Histórias que tocam: como os bairros estrangeiros em São Paulo mantêm vivas suas narrativas
Por Ana Clara Bezson Dalla Costa, Ana Luiza Souza, Bárbara Correa e Catharina Gonçalves, alunas do JOS1A
Histórias que tocam: como os bairros estrangeiros em São Paulo mantêm vivas suas narrativas
Por Ana Clara Bezson Dalla Costa, Ana Luiza Souza, Bárbara Correa e Catharina Gonçalves, alunas do JOS1A
Em um país culturalmente miscigenado, os bairros estrangeiros de São Paulo reinventam e mantêm histórias para que as próximas gerações se sintam em casa, mesmo longe de sua nação de origem

Foto: Unsplash/Fabio Sasso
P or muitas décadas, pessoas de diversos países do mundo têm vindo para o Brasil, principalmente para São Paulo, procurando um refúgio, um novo lugar para chamar de lar. Ao se estabelecerem em um local, buscam elementos que as ajudem a construir um espaço que exale um “gostinho” de casa.
Dentre os diversos grupos que se estabeleceram na cidade, destacam‑se os italianos, que ocuparam bairros como o Bixiga e a Mooca; os asiáticos, especialmente os japoneses, que transformaram a Liberdade; os judeus em Higienópolis; e os árabes na região central. Ao se fixarem nesses territórios, esses imigrantes não apenas encontraram abrigo, mas também imprimiram suas marcas na paisagem urbana, compartilhando costumes, crenças, sabores e modos de vida que hoje fazem parte da identidade paulistana.
Da chegada ao recomeço
O fortalecimento desses bairros está diretamente ligado ao contexto histórico do país. Após a abolição da escravidão, em 1888, o Brasil passou a incentivar a imigração como alternativa de mão-de-obra, sobretudo no estado de São Paulo. Fugindo de guerras, crises econômicas e perseguições religiosas, italianos, judeus, árabes e asiáticos encontraram na capital paulista a possibilidade de reconstruir suas vidas em um território percebido como economicamente mais estável.
A chegada, no entanto, foi marcada por dificuldades. O idioma desconhecido, as jornadas exaustivas de trabalho e a distância da família tornaram o processo de adaptação lento e, muitas vezes, doloroso. Nesse cenário, os bairros estrangeiros surgiram como espaços de resistência e acolhimento, onde a convivência entre conterrâneos ajudava a amenizar o sentimento de não pertencimento.
Com o passar das gerações, esses espaços deixaram de ser apenas locais de apoio imediato e se transformaram em referências culturais da cidade. As tradições trazidas pelos imigrantes — como a culinária, as festas, os idiomas e as práticas religiosas — passaram a fazer parte do cotidiano paulistano, contribuindo para a construção de uma identidade urbana diversa. Assim, bairros como Liberdade, Mooca e Bom Retiro não apenas preservam memórias de origem, mas também revelam como diferentes culturas, em contato constante, podem se reinventar e ganhar novos significados ao longo do tempo.
A presença judaica em São Paulo tem raízes profundas na história do século XX. Como conta Dalia Gertner, 18 anos, estudante e neta de polonês, a chegada se deu principalmente durante a Segunda Guerra Mundial, quando o medo da perseguição e do nazismo empurrou milhares de judeus em direção ao Brasil. “A maioria era polonês. Ao chegarem, se concentraram no Bom Retiro, mas foi em Higienópolis que a comunidade encontrou seu lar definitivo, erguendo sinagogas, escolas judaicas, açougues e supermercados kosher, restaurantes e prédios que moldaram o bairro à sua imagem.”
A presença japonesa também é forte na cidade. Satie Ito, 78 anos, seus pais e seus oito irmãos chegaram ao Brasil e se estabeleceram no Mato Grosso, após uma viagem de mais de um mês, com a promessa do governo japonês de uma vida melhor no Brasil. Na época, o Japão passava por dificuldades econômicas após a Segunda Guerra Mundial e muitos japoneses vieram ao país com a promessa de poder plantar em terras férteis. Além disso, o governo dizia que os imigrantes poderiam voltar depois de alguns anos. A família dela não voltou, mas encontrou um país com terras férteis e comida diferente.
