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Os miseráveis — Victor Hugo

Livro publicado em 1862, ambientado com a França do século XIX, considerado a obra prima do autor e pessoalmente um dos livros que me fez…

Espínolismos · 2022-02-20 15:49 · 10 claps · 5.9 min read
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Os miseráveis — Victor Hugo

Livro publicado em 1862, ambientado com a França do século XIX, considerado a obra prima do autor e pessoalmente um dos livros que me fez passar por todas as emoções humanas até agora classificadas, um dos melhores que eu já li, mas prometo deixar a emoção de lado nessa minha experiência narrativa.

“O tijolo” como costumam chamar, conta a fantástica história de Jean Valjean por todo tipo de miséria e martírio imaginado pelo ser humano, e no meio de todo esse caos, encontra uma sorte estranha.

O protagonista nasce em uma vila pequena, onde bem jovem foi apreendido por roubar pão para alimentar sua irmã e sobrinhos, seguindo isso passa 19 anos nas galés, é liberado, já na saída os guardas não lhe dão o dinheiro devido pela pena cumprida em sua totalidade, só o início das depravações que o nosso querido herói vai passar em sua tortuosa vida, que vai ser marcada pelo encontro com um Padre, Monsenhor Bienvenu. Um dos melhores personagens do livro, o que é impressionante, já que passamos somente as primeiras 150~180 páginas com ele, logo no começo já notamos o poder de Victor Hugo em nos envolver nas virtudes dos personagens por um fator recorrente no livro, a resposta deles à miséria, e as ações do Monsenhor refletem em Jean Valjean em todo o decorrer do livro.

Monsenhor Bienvenu

Bispo Charles-François-Bienvenu Myriel, conhecido também como Monsenhor Bienvenu é o primeiro personagem que conhecemos na nossa jornada, e é ele quem muda drasticamente a visão de Jean Valjean sobre a vida. O Monsenhor, diferente dos padres da época, um tanto como franciscano, vê a pobreza como uma verdadeira virtude, e abdica de praticamente tudo aos pobres, anda por ai em sua mula, visitando os pobres da região de Digne e sempre deixando sua porta aberta.

De fato, a estrela do livro de Fantine. Seu encontro com o protagonista levou a parte mais fantástica do livro, também na opinião de Susan Carland, onde Jean Valjean, recebido com todas as honras na casa do Monsenhor (Nota-se que desde que saiu das galés, Jean Valjean passou fome e frio e todos os outros tipos de intempéries por não ser recebido em nenhum lugar) apesar de ser um ex-forçado, acorda na manhã seguinte, subtrai as pratarias da casa, foge por algum tempo até ser encontrado por uns guardas que o levam de volta para a casa do Monsenhor, e é isso que acontece:

“ A porta se abriu. Um estranho e violento grupo apareceu na soleira. Três homens agarrravam outro pelo pescoço. Eram três soldados, e Jean Valjean.

[…]

Monsenhor Bienvenu aproximou-se com a presteza que lhe permitia a idade avançada. — Ah! Então voltou? — exclamou olhando para Jean Vlajean — Estimo muito vê-lo. Mas Então, dei-lhe também os castiçais, que são de prata como o resto, com o que pode obter uns duzentos francos. Por que não os levou juntamente com seus talheres?

[…]

Os soldados largaram Jean Valjean, que recuou. Jean Valjean sentiu-se como quem vai desmaiar. O bispo aproximou-se dele e disse-lhe em voz baixa:

— Jean Valjean, meu irmão, lembre-se de que já não pertence ao mal, mas sim ao bem. È sua alma que acabo de comprar; furto-a aos maus pensamentos e ao espírito de perdição para entregá-la a Deus. […] O que era certo, e disso não duvidava, é que já não era mais o mesmo homem, que tudo nele havia mudado, que não estava em seu controle o fato de o bispo ter-lhe falado e ter-lhe comovido. (HUGO, 2007, p. 90 e p.117–128, vol I)

Esse é o tipo de homem que o Monsenhor é, e o tema da justiça, equidade, perdão, a discussão do legal e do moral, do material e do espiritual, são recorrentes e tratados de forma magnífica, chamando bastante atenção, aos que assim como eu, estudam o direito e se entortam e se dobram no conceito de justiça. A leitura desse livro certamente vai te dar uma luz, melhor, um farol, sobre o conceito de justiça, e se não for tão longe assim, certamente vai te fazer uma pessoa mais razoável.

