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Lembranças do Rio quando eu era jovem

Li mais um conto de Eunice; este, Escala Final delicioso como sempre.

Flavio Musa de Freitas Guimarães · 2025-10-26 01:22 · 1 claps · 5.3 min read paywalled
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Lembranças do Rio quando eu era jovem

Li mais um conto de Eunice; este, Escala Final delicioso como sempre.

O conto me remeteu ao passado, quando eu morei, com Julieta, num apartamento alugado, no Leme, com pequena varanda em que eu me maravilhava com a beleza do mar, da praia, do céu, claro e radiante, cinza sombrio ou em tempestades.

Eu atravessava a Avenida Atlântica, sem correr, pois naquele pedaço, o trânsito era ralo; e me besuntava de protetor solar 50, mergulhava nas ondas que ali não eram traiçoeiras como as de Copacabana, nadava, e voltava para o guarda-sol; mesmo assim, eu, branquelo, ficava com o corpo vermelho, enquanto Julieta, que lá nasceu e viveu até vir morar comigo em São Paulo, se estendia sobre a toalha ao lado, e o bronzeado (lindo) nem conseguia escurecer mais do que já estava.

O apartamento estava na Avenida Atlântica, 756, e tinha saída também por trás, na rua Gustavo Sampaio, 565.

Se você, como eu, adora o Rio, mesmo com todos os problemas de segurança, assaltos e mortes, balas perdidas nas lutas de facções de tráfico de drogas por cada uma defender ou ampliar seus espaços, matando mulheres grávidas, crianças e trabalhadores inocentes, lixo nas ruas e calçadas, edifícios maltratados, saiba que você, eu, e milhões de cariocas e paulistas que o vemos assim hoje, somos resultado de explosão de uma pequena anã branca que nos jogou para fora da curva que, ainda em ascensão, espero que logo chegue ao ápice e comece a se inverter, com novos políticos e políticas que respeitem a cidade, sua gente e turistas, que novamente poderão passear sossegados em seus lindos e históricos parques, ruas e avenidas, que motoristas de táxis e de ônibus voltem a ser como eram, gentis, gostavam do Rio, eram quase que guias de turismo.

Sim somos exceções.

Às tardes, eu subia na pedra do pescador pela trilha; não tinha ainda o calçamento e as muretas de hoje, onde agora está uma escultura em homenagem a Clarice Lispector ali sentada, tendo seu cachorro de estimação, Ulisses, a seus pés

Eu me sentava em uma pedra alta, acima das em que estavam os pescadores, observando sua trabalheira incansável de alisar e endireitar varas escolher iscas, pendê-las no anzol, os movimentos de jogar o anzol esperar, puxar, não vinha nada e continuavam assim; eu não gosto de pescar; achava, e até hoje acho, um divertimento besta, ali, então! Não prestando atenção ao panorama maravilhoso, de Copacabana, o Forte, Arpoador, as cores, formas do mar e suas ondas, no céu, nas nuvens, sempre mutantes.

Eu ali ficava esperando mais um “pôr do sol de trombeta”, como disse Emília, no livro A Chave do Tamanho de Monteiro Lobato, bem atrás de Copacabana e do Arpoador.

Num fim de tarde, o mar estava mais agitado do que o habitual; as ondas já quebravam suas cristas ao longe e quebravam com fúria selvagem, espalhando bordados caleidoscópicos e coloridos quase até o topo da praia.

O sol, já bem baixo, próximo do pôr do sol, fazia com que seus raios se concentrassem de maneira especial nas ondas em movimento que refletiam todas as cores do céu convocadas pelas trombetas dos anjos.

De repente, belos corcéis, crinas esvoaçantes, muitos corcéis, em cavalgada, corriam em disparada de muito longe, onde as cristas das ondas começavam a quebrar até desaparecerem sob a praia.

Não sei quantos segundos aquela obra-prima viva ficou exposta, lá embaixo, para mim, só para mim. A cavalgada desapareceu rapidamente, como em “fade-out”.

