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Quando Aqui

No processo de escrita de uma tese, vamos criando uma constelação de referências de textos e imagens que produzem um campo de consistência…

Renata Oliveira · 2026-06-11 19:49 · 0 claps · 5.4 min read
#casa #pele #holobionte #historia #tempo
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Quando Aqui

No processo de escrita de uma tese, vamos criando uma constelação de referências de textos e imagens que produzem um campo de consistência para o nosso pensamento. No CineLapinhô desse ano, um dos filmes convidados foi Quando Aqui (2024), do diretor André Novais (1) que, sem dúvida, agora compõe esse meu campo afetivo-intelectual-imagético, constelando como imagem que me auxilia no processo de imaginar um corpo não-tão-humano, com uma existência não-tão limitada pelas categorias de tempo e espaço que reafirmam a forma-indivíduo moderna.

Quando Aqui é um experimento simples e sensacional: ver a casa distendida e distendendo-se numa escala de tempo que, a princípio, seria estranha a ela. O filme apresenta a casa do diretor e sua família, acrescida das várias camadas de tempo e duração, memórias afetivas através de fotografias, futuros moradores possíveis, o espaço antes da casa, antes da colonização ou mesmo antes da existência humana.

O que o filme produz não é apenas uma ampliação temporal da casa, mas uma transformação ontológica daquilo que entendemos por casa. Quando diferentes durações passam a coexistir no mesmo plano perceptivo — a memória familiar, o solo anterior à construção, os habitantes futuros, os tempos geológicos e coloniais — a casa deixa de aparecer como objeto. Ela surge como um nó provisório em uma trama muito mais extensa de relações e temporalidades.

Essa mistura de escalas produz rupturas na percepção que, a meu ver, fazem desse filme, de alguma maneira, “parceiro” da minha tese. Porque assim como a casa de André Novais, o corpo também é habitado por passados, presentes e futuros que excedem a escala do indivíduo. Cada célula, cada bactéria, cada tecido carrega histórias distintas, ritmos distintos, durações distintas. O holobionte talvez seja justamente isso: um modo de nomear uma coexistência temporal.

Se Hundertwasser criou a teoria das cinco peles — corpo, roupa, casa, sociedade, planeta — , no pensamento do holobionte e no filme essas dimensões se intercalam, se intercambiam, comunicam-se, complexificando a percepção do que venha a ser eu e do que venha a ser casa. Cada pele atravessa as demais. Corpo, casa, cidade, mundo, presentes, passados, futuros habitando a pele de luz da tela de cinema, acendendo em nós a sensação de multidimensionalidade que nos constitui e a nossas células. Como holobiontes, somos composição de durações.

Da casa para o corpo

Sonja Bäumel, artista austríaca, em sua instalação performativa Entangled Relations — Animated Bodies, apresentada na 23ª Triennale di Milano (2022), também mistura elementos corporais fazendo variar escalas de tempo e tamanho.

Bäumel explora os limites do corpo humano e sua relação vital com o mundo microbiano, propondo que a “fronteira corporal” se desfaça e se torne fluida — a pele deixa de ser borda e passa a ser membrana permeável, interface de um biotopo ambulante. A instalação parte do dado científico de que aproximadamente 50% das células que formam nosso corpo são microbianas, e de que esse microbioma co-evolui conosco, vivendo na pele e dentro do corpo.

Como já dizia Deleuze, “O que é um corpo senão uma composição de velocidades e lentidões sobre um plano de imanência?”

As durações nos atravessam, como no poema História, de Ana Martins Marques:

História

Tenho 39 anos.

Meus dentes têm cerca de 7 anos a menos.

Meus seios têm cerca de 12 anos a menos.

Bem mais recentes são meus cabelos

e minhas unhas.

Pela manhã como um pão.

Ele tem uma história de 2 dias.

Ao sair do meu apartamento,

que tem cerca de 40 anos,

e uma camiseta de não mais que 3,

troco com meu vizinho

palavras

de cerca de 800 anos

e piso sem querer numa poça

com 2 horas de história

desfazendo

uma imagem

que viveu

alguns segundos (2).

Esse poema também compõe minha constelação da tese. O corpo da pessoa do poema é um corpo para habitar a casa do filme de Quando Aqui. Um corpo feito de idades distintas, atravessado por histórias heterogêneas, composto por temporalidades que não coincidem. Somos.