“Quando vim para o Brasil, estava com minha família. Como eu era criança, tudo era novidade para mim. Lembro de ver bananas e pensar: ‘Então é assim que elas crescem?’. Tudo era muito diferente e curioso. Junto com as outras crianças das famílias que vieram conosco, vivíamos descobrindo coisas novas, então foi uma época muito divertida. Crescemos no Japão em uma época de muita pobreza, por isso pensamos que este novo país era um lugar muito bom.”
Além disso, Satie conta quais são as principais diferenças culturais e de comportamento entre os japoneses e os brasileiros, algo em que ela vem reparando desde que chegou à cidade:
“Os japoneses pensam muito no próximo. Não gostam de incomodar nem invadir o espaço do outro. Meus filhos estão sempre falando para não incomodar os outros. Sempre pensar no que os outros vão pensar. Não sei se isso é bom, mas é um pensamento japonês. O brasileiro pensa mais no eu mesmo. Acredito que um meio termo disso seria bom, pois o japonês pensa demais no que o outro vai pensar e acaba não fazendo o que gostaria”.
Ela cita alguns exemplos de comportamentos diferentes entre as duas populações.
“No Japão não se pode atender o celular em transporte público. Porque isso incomoda os que estão ao redor. Aqui todos são mais livres, fazem o que gostam e são felizes. Não se importam com o que pensam os outros ou deixam de pensar. Vestem o que gostam, se estão com frio ou calor cada um usa o que acham melhor. No Japão não é assim. Tem padrão. Se entra no outono usam roupas de outono, independente se estão ou não com frio ou calor.”
Quando atingiu a maioridade, Satie veio para São Paulo para aprender corte e costura e foi naquele período que encontrou o homem que mais tarde se tornaria seu marido. Sempre trabalhando com comércio, os dois tiveram por um bom tempo uma loja de pedras semipreciosas. Em 1996, ela foi chamada pelo antigo dono de um restaurante para trabalhar no período da noite, enquanto mantinha a loja em paralelo.
A loja de pedras semipreciosas acabou não dando certo, então ela decidiu fechá-la e passou a trabalhar no restaurante como funcionária, dedicando-se dia e noite ao trabalho. Em 1999, recebeu uma proposta do antigo dono e comprou o local que hoje se chama Restaurante Ajissai, localizado na Vila Mariana, próximo à estação de metrô Ana Rosa. Em 2000, seu marido faleceu e, desde então, ela toca o restaurante sozinha.
Durante uma viagem ao Japão, a filha de Satie trouxe para a mãe amostras de pasta de soja (misso) da região de Nagoya. Na culinária local, um dos pratos tradicionais é o misso katsu, um lombo empanado servido com molho à base de misso.
A partir desse material, Satie Ito pediu que uma importadora trouxesse o misso puro e, com base na amostra, desenvolveu sua própria versão do molho. A receita foi adaptada ao paladar brasileiro, que não gosta de comidas tão doces como algumas feitas no Japão. Atualmente, o prato integra o cardápio do restaurante e se consolidou como uma de suas opções mais conhecidas do cardápio.
Bairros como refúgio afetivo
Padarias, mercados, associações culturais, templos religiosos e restaurantes funcionam como pontos de encontro e apoio. Esses espaços permitiram que os imigrantes mantivessem a língua materna, os hábitos cotidianos e as tradições, criando redes de solidariedade fundamentais para a permanência na cidade. Mais do que áreas geográficas, esses bairros se tornaram territórios afetivos, onde era possível reconstruir a vida sem abandonar completamente as origens.
Vitória Herler Politano, graduada em Relações Internacionais pelas Faculdades Metropolitanas Unidas, acredita que a miscigenação brasileira não segue um padrão específico, mas, sim, dinâmico. A identidade dos imigrantes não se apaga nem se mantém a mesma: ela se transforma. Por um lado, sua cultura de origem é preservada através dos ambientes afetivos que constroem, como restaurantes, festivais tradicionais e igrejas, enquanto, aos poucos, incorporam a essência brasileira por meio da língua, das leis e do imaginário cultural coletivo.
