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MEU DEFEITO DE COR

Tenho uma das versões digitais do livro Um defeito de cor, de Ana Maria Gonçalves. Na aba “Visão Geral” do meu aplicativo, encontrei a…

Denis Konrado Fehlauer · 2026-01-16 13:48 · 0 claps · 2.6 min read
#racismo #desumanizante #preconceito #visão-de-mundo #cosmovisão-cristã
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MEU DEFEITO DE COR

Tenho uma das versões digitais do livro Um defeito de cor, de Ana Maria Gonçalves. Na aba “Visão Geral” do meu aplicativo, encontrei a informação de que a obra foi considerada, por um dos grandes jornais do país, a sétima entre as 200 mais importantes para entender o Brasil.

Ainda não li, mas algo me diz que dar uma espiada nos oitenta anos retratados pelo livro vai causar algum desconforto. Tenho certeza de que não estou sozinho. Há muita gente por aí que se sente mal quando ouve falar de violência gratuita.

Afinal, qual é a justificativa para sentir ódio, medo ou nojo de alguém, com base na cor da pele, no jeito do cabelo ou lugar de nascimento? Para mim, o racismo não faz nenhum sentido.

Isso porque quando eu tinha entre doze e quatorze anos, curioso como era, resolvi ler a Bíblia. Li-a inteirinha, umas duas vezes, no espaço de dois anos. Uma das poucas coisas que entendi foi que todos — quero dizer, toda a humanidade — somos descendentes de Adão e Eva. Então, somos todos irmãos.

No entanto, como membros da grande família humana, não somos perfeitos. Não se pode ter tudo na vida — e por aí vai. E não demorou para eu sentir isso na pele. Sendo bisneto de alemães, uma das minhas “imperfeições” é a ausência de melanina. Para mim, isso passou a ser um defeito de cor — e bem doloroso.

Pelo que me lembro, comecei a arder em 1976, quando tinha oito anos, na praia do Perequê (Guarujá/SP), onde moravam dois tios do meu pai. Mais tarde, ao visitar meus avós, ano após ano, em uma das belas praias do Estado de Santa Catarina, experimentava as queimaduras se multiplicarem — principalmente no rosto e nas costas.

No primeiro dia eu brincava desde o nascer até o pôr do sol, como se não houvesse amanhã. Mas, à noite, começava o meu calvário, que poderia se estender por três ou quatro dias.

É verdade que o bendito protetor solar surgiu em escala industrial no Brasil apenas em 1980, e os irmãos Johnson só lançaram o Sundown por aqui, com três níveis de proteção, no ano de 1984. Como nasci em dezembro de 1968, fiz umas contas e percebi que eu poderia ter evitado boa parte dos meus delírios noturnos.

Não sei se meus pais desconheciam a existência desse recurso ou se era algo muito caro. Nunca perguntei a eles. Mas hoje, ao me arriscar na praia ou no campo, minha primeira providência é comprar uma boa quantidade de bloqueadores solares. Misericórdia.

Isso porque, como desde sempre, a única cor que eu “pego” é o vermelho, que lentamente vai se transformando em algo mais parecido com um marrom desbotado — ou algo assim.

O problema é que demora tanto para essa nova cor chegar que, depois que aparece, não dura mais que dois dias. Então, aquele branco puro — também chamado de branco óptico ou branco neve, sem interferência de subtons, que reflete a maior quantidade de luz e é muito usado em papel, tecidos brancos, luzes LED e fotografia — volta a reinar. É de lascar.

Sendo assim, desisti de me esforçar para “pegar uma corzinha”. Deixo isso para os(as) que nasceram privilegiados pela melanina. Ao decidir encarar o sol, me protejo dos pés até o último fio de cabelo — e sigo a mais importante dica de verão que já ouvi: “fique na sombra”.

Mas, apesar desses pesares, eu não me atreveria a comparar as dores que senti por conta do meu defeito de cor com aquelas que sentiram — e sentem — as pessoas representadas pelos personagens do livro de Ana Maria Gonçalves.

Com certeza, a dor de ser rejeitado(a) e maltratado(a) por uma razão tão banal como a cor da pele é infinitamente maior do que a dor produzida por uma queimadura solar.


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