← Back to list

A Casa

Me considero um homem de sorte e acho bonito ter esse olhar para mim mesmo. Primeiro porque eu acho a sorte das coisas mais belas que há…

Ton Fernandes · 2025-12-14 20:59 · 10 claps · 6.9 min read
#casa #decoração #morar #lisboa #sorte
Open on Medium ↗

A Casa

Me considero um homem de sorte e acho bonito ter esse olhar para mim mesmo. Primeiro porque eu acho a sorte das coisas mais belas que há. Ela simplifica qualquer questão e parece um privilégio de poucos. Segundo porque ser um homem e ter algo bonito como a sorte, me parece uma combinação matadora. Talvez ser homem nos dias de hoje, já seja uma baita sorte. Facilmente a sorte também desmerece e esse é o cuidado que tenho sempre ao tentar discernir qual sentido é lançado quando, por vezes, esse reconhecimento surge no alheio.

Ser um homem de sorte não facilita com que tudo dê certo sempre. Me reconheço como um homem de sorte pois percebo quando estou diante da sorte. Isso jamais seria corriqueiro. Mas a valorizo pois sei que mesmo sendo um homem de sorte, ela dá as caras quando desavisado estou. Esperar por tê-la, a sorte, é imprudente. Ela surge. Algo essencial para que ela apareça, é a distração ou abstenção da sua possibilidade.

Tenho inúmeros casos de sorte desavisada e bem poucos de sorte planejada. Essas eu sempre imagino que por ser um homem de sorte, há um crédito desse tipo de sorte e eu devo utilizar com muita parcimônia. É como ter cancelada aquela reunião que eu não estava preparado ou ter os resultados negativos depois de conscientemente ter me exposto a algum risco. No entanto, eu não sei qual o limite desse crédito e utilizar desse recurso é sempre um perigo enlouquecedor.

A sorte no seu estado cru, aquela desavisada e que aparece para ser memorável, surge com pessoas que cruzam o meu caminho e entram na minha vida, para médio ou longo prazo ou quando eu achei a primeira casa que eu posso chamar de minha.

Luminária “nova” para a minha casa.

Luminária “nova” para a minha casa.

A casa sempre me pareceu base fundacional. Eu me emociono com a importância e tantos significados que o ato de morar carrega. Morar em si. Morar em alguém. Morar em uma casa. A casa precisa ser entendida como a pedra filosofal fisica existente, que te guarda, que te protege, amém.

A vida toda a casa da minha mãe sempre foi a minha casa, e assim o será para sempre. Eu sempre estranhava quando alguém dizia “vou na casa da minha mãe”. Hoje lanço mão desse argumento, apesar dele nunca passar incólume. Ao dizer isso eu reconheço que há uma casa dela e uma casa minha. Elas estão separadas e eu preciso IR para acessar a outra. Isso me traz um sentido de realidade ao qual eu estou no processo de me acostumar.

Ter uma casa sempre foi um sonho, mas talvez o sonho dos outros que introjetei na minha mente como algo a querer, apesar de sempre distante. Não necessariamente realizar esse ato: ter uma casa. Como sou um homem de sorte, segui por vias que me trouxeram a ter uma casa. Ao leitor com cifras na cabeça, não, eu não comprei uma casa. Eu aluguei. Mas eu a tenho. Faz um ano que é o “meu lar” e talvez essa seja a primeira vez que de alguma maneira digo isso. Apesar de muitas vezes usar “lá em casa”, “minha casa”, “voltar pra casa”. Meu lar, parece até mais forte e mais profundo e eu posso estar sendo precipitado ao utilizar essa expressão pois ainda estou na fase de me acostumar a ter uma casa. Ainda não cheguei na fase de me adaptar a ter o meu lar. Até porque, algumas escolhas do que há nessa casa eu não faria. Mas tudo o que há nessa casa, eu teria.

Há um corredor. Surpreendentemente a parte mais importante dessa casa. Ele liga com maestria todos os cômodos e é onde se entra na casa. Eu tenho na mente o que quero pôr na parede do corredor. Eu realmente tenho o desejo de transformar uma das paredes do corredor em uma parede de arte dedicada inicialmente ao Sebastião Salgado e, como suporte para outras imagens lindas que podem se “aprochegar” tendo o caminho aberto por ele. É um desejo antigo desde o dia em que pus os pés aqui e descobri sem querer que no meio das minhas caixas vindas de outra casa, que eu jamais ousei chamar de minha, havia uma coleção de postais desse fotógrafo que eu já nem lembrava que tinha. Foi como achar 50€ no bolso da calça que vai ser lavada. Mesmo que essa casa já não seja mais minha, essa composição de parede certamente seguirá comigo até que se materialize. Para isso, depende de alguns fatores e o principal deles é a moldura. Nunca encontrada, mas também nunca procurada com afinco. Esse é o Tonàa espera do homem de sorte se manifestar.