Nem tentei procurar os corcéis, pois já sabia que uma alucinação nunca se repete de forma idêntica. Mas fiquei ali nas rochas, sentado no mesmo lugar, até muito depois do anoitecer. Não me lembro de olhar para o mar ou para o horizonte enquanto eles se despiam de suas vestes multicoloridas.

Impossível descrever aqueles momentos, a beleza do que vi, o êxtase que experimentei. Eu, que tenho uma memória tão incompetente para o passado, mantenho tudo muito claro e, de tempos em tempos, como agora que me lembrei de lhe contar, revisito a obra-prima com grande ternura.

Depois do almoço ou á tarde, passeávamos pelo calçadão junto aos prédios; numa delas nos reencontramos, Felipe Herrera e sua esposa Inés, eles então morando num apartamento de um prédio de alto padrão ao lado da praça do Forte Duque de Caxias.

Apresentei Julieta a eles.

Enquanto Felipe e eu caminhávamos e conversávamos sobre os tempos e ações de nossos projetos, de nossos passados de Washington até ali, da situação de então na América Latina, em especial sobre o Chile e Brasil, Inés e Julieta conversavam, e muito. Deu liga; em alguns dias elas também se tornaram amigas.

Mais tarde, quando Felipe convalescia da cirurgia da retirada de um grande tumor benigno do lobo lateral direito do cérebro, fomos visitá-lo, eles então morando num apartamento, não me lembro se no Leblon ou em Ipanema.

Ele do mesmo jeito como o conheci em Washington, alegre, sempre sorridente, raciocínio rápido, conversa inteligente, entremeadas de frases que dizia com normalidade de que ele mesmo ria e nos fazia rir.

Não o conheci quando era mais moço; mas em Biografia, vi que foi brilhante em todos os cargos que ocupou nos governos do Chile e em muitos outros internacionais, melhorando-os e reinventando-os.

O hotel Le Meridien, situado na Avenida Atlântica, transversal à Avenida Princesa Isabel, foi inaugurado em 1975.

No mesmo ano, a francesa Régine Zylberberg, que afrancesou seu sobrenome artístico para Chouckron, empresária da noite parisiense, decidiu inaugurar no Rio, no subsolo do Hotel Le Meridien, a primeira filial da boate Regines’ fora de seu país. Danuza Leão era RP da casa, que reunia políticos e celebridades.

Régine Chouckron e Jorginho Ginle

Régine Chouckron e Jorginho Ginle

Como eu disse, o apartamento tinha porta para a rua Gustavo Sampaio.

Entre meia noite e uma, saíamos, Julieta e eu, caminhando, até a Regine’s.

Do lado direito da rua, havia uma favela, a Favela do Chapéu; os moradores da favela eram protetores de quem morava na Gustavo Sampaio.

Julieta já conhecia a Danusa; na primeira vez que fomos, ganhamos a carteirinha.

Julieta me ensinou a dançar disco music, e me corrigia “Não! Abaixe a mãos!, Agora sim, rode…”, e dançámos as músicas ótimas daquela época, de que ainda gosto: Dancing Queen, You are the Queen, Ring My Bell, You´re The First, The Last (no vozeirão inesquecível de Barry White), Night Fever, I´m Coming, Bad Girls…

Eu, novinho (47 anos 😁), me abaixava até os pés e me levantava, dava passos em sapateado, me girava, girava Julieta, girávamos Julieta e eu.

Uma noite, digo, madrugada, aconteceu de gente parar de dançar, ficar nos observando; ao final bateram palmas!

Ela foi excelente professora.

Tenho que ir ao Rio e voltar a São Paulo pela ponte aérea várias vezes; mesmo hoje, nas caixas fechadas com janelinhas pequenas, me sento sempre à janela; na ida e na volta continuo a ver, do alto, o Rio, admirando suas montanhas, suas praias, suas praças e jardins.

Tenho saudades dos Electra,

Lockheed L-188 Electra

Lockheed L-188 Electra

que tinham janelas largas, e um “fumódromo” na cauda; eu deixava minha pasta sobre o banco, ia lá dar umas pitadas e voltava a tempo de descortinar, ao cruzar o topo da Serra do Mar, o Rio, ainda ao longe.


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