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O Retorno do Filho Pródigo (Murillo, 1667-1670) em uma leitura da Análise Existencial

Amar significa poder dizer tu a alguém (...) O verdadeiro amor, pelo contrário permite ver com mais nitidez e profundidade (...)

Abraão Vieira · 2026-08-24 01:06 · 0 claps · 4.0 min read
#viktor-frankl #filho-prodigo #psicologia-existencial #logoterapia #sentido-da-vida
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“Este meu filho estava morto, e reviveu; tinha se perdido, e foi achado.” (Lc 15,24)

Voltemos nosso olhar para a cena “O Retorno do Filho Pródigo” (1667–1670), de Bartolomé Murillo.

Detenhamo-nos numa breve écfrase. Murillo é um dos mestres do barroco espanhol e muitas de suas composições são marcadas pelo contraste entre claro e escuro, característica marcante do estilo barroco.

Ao centro, podemos observar o Pai e o Filho em tom mais claro e aberto em comparação com o restante do quadro. Este mesmo contraste também é traçado nas novas e coloridas vestes que estão nas mãos do servo à direita. “(…) o pai falou aos servos: Trazei-me depressa a melhor veste e vesti-lha, e ponde-lhe um anel no dedo e calçado nos pés.” (Lc 15,22).

O Filho é amado, ainda que carregue na própria carne os sinais de sua imprudência. Seus pés estão sujos, suas vestes mal se sustém ao corpo, ele permanece ainda ajoelhado ao chão; contudo, o Pai o toca como se tentasse pô-lo em riste, de pé. A cena parece construída em torno do filho, como se o ambiente o envolvesse, reconhecendo ainda sua dignidade.

Um detalhe ainda chama atenção: à esquerda, quase escurecida, há a imagem de um servo e uma criança conduzindo o cordeiro cevado para a festa. Poderíamos entrever aqui diversos signos; no entanto, detenhamos-nos somente num destes. É possível imaginar as inúmeras vezes que o Pai e o Filho, há anos, preparavam o cordeiro para os banquetes de sua casa.

Dando um passo na imaginação, talvez Murillo tenha deixado quase um espelho entre a cena do servo, da criança e do cordeiro e o reencontro entre o Pai e o Filho.

Ao centro, o Pai observa o Filho Pródigo com ternura, enquanto um cão lhe lambe os pés. Ao fundo, o servo parece olhar também com ternura para o menino, enquanto o cordeiro se permite conduzir. Nota-se, contudo, uma diferença: o olhar do Filho volta-se ao Pai, e o olhar do menino, ao animal.

Acaso não foi essa a justa mudança a partir da experiência do Filho Pródigo?

O olhar é retirado da herança paterna e, talvez pela primeira vez, responde à ternura do Pai.

“Amar significa poder dizer tu a alguém. E não significa apenas poder dizer tu a uma pessoa, mas poder dizer sim a ela: portanto, não somente ocupar-se dela em sua essência, em sua singularidade e sua unicidade (…) mas ainda reconhecê-la em seu valor intrínseco. Ver um ser humano não apenas no seu ser-assim-e-não-de-outro-modo, mas acima de tudo ver o seu dever-ser e seu poder-ser. (…) O verdadeiro amor, pelo contrário, faz com que o homem veja com mais nitidez e em profundidade.” (Frankl, 1991, p. 78–79) ¹

Entre as palavras do psiquiatra austríaco e a obra de Murillo, podemos intuir o fio da meada. A mudança do olhar das coisas para a relação — da herança para o Pai — aponta para um aspecto que exige também atenção de nossa parte.

O Filho Pródigo caminha da dignidade filial para uma espécie de coisificação e, novamente, retorna à sua dignidade filial. Ao abandonar a casa paterna, primeiro torna-se cliente das tavernas e das meretrizes — a relação existe enquanto interesse, somente. Em sua falência, desce a um nível ainda inferior: torna-se cuidador de porcos. Enfim, sua dignidade como pessoa parece perder-se; torna-se inferior, por fim, aos próprios animais — indigno até mesmo da lavagem.

“Desejava ele fartar-se das vagens que os porcos comiam, mas ninguém lhas dava.” (Lc 15,16)

E retorna à casa do Pai.

“Estava ainda longe, quando seu pai o viu…” (Lc 15,20).

O primeiro ato é um olhar. Alguém ainda guardava em si a imagem de sua dignidade enquanto homem: o Pai.

Talvez se possam colocar nos lábios do filho:

“Embora eu caminhe pela escuridão desta estrada solitária, sinto algo crescendo dentro de mim: o som de uma esperança eterna!

Misturado com o vento, vindo de algum lugar, ouvi.

Posso ouvir meu nome.

Sim, este é o meu nome.

Uma bênção que me lembra quem eu sou.” (Trecho adaptado de “Namae wo Yobu yo”, Luck Life)

O olhar do Pai o devolve a si. Depois de tantos olhares que o viram como entretenimento, como fonte de interesse e, por fim, como algo inferior a um animal, jamais, porém, como uma pessoa. Por um único olhar, o Filho volta a ser pessoa, com toda a sua dignidade.

Neste diálogo, encontramos uma questão.

Diante de quantos olhares também não nos tornamos algo? Uma função, um instrumento, talvez? Não se trata de um romantismo: a vida exige que cumpramos papéis que nos são designados. Há responsabilidades e funções que devemos desempenhar.

Contudo, talvez uma das formas mais sutis de nos desumanizarmos seja aprendermos a responder “o que faço?” quando, na verdade, nos perguntaram “quem sou?”

Eis o percurso da parábola cristã.

A pergunta que o Filho faz a si mesmo é uma pergunta pelo “quê”. O primeiro passo de seu exílio foi a busca por possuir algo — e não por ser alguém. Aos poucos, porém, é possuído por aquilo que antes desejara possuir: torna-se consumidor, cliente, interessado e, por fim, é colocado abaixo dos próprios animais.

Então, o olhar do Pai o alcança quando o Filho já não consegue descrever-se senão como servo. E esse olhar parece devolver-lhe uma pergunta mais antiga e mais profunda: quem é você?

Como se o próprio Pai o auxiliasse a responder, manda: “Trazei depressa a melhor veste e vesti-lha, e ponde-lhe um anel no dedo e calçado nos pés”.

A resposta, então, pode ser descoberta não no que o Filho faz, possui ou é capaz de oferecer, mas naquilo que o Pai reconhece nele: filho amado.

E, permitindo-me, por fim, uma pequena bênção ao leitor, deixo-lhe a pergunta que talvez permaneça depois da pintura:

“qual teu nome?”

¹ FRANKL, Viktor Emil. Psicoterapia para todos. Petrópolis, RJ: Vozes, 1990.


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