Do corpo para a casa

A pele não é apenas a fronteira do eu — ela é um ecossistema. O microbioma cutâneo, constituído por bactérias, fungos e vírus que habitam predominantemente a epiderme, é uma comunidade dinâmica e singular: cada corpo carrega uma assinatura microbiana própria, modulada pela genética, pelo ambiente e pelos hábitos. Não somos um indivíduo estéril, não somos cercado de microrganismos. Somos um emaranhado, vivemos com. Somos holobiontes.

E esse microbioma não é estático, igual a si. Ele se transforma e prolifera. A cada hora, um ser humano saudável emite mais de um milhão de partículas biológicas no espaço ao redor — pela respiração, pela pele, pelos cabelos, pelas células que descamam continuamente. Pesquisadores chamam esse fenômeno de nuvem microbiana pessoal: uma aura invisível, densa e individualizada, que nos acompanha por onde andamos e que é suficientemente distinta para identificar cada pessoa. Carregamos nossa floresta junto ao corpo.

Essa nuvem coloniza os ambientes que habitamos. As superfícies de uma casa — puxadores, balcões, pisos — carregam a assinatura ecológica dos seus moradores. Quando uma família se muda, leva menos de um dia para que o microbioma do novo espaço se assemelhe ao do anterior: nossos simbiontes chegam primeiro, microscopicamente. E quando alguém vai embora por alguns dias, sua presença microbiana começa a se apagar das paredes; após cerca de 72 horas, o traço se dissipa, absorvido pelos que ficaram.

A casa, portanto, é tanto o espaço que habitamos quanto o espaço que nos habita de volta. O microbioma doméstico é constituído pela presença humana, pelos animais de estimação, pelas plantas, pelo solo que entra pela sola dos sapatos, pelo ar que entra pelas janelas. Estima-se que cerca de 9 mil espécies diferentes de microrganismos possam ser encontradas no ambiente doméstico, diversidade que afeta diretamente a saúde imunológica dos residentes. A exposição precoce a essa variedade microbiana doméstica treina o sistema imunológico a distinguir ameaças reais de inofensivas.

A constatação de que os habitantes deixam rastros biológicos nas superfícies e atmosferas das casas, torna possível imaginar a habitação para além da arquitetura. Habitar é compor ecologias, produzir atmosferas, deixar vestígios, misturar temporalidades. A casa torna-se uma extensão metabólica dos corpos que a atravessam, ao mesmo tempo em que os corpos se tornam extensões móveis dos ecossistemas domésticos. E assim como os habitantes humanos, cada um desses seres também terá história, memória e durações a atravessar a vida da casa.

Quando o filme inclui não apenas passado e presente, mas também futuros possíveis, esses futuros atuam como forças no presente. Ativam em nós a consciência de que o futuro é uma força que compõe com o agora.

Quando Aqui, o filme, se tornou um “filme do coração” da minha tese e Quando aqui, a expressão, tornou-se uma dimensão espaço-tempo necessária e pertinente para pensar/operar o corpo holobionte, porque deixa de funcionar apenas como indicação de lugar e passa a nomear uma condição. Um modo de existência em que espaço e tempo deixam de ser coordenadas fixas e tornam-se relações em permanente composição. O aqui contém muitos passados, o aqui contém muitos futuros, oaqui contém muitos seres.

Pensar o corpo como holobionte talvez seja justamente aprender a perceber essa espessura temporal e ecológica do presente. Não somos apenas quem está aqui. Somos também o que persiste, o que nos atravessa e aquilo que, silenciosamente, já começa a chegar.

(1)

QUANDO AQUI

Viajar no tempo sem sair do lugar.

FICHA TÉCNICA

Estado de Produção: Minas Gerais

Direção: André Novais Oliveira

Roteiro: André Novais Oliveira, Esther Az e Clara da Matta

Produção: André Novais Oliveira, Gabriel Martins, Maurilio Martins, Raquel Hallak e Thiago Macêdo Correia

Produção Executiva: Clara da Matta e Thiago Macêdo Correia

Direção de Arte e Figurino: Esther Az

Montagem: André Novais Oliveira e João Gabriel Riveres

Fotografia: Wilssa Esser

Som: Flora Guerra e Tiago Bello

Produtora: Filmes de Plástico

Coprodução: Universo Produção

Elenco: Norberto Novais Oliveira, Renato Novaes, André Novais Oliveira, Maria José Novais Oliveira, Felipe Oládélè, Matéria Prima, Natalia Neves, Lucas Azevedo, Sofia Azevedo, Italo Augusto, Danilo Souza, Wellington Cintra, João Batista de Azevedo, Yná Krenak, Shirley Djukurnã Krenak

(2)

Belo Horizonte, 7 de novembro de 2016

© Ana Martins Marques Risque esta palavra. São Paulo: Companhia das Letras, 2021


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