Com o passar do tempo, esses refúgios deixaram de atender apenas às necessidades internas das comunidades e passaram a dialogar com a cidade como um todo. Festas típicas, celebrações religiosas e manifestações culturais começaram a atrair visitantes de diferentes regiões, promovendo trocas e ampliando o contato entre culturas distintas.
Entretanto, apesar da popularidade dos bairros estrangeiros, o contato entre os brasileiros e as culturas imigrantes ainda é, em sua maioria, superficial. Segundo Vitória, grande parte da população não possui um conhecimento profundo nem mesmo da própria cultura nacional, desconhecendo elementos históricos importantes, como o Pajubá, dialeto criado pela comunidade LGBTQIAPN+ durante a ditadura militar, além de tradições folclóricas regionais e aspectos da própria história do país. Nesse contexto, a compreensão sobre culturas estrangeiras também acaba se limitando, muitas vezes, a experiências pontuais, em vez de se aprofundar na convivência e na troca genuína de vivências com essas comunidades.
Mais do que uma referência geográfica, o bairro de Higienópolis virou sinônimo de segurança e pertencimento para a comunidade judaica paulistana. “A gente frequenta muitas sinagogas, muitos restaurantes. A gente se sente muito mais à vontade num ambiente onde sabe que não vai estar sozinho”, diz Dalia. Essa sensação de acolhimento está ligada à possibilidade de comer conforme a tradição. Os restaurantes kosher do bairro garantem que carne e leite sejam separados, que não haja frutos do mar como lula e camarão e que o salmão do sushi, por exemplo, seja preparado sem misturas proibidas pela tradição judaica. “Lá é totalmente kosher. A gente não corre risco de comer algo que não pode”, reforça.
Essa segurança alimentar e cultural transformou o bairro num destino afetivo. “Quando a gente quer comemorar alguma coisa, a gente sempre vai a Higienópolis”, conta ela. Lá estão concentrados não apenas os restaurantes, mas também roupas que os ortodoxos podem usar, mercados, shoppings menores voltados à comunidade.
Cultura como memória viva
A cultura é o principal elo entre passado e presente nesses territórios. Na Liberdade, lanternas, ideogramas e festivais tradicionais convivem com o fluxo intenso do centro da cidade. No Bixiga e na Mooca, cantinas, festas populares e sotaques mantêm viva a herança italiana. Em Higienópolis, instituições religiosas e culturais preservam costumes judaicos, enquanto no centro a presença árabe se manifesta nos aromas, na música e na culinária.
Essas expressões não apenas preservam a memória dos imigrantes, mas também se transformam ao longo do tempo. Ao se misturarem com elementos da cultura brasileira, criam identidades híbridas, que refletem tanto o país de origem quanto o território de acolhimento.
Além disso, a imigração se tornou um movimento simbólico, onde os motivos para se mudar não são somente geopolíticos, mas, sim, de troca.
Dessa forma, mais do que preservar tradições, esses espaços expressam a capacidade da cultura de se adaptar, resistir e dialogar com o tempo. São lugares onde memória e contemporaneidade coexistem, mostrando que a identidade paulistana não é fixa, mas construída continuamente a partir dos encontros, das trocas e das histórias que atravessam gerações.
Em entrevista, a historiadora formada pela UNIFESP Laís Marote explicou um pouco da cultura imigrante e como ela se manifesta.
“A cultura vai se fazendo presente através desses aspectos mais da cultura imaterial, que seria o jeito de falar, jeito de vestir, jeito de comer, mas também da cultura material”, afirma Laís. Muitas vezes, os costumes de outros países estão no dia a dia de todos e eles não percebem. Um exemplo claro disso é a língua portuguesa falada no Brasil, especificamente em São Paulo:
“Um traço muito marcante do português que se fala em São Paulo é um português que tem algumas características, algum ritmo que é muito italiano, porque, como tinha muitos italianos na cidade, isso vai se incorporando ao jeito como a cidade funciona”.
Em Higienópolis, as instituições são o fio que mantém a cultura judaica viva no bairro. “Graças a Deus, as instituições seguem firmes e são elas que mantêm a cultura e esse amor que a gente tem pela religião”, afirma Dalia. Ela cita o colégio Renascença, uma das escolas mais tradicionais da comunidade, além de outras instituições mais ortodoxas espalhadas pelo centro de Higienópolis.
