Pure sense: a graça da seriedade com Wislawa Szymborska
Desde que li os primeiros versos de Wislawa Szymborska, em uma livraria em 2012, fui abduzida. Levar o livro para casa e ser levada pela…
Pure sense: a graça da seriedade com Wislawa Szymborska
Desde que li os primeiros versos de Wislawa Szymborska, em uma livraria em 2012, fui abduzida. Levar o livro para casa e ser levada pela poesia, a qualquer lugar, pelas mãos da poeta dava no mesmo. 2012 foi o ano de sua morte, descobri depois. Nunca tinha ouvido sequer mencionar a escritora. Isso sim é um crush de respeito.

Crush das galáxias
O que me capturou foi a graça.
Era tão lindo quando se perguntava “qual a sua graça?” para saber o nome de alguém. Graça que além de dádiva a agradecer aos céus, de dizer o nome próprio, traz elegância, espanto e sorriso. Por mais dilacerante que seja a imagem exalada de um verso da poeta polonesa, ao final da leitura, meus lábios esticavam os cantos. Que efeito.
Efeito Szymborska, que inventa uma outra graça, a graça da seriedade.
Ainda não tinha conseguido ligar esses dois pontos, um certo humor e uma certa seriedade, até ler uma das resenhas do Leituras não Obrigatórias, publicadas na Revista Serrote 27. A escritora publicava comentários de livros não literários considerados “menores”, e foram mais de 300 resenhas. Não duvido que sejam tão deliciosos quanto os cinco publicados na revista em tradução direta do polonês. Aqui o link.
A escrita série sempre me foi uma questão. Alguns leitores, a maior parte amigos, dizem que meus textos são sérios. “O passado é lugar estrangeiro” é um livro sério, sobre a violência do silêncio, o esquecer na carne além da memória. Eu concordo e até prefiro, mas sério me soa tantas vezes como peso, pesando atrás da orelha.
Na graça, Szymborska se tornou uma musa. Musa porque bem inalcançável mesmo. Quem me dera essa graça, aqui no sentido de milagre. Estou lá descalça, com sede, maltrapilha e peregrina nesse caminho sem fé, partida ou chegada.

O meme clichê dos irmãos humor e seriedade, só que gêmeos ou a cópia de um mesmo
Daí a minha alegria quando encontro Wislawa, (será que se importa pela ousadia de chama-la pelo primeiro nome?), me dizendo que o humor é o irmão mais novo da seriedade. “Entre os irmãos existe uma tensão constante. A seriedade olha o humor com a condescendência do mais velho, e, por causa disso, o humor é complexado”. Como revanche, ela espera com ansiedade o momento em que a seriedade comece a invejar o humor.
(Wislawa, aqui em mim, esse momento já chegou faz tempo)
E aqui, o trecho da graça em auge:
Senhores críticos, já que se servem do termo “humor absurdo”, passem a usar o correspondente “seriedade absurda”! Da mesma forma, comecem a distinguir entre a seriedade refinada e a vulgar, a despreocupada e a macabra. Não somente a crítica mas também a escrita jornalística se beneficiarão com o revigorante conceito de pure sense. Não necessitamos descobrir, na vida e na arte, uma seriedade não refinada? Uma seriedade indecente? Uma seriedade brilhante? Uma seriedade bem-humorada?
Necessitamos demais. Por favor, seriedade absurda, entre! E traga a sua graça!
Talvez, em algumas escritas, o humor seja primogênito em uma família onde só o caçula sério tem vez. Por enquanto.
메타데이터
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