JAVERT

O principal “antagonista”, o inspetor Javert, de forma resumida, representa a figura da lei sem o aspecto humano, o sistema legal ignorando qualquer particularidade situacional, apenas fazendo seu trabalho e nunca duvidando do código de sua classe. Apesar das poucas aparições do inspetor no decorrer do livro, apenas como uma sombra para Jean Valjean, ele facilmente se tornou um dos personagens com a melhor evolução do livro, principalmente quando se depara com a humanidade de Jean Valjean já no livro 5, e é espantado por uma reflexão moral necessária, de que talvez o ladrão pudesse ser um santo, e que as vezes, o judiciário (Deus para Javert)deve se ajoelhar no chão e pedir desculpas.

MARIUS

Os Miseráveis tem uma carga histórica enorme, as vezes até se tornando um livro realmente histórico pelas divagações que Victor Hugo é tão conhecido. Essas divagações podem contar como um aspecto negativo do livro, já que se estendem por páginas e páginas e até capítulos inteiros como é o caso da Batalha de Waterloo, e alguns leitores podem ficar tentados até em pular determinadas partes, o que não é de todo insensato, porém, me deixe te convencer ao contrário. Apesar de determinadas partes serem longas, e que concordemos, o livro poderia ter algumas páginas a menos, tudo encontra algum sentido, e todas essas divagações te impulsionam a uma total compreensão não só do livro, mas de todo aquele período histórico em geral. O livro te pede um conhecimento sobre a Revolução Francesa, As guerras Napoleónicas, A Restauração, mas não se intimide, veja essa leitura com um projeto, leia no seu tempo, pesquisa o que tiver que pesquisar, pois vai sair dela com um conhecimento vasto sobre a história e o “zeitgeist” da França pós revolução.

Dito isto, o personagem de Marius Pontmercy é o que mais se encaixa no contexto histórico, sendo estudante e mais tarde se tornando advogado, filho de um coronel do exercito de napoleão, e neto de um realista ferrenho, que impede o pai de ver o filho por razões políticas, essa descoberta coloca Marius no caminho da sua jornada por Paris, onde conhece seus amigos revolucionários. É difícil entrar muito no personagem de Marius sem entrar no caminho da experiência do leitor, mas fica aqui a nota de que foi o personagem mais identificável para mim, o advogado mais pobre do seu pais, e alvo do melhor trecho do livro, um dos que mais me afetaram na leitura, e me sinto na obrigação de compartilhar:

“ O jovem pobre além de seus sonhos. Vai aos espetáculos gratuitos que Deus dá; contempla o céu, o espaço, os astros, as flores, as crianças, a humanidade em meio à qual sofre, a criação em meio à qual resplandece. Tanto contempla a humanidade que vê a alma, tanto contempla a Criação que vê Deus. Sonha, sente-se grande; torna a sonhar e sente-se terno. Do egoísmo do homem que sofre passa à compaixão do homem que medita. Um com todos. Ao pensar nos inúmeros prazeres que a natureza oferece, dá e prodigaliza às almas abertas e recusa às almas fechadas; o milionário de inteligência chega a lastimar os milenários do dinheiro.

[…]

O primeiro jovem que aparecer, por mias pobre que seja, com sua saúde, com sua força, com seu caminhar ligeiro, seus olhos brilhantes, seu sangue quente circulando, seus cabelos negros, seu rosto saudável, seus lábios róseos, seus dentes brancos, seu hálito puro, sempre causará inveja a um velho imperador”(HUGO, 2007, p 728, vol I)

COSETTE

Para concluir, uma das coisas que fizeram certa falta na minha experiência com o livro foi o desenvolvimento de Cosette, filha de Fantine, outra mudança radical na vida de Jean Valjean, que a trata com uma filha. Victor Hugo dá tanta vida aos personagens, até os mais passageiros, ao passo que Cossete é mais um agente passivo da narrativa, apenas sofrendo com as ações de terceiros e sem muita vida ou chance de mostrar suas características, a não ser a pobre Cotovia da taverna dos Thernadier, e mais a frente, a virgem da Rua Plumet, sendo seu ponto mais forte o amor que sente por Jean Valjean, e certamente o amor que Jean Valjean sente por ela, tendo em vista que esse miserável não teve muitas chances no amor em sua vida, ama Cossete com todas as suas forças.

E quando se trata de amor, os miseráveis trata de todos os espectros e características desse sentimento, seja o amor de um pai, o amor de um amante, o amor as posses, o amor a república, o amor a virtude, enfim, todos os ângulos dessa flor que cresce ainda mais bonita ainda em meio a miséria. É definitivamente um livro que mudou minha perspectiva sobre vários assuntos, e espero que numa releitura futura eu posso trazer minhas novas experiências pra esse projeto magnífico, de fato, é pouco provável que se saia dessa leitura a mesma pessoa.


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