As memórias mais afetivas do bairro, no entanto, são anteriores a tudo isso. A estudante relembra: “Eu lembro muito de quando a gente era pequeno, eu e meus primos, e a gente ia andar pelas ruas porque era a diversão da minha vó e do meu vô, socializar, encontrar os amigos, os familiares. A gente parava numa confeitaria e sempre tinha um conhecido, alguém da comunidade”. A rua, nesse contexto, não era apenas espaço de passagem, mas de reconhecimento.
Gastronomia como documento histórico
Mais do que tradição culinária, a comida funciona como um documento histórico nos bairros estrangeiros em São Paulo. Cada receita trazida carrega memórias afetivas, histórias familiares e marcas da cultura do país deixado para trás, tornando-se uma forma de manter viva a conexão com as origens.
Podemos ver referências a receitas em toda parte do Brasil, mas na capital paulista o que não faltam são opções.
Ao chegarem ao país, muitos pratos precisam ser adaptados com ingredientes locais, criando novas versões das receitas tradicionais através da mistura da cultura estrangeira com a brasileira. Dessa mistura, nascem sabores que hoje fazem parte da própria identidade paulistana, como as cantinas italianas no Bixiga, os mercados orientais na Liberdade e os restaurantes árabes espalhados pelo centro.
O restaurante Kebab Persa, localizado no Jardim Paulista e criado pelo imigrante iraniano Amir Nasiri, possui um estilo de cozinha que tem influências da Índia, Tailândia, Japão, Malásia e, claro, Irã.
Esse é apenas um dos muitos exemplos de restaurantes que mostram um pouco da cultura de outros países. Além de provar pratos novos, as pessoas conhecem o ambiente e um pouco da história de cada país, e isso torna as várias opções gastronômicas de São Paulo experiências únicas.
Assim, a gastronomia se tornou uma ponte entre culturas e uma forma de preservar memórias, transmitindo heranças culturais entre gerações.
A comida kosher funciona, nesse contexto, como um documento vivo da tradição judaica. O que se compra, onde se compra e como se prepara carrega séculos de lei religiosa. “Não vende carne de porco, não vende carne com leite, comida misturada”, explica Dalia Gertner.
Mas o espaço mais sagrado da tradição ainda é a casa. “O que a gente realiza mesmo é cada um na sua casa. Porque a maior tradição é comemorar as festas dentro da casa do patriarca”, diz ela. A gastronomia, portanto, começa no mercado do bairro e se completa na mesa de família.
A saudade como herança
Mesmo após décadas vivendo no Brasil, a saudade permanece como um sentimento recorrente nas narrativas de imigração. Para muitos, ela se manifesta de forma silenciosa, em receitas preservadas, músicas tradicionais ou histórias contadas dentro de casa. Para os descendentes, essa saudade se transforma em herança, transmitida entre gerações como parte fundamental da identidade familiar.
Entre o país deixado para trás e a cidade que acolheu, esses grupos constroem identidades que não pertencem a um único lugar. Nos bairros estrangeiros, a memória do passado convive com o presente, garantindo que as raízes não se percam, mesmo diante das transformações urbanas.
A manutenção da cultura judaica em Higienópolis enfrenta pressões silenciosas. “A taxa de natalidade está caindo muito, e o número de pessoas que seguem a religião à risca também vem diminuindo. Quem tem oito, dez filhos são os extremamente religiosos. E cada vez menos as pessoas estão indo para Israel ou para outros países onde a condição é muito melhor”, observa Dalia, com tom de preocupação sobre o futuro da comunidade no bairro.
Ao mesmo tempo, novas ondas chegam. “A imigração atual é muito forte de norte-americanos, por incrível que pareça. Rabinos americanos e canadenses vêm morar em São Paulo, e muitos deles moram em Higienópolis”, conta a estudante. A comunidade, portanto, não é estática: se transforma, recebe novos membros e renegocia sua identidade a cada geração.
