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Como as baleias cachalotes se defenderam de caçadores humanos e porque isso revolucionou a ciência

O ser humano foi capaz de se tornar a espécie mais abundante do planeta, e um dos fatores que possibilitaram isso foi a capacidade de…

Nicollas F. Meister · 2024-12-02 18:56 · 0 claps · 4.0 min read
#biologia #ecologia #cetáceos #baleia
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Como as baleias cachalotes se defenderam de caçadores humanos e porque isso revolucionou a ciência

Por Gabriel Barathieu — https://www.flickr.com/photos/barathieu/7277953560/, CC BY-SA 2.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=24212362

Por Gabriel Barathieu — https://www.flickr.com/photos/barathieu/7277953560/, CC BY-SA 2.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=24212362

O ser humano foi capaz de se tornar a espécie mais abundante do planeta, e um dos fatores que possibilitaram isso foi a capacidade de transmitir conhecimento a nível populacional. Porém, esse fenômeno não é exclusivo do Homo sapiens: a biologia identifica que a aprendizagem social ocorre em múltiplas espécies diferentes. Mas, apesar desse fenômeno ser observado na natureza, há pouca evidência de que isso seja possível em escala populacional, como o que ocorre com o ser humano. Porém, um estudo de 2021 traz evidências que indicam a ocorrência de aprendizagem social a nível populacional em baleias cachalotes (Physeter macrocephalus) do Oceano Pacífico Norte. Os cientistas descobriram que as baleias dessa região foram capazes de aprender táticas defensivas contra os pescadores baleeiros e ensiná-las aos grupos que ainda não tinham sido atingidos. Essa descoberta revela um processo evolutivo inusitado: a adaptação rápida (mais rápida do que a evolução genética) de uma espécie a uma ameaça humana. Isso revela um fator que pode ter contribuído para a preservação da espécie. Além disso, as descobertas desse estudo mudam o que sabíamos sobre aprendizagem social, já que as baleias cachalotes estão (relativamente) geneticamente distantes do ser humano.

O estudo baseia-se em uma análise feita sobre os dados digitalizados dos diários de bordo de caçadores de baleias americanos do Oceano Pacífico Norte, durante o século XIX. Os dados mostram uma queda de 58% da taxa de sucesso dos caçadores ao atingirem baleias com arpões, ao longo dos primeiros 25 anos de caça na região. Os pesquisadores Hal Whitehead, Tim D. Smith e Luke Rendell se propõem a explicar esse declínio, e elaboram quatro hipóteses acerca do motivo: as baleias aprenderam socialmente novas táticas defensivas (HX); os primeiros caçadores eram mais experientes do que os últimos (H1); as primeiras baleias atingidas eram as mais frágeis e menos preparadas (H2); as baleias aprenderam táticas defensivas apenas através da sua experiência individual com os caçadores (H3). Os dados foram organizados por dia de viagem, e foram considerados apenas os dias em que houve atividades de caça e apenas na área onde ocorrem os grupos de fêmeas e filhotes, já que os machos vivem sozinhos. Além disso, os pesquisadores mantiveram controle sobre os dias em que as baleias foram avistadas e os dias em que foram atingidas, a fim de ter certeza de que o motivo da queda da taxa de sucesso do arpoadores não fosse o simples fato de que a população de cachalotes teria sido reduzida pela caça predatória. Utilizando um modelo matemático descritivo, foi produzida uma curva exponencial com um platô, para modelar a estabilização da taxa de sucesso dos arpoadores e definir a queda inicial. A hipótese H1 foi descartada, porque os caçadores tardios tiveram a mesma taxa de sucesso do que os primeiros caçadores quando exploraram outros oceanos. Para cada uma das hipóteses restantes, foram elaborados modelos de probabilidade. Com base nos modelos, a hipótese H2 também foi desconsiderada, porque a única maneira em que os dados se encaixariam seria caso todos os indivíduos vulneráveis (2.2% da população) fossem atingidos à primeira vista, e mesmo assim o modelo exponencial sugere uma queda mais brusca na taxa de acerto dos arpoadores. A hipótese H3 produziu uma curva muito similar à hipótese H2, portanto, também foi desconsiderada. Finalmente, a hipótese HX produz uma projeção muito similar à curva do modelo exponencial, indicando que a aprendizagem social entre diferentes grupos de baleias seria a hipótese que mais se encaixa.

Com base nesse estudo, é possível observar o processo de preservação das cachalotes (Physeter macrocephalus). As cachalotes passam a maior parte do tempo caçando nas profundezas dos oceanos, onde predam peixes, tubarões, polvos e lulas. Apesar de ser difícil de se obter imagens de uma cachalote caçando, há evidências de que elas têm papel fundamental na cadeia alimentar, controlando as populações dos seres que habitam as profundezas. Além disso, as fezes das cachalotes são parte fundamental no crescimento de fitoplâncton, um conjunto composto de microalgas e cianobactérias, responsável pela absorção de grande parte do CO2 da atmosfera. As cachalotes foram fundamentais para o estudo da ecolocalização e da flutuação, já que utilizam um órgão localizado dentro da cabeça para flutuar e afundar nas águas dos oceanos. Esse é o órgão de espermacete, que produz e armazena espermacete, uma substância cerosa que pode ser resfriada e esquentada, passando do estado sólido para o estado líquido, fazendo com que as baleias afundem ou flutuem com mais facilidade. Infelizmente, o espermacete foi também um dos principais focos da caça predatória: a substância era usada comercialmente na produção de velas de alta qualidade, além de cosméticos, lubrificantes e glicerina. Com a descoberta trazida pelo estudo, é possível ter o conhecimento sobre um fator que influenciou a preservação de uma espécie tão essencial para o ecossistema.

Para além da preservação das cachalotes, a descoberta é uma importante evidência de que o fenômeno de aprendizagem social em animais pode ocorrer em escala populacional, de maneira mais rápida do que a evolução genética e de forma multigeracional. Esse fenômeno só havia sido observado anteriormente nessas proporções nos humanos (e em outros primatas) e no desenvolvimento de dialetos em animais, logo, a descoberta traz uma nova perspectiva para a aprendizagem social. Além disso, essa descoberta adiciona alguns detalhes importantes na discussão, já que ela corrobora a ideia de que animais com cérebros grandes são capazes de desenvolver cadeias mais complexas de aprendizagem social. Somando isso ao que já se elaborava sobre primatas com cérebros grandes serem mais capazes de aprender a usar ferramentas, traz uma possível correlação entre tamanho do cérebro e capacidade de aprender socialmente.

De maneira geral, o estudo revela detalhes importantes sobre o processo de preservação das cachalotes, uma espécie importante para o ecossistema. Os cientistas fazem a descoberta de que as baleias foram capazes de se defender da caça predatória dos humanos através de táticas ensinadas socialmente pelas baleias experientes às baleias inexperientes. Esse processo evolutivo evidencia um fenômeno praticamente nunca observado na mesma escala para além do ser humano.


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