O esporte milenar que parou no tempo
O esporte milenar que parou no tempo
“Temos que mostrar que nenhum comentário e nenhum machismo serão mais fortes que o amor pela bocha”: conheça histórias de atletas que lutam diariamente para praticar o esporte.
Elian Salazar, Luca Mello, Marcelo Stodolni e Maria Eduarda Fogazzi Zucatti
Marcelo Casagrande / Agência RBS
O machismo é algo enraizado na sociedade desde sempre. No mercado de trabalho, na rua, nas escolas, no esporte. Algo que deveria ser um exercício físico, uma diversão e um método alternativo de trabalho acaba sendo mais um lugar onde as mulheres são desrespeitadas.
A sexualização do corpo feminino, a desvalorização de atletas mulheres, a discrepância nos salários entre os sexos e a falta de investimento nas categorias femininas de diversas modalidades faz com que a força de vontade de uma mulher tenha de ser dobrada. Seja em um esporte profissional ou amador, o machismo está presente e é extremamente desconfortável para qualquer uma. Na bocha, é visível o quanto as atletas são desmerecidas e afetadas com uma condição que não deveria nem existir no século em que vivemos.
Atualmente, a bocha é um esporte amador, mas difundido pelo país. Ela é dividida em 5 categorias diferentes: Masculino, Veteranos Masculino, Juvenis, Feminino e Duplas e Trios Mistos. O jogo consiste em aproximar o máximo possível determinado número de bolas maciças de material sintético com cores distintas (as bochas) de outra bola menor denominada “bolim”.
Para isso, se joga em uma cancha de 24 m de comprimento por 04 m de largura, limitada por duas laterais de madeira de 25 a 30cm, mais uma tela de proteção de aproximadamente 80cm de altura e duas cabeceiras de 01 metro e meio de altura.
Confederação Brasileira de Bocha e Bolão — Regulamento Oficial
O jogo pode ser disputado nas modalidades individual/simples, duplas e trios. No individual, o jogador terá 4 bochas suas, enquanto em duplas ou trios, cada jogador terá duas bochas cada. Nas partidas de duplas ou trios, é permitida a substituição de um jogador por equipe. O esporte consiste em colocar as bochas o mais perto possível do bolim. O adversário, por sua vez, procura situar a sua bocha mais perto ainda do bolim ou de remover aquelas que estiverem mais perto do mesmo.
Ao começar o jogo, a equipe que ganhou o sorteio lança o bolim e joga a primeira bocha. A equipe adversária joga a sua primeira bocha até se aproximar mais do bolim, mediante “ponto”, “bochada” ou “rafada”, as jogadas permitidas. A bochada e a rafada — também conhecida como rafa — são modos de “atirar” a bocha para que a mesma seja lançada contra a bocha do adversário, com o intuito de tirá-la de perto do bolim.
Quando uma equipe não tem mais bolas, o seu adversário joga e procura fazer o maior número de pontos, ponteando, bochando ou rafando as que estiverem atrapalhando esse objetivo. Após jogadas todas as bochas, a uma equipe contará os pontos de acordo com quantas têm mais próximas do bolim, a partir da melhor bocha colocada do adversário.
O jogo continua no outro sentido da cancha e o bolim será lançado pela equipe que marcou na jogada anterior. Vence a partida a equipe que fizer o número de pontos previamente combinado, sendo hoje 12 ou 15.
A HISTÓRIA DA BOCHA
As primeiras notícias nos hieróglifos e escritos antigos remontam ao ano de 5200 A.C. e nos falam que os egípcios praticavam o esporte com bolas de madeira e pedras arredondadas. Na Idade Média, castelos e terrenos livres foram campo de contendas entre jogadores de bochas. Em 1319, Carlos IV, e no ano 1370, Carlos V, proibiram a bocha “por distrair o povo dos outros exercícios mais convenientes para a defesa do Reino, como o Arco e a Balestra; a Faculdade de Medicina de Montpellier, no entanto, preocupou-se em lembrar aos soberanos, que o esporte era o remédio ideal para o reumatismo e, portanto, importante para os soldados.
