, tomam café da manhã ou assistem a um jogo. Ao se envolverem em atividades comuns, eles fazem o trabalho extraordinário de divulgar as lutas de seus corações e compartilhar o encorajamento que encontram na Palavra de Deus. Orar juntos é tão natural que ocorre nos bancos após o culto ou em momentos roubados nas reuniões de comunhão. As crianças crescem em um lugar onde o discipulado e a comunhão são vistos como mais essenciais do que ganhar troféus ou bolsas de estudo.
Quando à vida de um discípulo ou discípula de Jesus é centrada na igreja, há poder de Deus em Cristo para que todas as demais coisas da vida sejam acrescentadas e equilibradas. Quando a igreja é central a vida de alguém, o Reino de Deus avança na vida dessa pessoa pois a igreja é a embaixada desse Reino. Mas se a igreja não é central a vida de um discípulo, pode estar certo que outra coisa será. Esse lugar nunca ficará vazio.
Conclusão
Alcançar esse tipo de cultura exigirá uma reavaliação implacável de nossas prioridades. Se a igreja deve ser central em nossas vidas, muitas outras coisas não podem. As normas culturais de organização de nossas vidas em torno de lares, carreiras e família precisarão ser reavaliadas à luz da prioridade que as Escrituras colocam sobre a igreja nas epístolas.
Com nossa perspectiva reorientada, passaremos a ver as reuniões regulares da igreja como as horas mais importantes de nossa semana. Veremos relacionamentos profundos entre o corpo da igreja não apenas como preferíveis, mas essenciais. Podemos ter que dizer não a coisas que presumimos que devemos sempre dizer sim — várias atividades extracurriculares para nossos filhos, oportunidades de progressão na carreira, ausências consistentes e prolongadas que nos afastam da comunidade. Mas, ao dizer não, estaremos dizendo sim ao que realmente enriquece nossas almas e nos prepara para a eternidade.
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