Há um sofá amarelo. Esse eu teria escolhido como primeira opção. Ele tem postura e tem delicadeza e serve muito bem a função dele de ser para os outros e não para mim. Eu tenho muita satisfação em ter pessoas que amo ou que não conheço que utilizam esse sofá para dormir. Se entregar num sono profundo em um móvel que seria a minha primeira opção, me traz certo prazer. Ele não é um exemplo de conforto, ele é modernista. Satisfatório para ser útil, mas duro o suficiente para ser usado com prazo de validade. Eu me reconheço muitas vezes nesse sofá. Eu adoro que ele se transforma em uma cama e faço questão que ele volte a ser sofá, afinal, sua segunda função deve ser sempre temporária. Ele sozinho já seria uma peça que não passa batido, mas ele tem duas almofadas que o trazem para a normalidade. Resolvi colocar um cobertor que facilmente iria para doação. Para ter uma ideia, o chamo do “cobertor do mendigo”. Na disposição que o pus, acho que compõe bem. Acho mesmo bonito o “sagrado e o profano”, o “erudito e o popular” assim juntinhos. Um sob o outro. Ele me serve mais para os olhos, apesar de todas as manhãs sentar nele para tomar a mesma composição de iogurte, frutas e sementes de sempre.

O sofá amarelo com a luz vermelha indesejada e o armário azul.

O sofá amarelo com a luz vermelha indesejada e o armário azul.

Há um microondas vermelho. Ele é das coisas que mais gosto nessa casa. Ele jamais seria uma escolha óbvia acho que da maioria das pessoas. Mas ele seria minha opção antes de ser a primeira. Gosto da falta de exatidão no relógio que marca o tempo das suas ondas. Já me acostumei e sei todos os pontos para a água que uso para o chá, para o leite quentinho sem derramar e para deixar a sopa “pegando fogo” para que eu tenha tempo de ler as notícias enquanto espero ela esfriar. Gosto do som que ele faz para avisar que já deu. E gosto dele servir de suporte para a minha caixa de som que fica exatamente na direção do meu ouvido quando sento na minha cadeira oficial para comer, trabalhar, estudar, observar minhas plantas e olhar de longe para o mundo lá fora. Eu roubaria esse microondas. Mas ele jamais deixaria essa casa sem ser notado. Esse é o seu pecado.

Há uma estante azul. Ela não seria minha primeira opção. Mas ela tem o papel fundamental de compor as três cores primárias dessa sala. Em funções distintas, mas todas imprescindíveis para uma sala/cozinha da vida atual. Essa estante correga em sua metade os livros da antiga moradora. Os livros que provavelmente ela usava no trabalho, e um ou outro para dar refresco a mente. Obviamente ela gostava de design, tecnológia e também trabalhava com isso. Na outra metade pus os meus livros de trabalho. Todos sobre marketing, branding e um ou outro para refrescar a mente. Eu gosto mais das escolhas dela. A grama do vizinho é sempre mais verde mesmo.

Nunca a vi, mas em nossas interações sinto que nos parecemos. Salva guarda as diferenças culturais que temos por não sermos do mesmo país. Ela é aberta, mas tem suas ressalvas. Eu me vejo e gosto disso. Essa semana vamos nos encontrar fisicamente no Porto pela primeira vez. Depois de um ano e de maneira corriqueira, teremos um encontro para que eu entregue algo que ela mandou por engano para a minha casa. Esse ato falho pode ser um anúncio de que essa casa sempre foi mais dela do que minha e que essa raiz precisa voltar a sua origem. Isso me deixa nervoso. Jamais pela possibilidade de não ter mais essa casa, esse é um drama que não me machuca, mas sim a de encontrar com alguém que estou ligado há um ano e nunca vi. Não sei nem como é a cara, no entanto, tenho acesso a parte da sua intimidade e me sinto unido a ela por isso.

Hoje trouxe para a minha casa uma luminária linda que a minha mãe achou no lixo, mas ela insiste em dizer que foi a dona Elsa quem lhe deu. Eu finjo acreditar. Com essa lorota ela foge de não ser chamada atenção por pegar coisas do lixo. Mantenho esse tom de “puxada de orelha” para que esse mal hábito não se torne rotina na vida dela, mas no fundo eu gosto dessa característica da mãe. Prestar atenção no que já foi importante para alguém. Ela canalizou ser uma boa observadora para o lixo. De alguma maneira isso acaba por ser útil. Eu não herdei esse olhar apurado. Não para o lixo de onde se pode ter muitas explicações. Enquanto escrevo esse texto, decidi que essa será uma luminária que nunca será usada para iluminar. Ela só tem o tom vermelho e isso não me deixa satisfeito. É bom reconhecer que vou usar o que quero dela: apenas a sua beleza e sua história, jamais a sua função.

O trazer para casa algo que apareceu por acaso na minha vida, é algo que quero manter ao compor o meu lar. Eu imagino decorar a minha casa assim, com coisas que vão surgindo pelo caminho. Vou fugir do pacote pronto de um Ikea da vida. Acho mais valioso compor o lar pelo que surge no interesse durante a caminhada. Quando eu tiver a possibilidade de fazer isso dessa maneira, acho que será para o meu lar. Não tenho urgência. Sei que isso vai acontecer em algum momento e será naquele lugar onde quero ficar por muito mais tempo do que quis até agora. Isso me tranquiliza e me deixa satisfeito em esperar.


메타데이터
post_id
e4e7b87992b8
slug
a-casa-e4e7b87992b8
url
https://medium.com/@tonfernandes/a-casa-e4e7b87992b8
canonical_url
https://medium.com/@tonfernandes/a-casa-e4e7b87992b8
author_url
https://medium.com/@tonfernandes
status
ok
fetched_at
2026-06-26 03:39:16