No ano de 776 A.C. realizou-se na antiga Grécia a primeira Olimpíada. Por volta de 300 A.C. Oribase, físico que viveu na Grécia, descreve exercícios praticados por homens de meia idade que reuniam-se em ginásios para arremessar bolas de diversos tamanhos à maior distância possível. Não era como uma exibição de força, que na época era cultuada e enaltecida pelo povo, mas sim um meio de manter a saúde física e mental equilibrada.
No tempo do Império Romano este esporte se difundiu, aparecendo oficialmente nos festivais organizados pelos nobres e governantes, sendo chamado de “boche”. A versão romana da bocha constituía-se em rolar as bolas pelo chão em direção a algum objeto. Durante a expansão do Império, o jogo foi levado pelos exércitos de ocupação a todos os povos por eles dominados.
Na Idade Média, tornou-se imensamente popular na França, onde era conhecido como “Jeu de Grosses Boules” (Jogo das Grandes Bolas) e praticado em ruas e praças públicas. Por volta de 1500 já era bastante praticado na Itália, França, Espanha e Inglaterra.
Os italianos trouxeram a bocha para o Brasil no fim do século XIX. No período compreendido entre 1875 e 1935, aproximadamente 1,5 milhão de italianos ingressaram no País, e, como a bocha já fazia parte de sua cultura, logo que chegaram a São Paulo iniciaram a prática do esporte e expandiram o jogo pelo Brasil. Essa cultura milenar, que na Itália surgiu no período dos imperadores, chegou ao país como uma manifestação de lazer, cuja prática auxiliava a diminuir a saudade da terra natal dos imigrantes e criar um ambiente de alegria para as famílias. No início do século XX, o jogo da bocha era praticado no estado de São Paulo, no sul de Minas Gerais, em pequenas comunidades do Espírito Santo, no Rio de Janeiro, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Os jogos serviam como passatempo e faziam parte do convívio social. No início, os imigrantes Italianos faziam as canchas junto às paróquias e, aos poucos, o esporte foi se disseminando e passando a ser praticado em clubes, praças, empresas e bares.
Em 1944, realizou-se o I Campeonato Sul-Americano masculino de Bocha, em Buenos Aires, Argentina. Mas foi só em 1987, na cidade de São Caetano do Sul, São Paulo, que se realizou o I Campeonato Sul-Americano Feminino de Bocha. Neste mesmo ano, também em São Paulo, foi realizado o I Campeonato Brasileiro Feminino de Bocha, com a participação de 05 Estados — Rio Grande do Sul, São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Santa Catarina, com a equipe de São Paulo saindo vencedora.
O MACHISMO NA PRÁTICA
Como a modalidade feminina se iniciou muito depois do que a masculina, muitas pessoas ainda vêem as mulheres como atletas inferiores e que não merecem o destaque que possuem. Atualmente o número de mulheres federadas diminuiu em relação aos anos 80 e 90, e as atletas suspeitam que seja por conta tanto do machismo quanto da liberdade das mulheres no mercado de trabalho e na vida urbana.
De acordo com a Federação Gaúcha de Bocha, as mulheres representam apenas 6% dos atletas federados em 2023. Ou seja, dos 1.326 atletas atuantes no Rio Grande do Sul, apenas 76 são mulheres. Isso sim, se dá por conta do machismo no esporte. A atleta de Carlos Barbosa Julia Loss possui 20 anos e já sentiu diversas vezes o machismo em sua pele.
Por ter cabelo raspado, uma vez entrei na cancha para jogar uma partida de duplas mistas e escutei o adversário se perguntando se ‘isso não era de duplas mistas? porque tem outro menino na cancha?’ e eu sinto que isso faz com que a bocha feminina perca sua força no estado.

Julia Loss./Arquivo Pessoal
Além do Rio Grande do Sul, atletas dos estados de Santa Catarina e São Paulo também vivenciam situações lastimosas como a declarada por Julia.