Narrativas que seguem vivas
Ao caminhar por esses bairros, é possível perceber que suas histórias não ficaram presas ao passado. Elas continuam sendo atualizadas diariamente por novos imigrantes e pelas gerações que herdaram essas memórias. Cada rua, cada comércio e cada celebração carrega fragmentos de trajetórias marcadas por deslocamento, resistência e reconstrução.
A historiadora Laís Marote afirma:
“A cultura imigrante que estava nessas regiões vai sofrendo alterações por conta da troca com a própria cultura brasileira. Então, o imigrante italiano que vinha, ele se comportava de uma maneira. O filho dele, que já era brasileiro, estudava em escola brasileira, falava português como primeira língua, vai ter uma cultura imigrante diferente, porque ele já não é mais um imigrante, ele é filho de imigrante, e assim sucessivamente”.
Esse contato rico com outros países fez São Paulo se tornar uma cidade cheia de histórias para contar, em forma de comida, contos, músicas e muito mais.
Assim, os bairros estrangeiros de São Paulo seguem cumprindo um papel fundamental na construção da cidade. Mais do que pontos turísticos ou referências culturais, são espaços vivos de memória, onde histórias que atravessaram oceanos continuam sendo contadas, tocando não apenas quem veio de fora, mas todos que fazem da diversidade a essência da capital paulista.
Trajetórias que se transformam
De acordo com a Prefeitura de São Paulo, mais de 360 mil imigrantes vivem hoje na cidade mais populosa do país. Majoritariamente, o fluxo migratório da metrópole paulistana manteve-se constante e elevado ao longo dos anos. No período entre 2000 e 2010, São Paulo obteve um acréscimo de quase 87% no valor total de imigração internacional, com o número saindo de 143,6 mil para 268,4 mil no final da década. No entanto, segundo o G1, o território paulistano perdeu cerca de 89,5 mil habitantes entre 2017 e 2022, experimentando algo inédito na história da cidade que sempre foi vista como lar para diversos estrangeiros.
Apesar de o fluxo de imigração paulistano ter perdido sua intensidade, a metrópole continua sendo um grande polo de atração internacional e símbolo de preservação cultural. Assim, seu significado não morre, mas se transforma, modifica e amplia, se olharmos por diferentes perspectivas. Um exemplo é a nova onda migratória que vem surgindo em São Paulo no decorrer dos últimos anos, com uma população diversa, principalmente latino-americana, de bolivianos e venezuelanos, além de haitianos, sírios, coreanos, entre outras comunidades que vêm surgindo para redesenhar o panorama cultural dos bairros estrangeiros. Dessa forma, as narrativas não apenas são preservadas, mas se atualizam, se reconfiguram e se expandem.
Os desafios das novas ondas migratórias
Se no início do século XX italianos, japoneses e árabes encontraram espaços de acolhimento e pertencimento nos bairros estrangeiros, os novos fluxos migratórios enfrentam uma realidade totalmente diferente. Bolivianos, venezuelanos, haitianos, sírios e coreanos chegam a uma São Paulo já consolidada, mas marcada por desigualdades, burocracia e xenofobia. Sem bairros próprios estruturados, muitos se instalam em regiões precárias ou já ocupadas por outros grupos, onde não oferecem a mesma rede de apoio construída por comunidades antigas, o que torna o processo de adaptação ainda mais solitário e necessário de ser reinventado a cada chegada.
A documentação e o idioma são os primeiros obstáculos. A comunicação no dia a dia, a regularização de documentos, o acesso a serviços públicos e a busca por trabalhos formais são etapas que muitas vezes levam anos para se concretizarem. Grande parte desses grupos enfrenta condições precárias de trabalho e moradia. Oficinas de costura, feiras nas calçadas e barracas improvisadas pelo centro com jornadas exaustivas ainda fazem parte da realidade de muitos imigrantes na capital paulista. Ao mesmo tempo, conflitos políticos, crises humanitárias e deslocamentos forçados ampliam os desafios emocionais do recomeço, com marcas profundas de urgência e sobrevivência.
Mesmo diante dessas dificuldades, novas comunidades continuam criando formas de pertencimento dentro da cidade. Pequenos comércios, centros comunitários e feiras culturais se tornam ponto de encontro e resistência, assim, São Paulo segue sendo um território de constante transformação, reinvenção e preservação da identidade de muitos latino-americanos, africanos e asiáticos.
