“Era para ser”
Por Dauan Soares
“Era para ser”
Vaneide Amaral conquistou seus maiores sonhos e deseja continuar a vida assim, com saúde e ao lado daqueles que ama
Por Dauan Soares

Vaneide Amaral hoje, aos 48 anos de idade / Acervo pessoal
Aos 48 anos, Vaneide Amaral primeiro se apresenta na condição de professora e, depois, de mãe. A ordem não é casual: reflete a forma como viveu a própria vida. Antes de tudo, ensinar; depois, maternar.
Desde menina, sonhou em ser as duas coisas e acabou misturando ambas na arte de alfabetizar. “Alfabetizava desde novinha. Quando fui ser mãe, já sabia cuidar de criança, não era muita novidade”, diz, com a naturalidade de quem transformou vocação em rotina.
Na infância, entre uma brincadeira e outra, os sonhos se alternavam. Às vezes queria ser paquita, outras vezes assumia o papel de professora ou de mãe, com cadernos improvisados e filhos imaginários.
Cresceu na igreja, até pensou em ser freira, ambiente que moldou valores e silêncios. Fala do pai com carinho, um afeto que atravessa a memória e ajuda a explicar a fé tranquila, sem alarde, que sempre a acompanhou.
A independência veio cedo, mas sem rompantes. Tornou-se concursada após o ensino médio e encontrou segurança nisso. Casou-se. Seus sonhos passaram a ter nome e sobrenome: os filhos, inclusive este que escreve.
Planejou a vida a partir deles, ajustando expectativas, recalculando rotas, aceitando limites. A faculdade foi um desses marcos: conquista construída com paciência, sem romantização. Estudar não era um luxo, era sonho, inspiração para os filhos, desejo. Não estudava por propósito profissional, e sim por acreditar na transformação promovida pela educação.

Vaneide em sua formatura em Letras / Acervo pessoal
Os problemas também chegaram, como chegam para quase todas. Ela os resume com uma frase que parece simples, mas carrega um mundo: “Eu sempre aceitei tudo de uma boa”. Não se trata de conformismo, mas de adaptação. Vaneide sempre foi adaptável.
Mulher de fé, aprendeu a ceder quando era preciso, a se afastar quando a vida exigia rearranjos — inclusive da própria igreja, por respeito às circunstâncias e às pessoas ao redor. Adaptar-se, para ela, nunca foi desistir; foi sobreviver sem endurecer.
No trabalho, a professora se confunde com a mãe. Alfabetizar, para Vaneide, é ensinar letras e cuidar de gente ao mesmo tempo. É ouvir, acolher, repetir quantas vezes for necessário. A sala de aula vira extensão de casa; a casa, continuação da escola. A vida, enfim, segue sem divisões rígidas.

Vaneide e seus filhos / Acervo pessoal
Vaneide Amaral viveu como “era para ser”, e isso diz muito. Em um mundo que cobra ambições espetaculares, ela escolheu a constância. Ainda assim, ou talvez por isso mesmo, ela me cativa — e o que nos cativa também nos aprisiona. Nesse mundo, criei um medo de não ter muitas ambições. Mas, ao te observar, eu me entendi. Mainha, eu me vejo na senhora. Eu te amo.
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