Algumas vezes não me deixavam jogar por ser mulher, era um campeonato masculino mas sempre briguei por isso, é a mesma regra é tudo igual tanto para masculino como feminino. Eu ficava chateada porque não tinham motivos para que eu não pudesse jogar, todo mundo falava que eu jogava bem. Um dia saí de São Paulo e vim para o Paraná jogar em um torneio de duplas masculino, eu e a minha dupla éramos as únicas mulheres lá. Tive que viajar quase 800km para poder jogar um torneio onde lá era liberado.
O relato é de Ana Caroline Martins, vice-campeã mundial de simples feminina em 2015 em Roma e vice-campeã de duplas femininas em 2017 na Polônia, além de incontáveis campeonatos brasileiros, catarinenses, paulistas e até pan-americanos. A atleta possui 34 anos e joga desde os 7, quando acompanhava os pais que eram técnicos de um time de bocha em Campinas — SP. Jogadora a 27 anos, Carol — como é chamada no mundo do esporte — conta que conforme ela foi ganhando campeonatos e conquistando o respeito dos homens, o machismo foi diminuindo.
Carol após conquistar seu vice-campeonato no mundial em 2015./Arquivo pessoal.
É desprezível notar que, no mundo da bocha, uma mulher precisa conquistar campeonatos e prestígios para ter o mínimo que merece: respeito. A campeã mundial de duplas femininas, Ingrid Schulz, é a prova viva disso. O título foi conquistado no ano passado na Turquia, e é reconhecível que seu “nome” e títulos lhe dão um maior respeito no ambiente bochófilo.

Ingrid (esquerda) e sua parceira, Diva, no pódio na Turquia./Arquivo pessoal.
Praticante desde os 7 anos, Ingrid hoje possui 40 anos de vivências no esporte, 3 títulos de terceiro lugar em mundiais, além do ouro em 2022 e muitos outros campeonatos.
Hoje, os meninos que eu jogava de brincadeira quando criança comentam: ‘’tu teve sucesso, tu seguiu com a bocha, né? E tu tá aí, representou a gente no mundial na seleção e trouxe essa medalha de ouro que tanto nos orgulha’ então, hoje eles comentam isso, mas quando eram novinhos da minha idade eles não aceitavam. Porque vão dizer que uma mulher está ganhando de um homem? Mas eu levava na esportiva, até porque a gente era criança.
Jaine Arbter, de 23 anos, joga desde os 11 anos de idade, mas só se tornou atleta federada a pouco tempo. Por isso, começou a disputar campeonatos mais regrados e coordenados pela Federação de Bocha responsável a menos tempo que as atletas anteriormente citadas. Porém, isso não anula o fato de que Jaine sofre com o machismo em qualquer cancha que jogue. Moradora de Horizontina, no noroeste do Rio Grande do Sul, a atleta joga em clubes federados em Santa Catarina, e viaja até o estado em semanas de campeonato.
Eu tive que lidar logo de cara assim desde o começo, tomando muita pancada e sofrendo muito machismo e preconceito.
Mesmo que federada por Santa Catarina, a bochófila joga campeonatos em sua morada também. Existem casos específicos em que isso pode acontecer, dependendo do atleta, do clube e da federação relacionada ao caso.
Nesta situação da Jaine, a mesma estava participando de um campeonato intermunicipal em Horizontina, e relata uma das diversas situações em que tem de conviver no esporte:
Em uma rodada que eu fui jogar, o cara falou que o dia que ele perdesse para uma mulher ele pararia de jogar bocha, que era uma vergonha. E na final nos enfrentamos e ele acabou perdendo. Eu fui campeã. Desse jeito, teriam vários jogadores que deveriam parar de jogar bocha.

Jaine com o troféu conquistado./Arquivo pessoal.
Sabemos que o machismo no esporte melhorou muito com o tempo. Porém, estarmos no século 21 e ainda vivenciarmos situações como as que você leu aqui desanimam e desestimulam meninas e mulheres a iniciarem suas trajetórias no esporte. Por mais que haja projetos nas federações, como a implementação das duplas e trios mistos na modalidade juvenil, e campeonatos terem categorias mistas, é necessário que a mudança venha de cima e que haja punições para o machismo, assim como existem para o uso de álcool em determinados campeonatos. As mulheres merecem respeito, e requerem seu lugar no esporte tão amado por elas.
메타데이터
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