Apagamento cultural
A Liberdade nem sempre foi um bairro asiático. Na verdade, a historia desse bairro vai muito além: antes de abrigar imigrantes, era a casa de pessoas negras e marginalizadas, que viviam sob intensa repressão e violência.
A origem do nome “Liberdade” tem uma de suas versões ligada ao Largo da Forca, onde se executavam pessoas condenadas à pena de morte. De acordo com essa narrativa, o bairro passou a ser chamado assim depois do soldado negro Francisco José das Chagas, conhecido popularmente como Chaguinhas, ter liderado um levante de soldados, que reivindicavam aumento salarial. O líder teria sido capturado e condenado à forca, porém, na hora da execução, a corda teria arrebentado três vezes e a multidão que acompanhava teria começado a gritar “liberdade”. Essa versão é emblemática e mostra a força da resistência que veio a ser esquecida ao longo dos anos.
Entre os poucos vestígios que resistiram ao apagamento cultural está a Capela dos Aflitos, erguida em 1779 sobre o antigo cemitério destinado a escravizados e marginalizados. Hoje o espaço se tornou símbolo da luta por reconhecimento da memória negra na região, reunindo iniciativas como a homenagem à sambista Madrinha Eunice, que tem uma estátua no local.
A partir de 1908, a chegada de imigrantes japoneses ao Brasil fez a região passar por uma transformação. Atraídos pelos preços baixos dos aluguéis, muitos se estabeleceram nos arredores da Rua Conde de Sarzedas, dando início a uma nova camada identitária e cultural que, ao longo do século XX, fez da Liberdade o principal refúgio da comunidade asiática em São Paulo.
Essa identidade, no entanto, foi oficialmente moldada apenas na década de 1970, quando comerciantes e poder público investiram na estética oriental para impulsionar o turismo.
Essa ação governamental e de algumas elites não foi somente para alavancar o turismo, mas também para apagar a cultura afro-brasileira daquela parte da cidade.
A historiadora Laís Marote explica:
“Em São Paulo, isso ocorreu porque tentaram criar uma ideia de que São Paulo é a locomotiva do progresso. Então, se São Paulo é a locomotiva do progresso, você ter um passado escravocrata muito forte não faz sentido nenhum, porque o nosso passado de escravidão é relacionado com o atraso, com algo colonial. E, se você quer ser moderno, você não pode estar relacionado com isso”.
O processo, embora importante para a preservação de tradições imigrantes, acabou apagando, e em grande escala, a memória afro-brasileira fundadora do território, uma narrativa que hoje começa a ser reconstituída por iniciativas de reconhecimento histórico e cultural.
A valorização das culturas em São Paulo é algo relativamente novo na história. Segundo Laís Marote, na época que os imigrantes chegaram à cidade era ideal que eles se assimilassem à cultura regional o mais rápido possível. Então a sociedade e o governo em si não ajudavam muito nessa questão. Era, inclusive, o contrário: o incentivo era que essas pessoas não ficassem mostrando sua cultura, que não se mostrassem diferentes.
Hoje em dia, essa ideia já está sendo alterada. Laís afirma:
“A sociedade consegue contribuir para sobrevivência e para valorização dessas culturas quando permite que esse tipo de manifestação cultural aconteça na cidade, quando divulga e quando mostra isso como algo positivo e algo a ser celebrado. Mas isso é uma coisa muito recente na história”.
Entre sabores, trajetórias e memórias, São Paulo segue sendo atravessada por histórias que nem sempre ocupam o centro da narrativa. A cidade que se orgulha de sua diversidade também carrega silêncios — de imigrantes que chegaram em busca de oportunidade e de tantos outros, como a população negra, que foram arrancados de suas origens e tiveram suas culturas historicamente apagadas.
Ao olhar mais de perto para esses percursos, o que emerge não é apenas a mistura que caracteriza a cidade, mas a urgência de reconhecer quem a constrói todos os dias. É nesses relatos, muitas vezes contados à margem, que São Paulo revela não só sua diversidade, mas também as desigualdades que ainda atravessam essa história.
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