sentido
textos de segunda
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ibuprofeno por dezesseis reais. não lembro dos preços anteriores, nunca fui bom nisso, desde os tempos de acompanhar minha mãe ao mercado.
– boa noite! só isso mesmo?
– sim, sim!
– boa noite!
– boa noite!
essa atendente é nova. simpática como todos.
milhares de remédios e produtos de beleza e higiene. poucos passos e mais um atendente. não era menos burocrático pagar com a pessoa que verificou o preço? deve existir alguma lógica capitalista nessa procissão entre os dois extremos.
– boa noite! só isso mesmo?
– sim, sim!
– forma de pagamento?
– crédito!
– pode inserir ou aproximar.
outro par de boa noite e aproveito para me pesar. é algo instintivo, talvez, até tradicional. mais pesado? não pode ser, essa balança só pode estar desregulada.
saio irritado com a balança e o preço do yopro. o sinal segue aberto e espera minha aproximação para fechar. só pode ser isso, não tem como. bato na caixa de remédio como se fosse pandeiro e espero.
fico com o olhar preso no grafite de uma figura andrógina. qual o sentido da vida? tenho tantas perguntas. devo tomar o remédio agora ou esperar o corpo digerir um pouco mais o hambúrguer que acabei de comer?
ele disse que tem me esperado pedir. penso nas vezes que já entalei o pedido. penso nas coisas que ainda temos que experimentar um no outro. meus amigos disseram que isso não existe. há coisas tão empíricas; só a vivência pode trazer respostas. imagino que seja como viver, só é possível aprender vivendo. ou como se curar dos lutos, a cura se alcança se curando. mas penso nele, nas infinitas possibilidades ruins. penso nele, penso nele demais. demais.
sinto uma leve brisa quente, algo surge como quem flutua, me assusta.
roupas pretas, all star, uma camisa vermelha de botão presa em um único braço, lábios vermelhos, cabelos vermelhos e ressecados. um óculos de armação escura e lentes sem grau. jovem, sem dúvida, jovem. no que ela pensa?
tem um calor, uma presença. tão posta que me faz ajustar a coluna. paro de bater na caixa e tento disfarçar a admiração com sua energia vermelha. ela não olha para os semáforos, não olha para os carros. tento olhar para onde ela olha.
parece meio cansada, pelo pouco suor em orvalho no rosto, não pela aparência. ela aparenta força, muita força. para onde ela olha. estou encantado. a menos de um palmo do meu braço direito. nenhuma palavra. será que ela tem medo como eu?
ela carrega uma bolsa. não sei onde está, mas sei que carrega uma. sinto o rosto dela inclinar, tento chocar nossas visões, mas ela não olha nos meus olhos. esse é o sentido.
o sinal abre. ela segue em frente. eu sigo em frente. desvia para a parada de ônibus. eu sigo em frente. esse é o sentido.
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