A Fome do Vento — 2026
2026
A Fome do Vento — 2026

2026
- A Fome do Vento
O inferno é um refúgio para quem cresceu no garimpo. Este é o último toque do vento que sou capaz de sentir, e a conclusão a que chego é que o ar não me fará falta, pois não tenho mais fome de viver. Lágrimas escorrem do meu rosto por puro reflexo corporal, enquanto vejo o triste filme da minha vida nos minutos em que a vida se esvai de mim. Está uma noite tão escura, e o fogo baixo não consegue me aquecer do frio cortante e intenso que me invade. Nem nos últimos suspiros passo ilesa à dor que foi viver. As memórias insistem em me punir. Meu pulmão ainda faz suas tentativas patéticas de trabalhar, enquanto ela me devora lentamente, apreciando cada momento, e eu anseio que acabe. Se Deus é pai, eu o rejeito. Se é mãe, espero não mais encontrá-la. Cheiros diversos invadem meus sentidos, alguns são doces, mas um deles, o que se sobressai, é como enxofre. Que seja o Diabo, e que ele tenha piedade e me reivindique em seu reino. Nem a ilusão do inferno silencia as tristes lembranças, mas estou tão vazia que não tenho mais forças para escapar delas. Olhando para trás, qual teria sido o desfecho se eu não tivesse cultivado a vil esperança de que meu pai estava errado, que mentia para mim?
Desde muito cedo, meu pai me expunha à tortura e à crueldade da vida. Ele dizia que eu não podia confiar em ninguém, que as pessoas são traiçoeiras e se corrompem por pouco, e sempre me dava exemplos práticos de suas palavras. Enquanto crescia, eu via que muito disso era projeção da pessoa horrível que ele era, e ao mesmo tempo, não encontrava casos que o desmentissem. Só que eu não podia acreditar nele, não podia aceitar que alguém que eu detestava pudesse estar certo sobre a vida. Quando pensei em matá-lo pela primeira vez? Deve ter sido por volta dos 9 anos, depois de outra surra, porque ele não gostou do meu tom de voz. Naquele dia, e em todos os que me lembro, ele cheirava a morte e álcool barato, e estava sempre com os olhos vidrados. Essa cena alguma vez mudou? Não lembro de um bom médico chegando naquele fim de mundo, mas o helicóptero com a cocaína era pontual. Lembro de um padre que foi na missão de evangelizar, e em pouco tempo estava com os mesmos olhos, viciado no ouro. O reino de Deus não é tão atraente quanto uma pepita, nem convence tão rápido quanto uma carreira de pó. Em que momento vai parar de doer? Ela poderia ser mais rápida e tornar o processo indolor? Se houvesse alguma humanidade nesse monstro, ela poderia ter piedade e terminar tudo num só golpe?
Pobre Jeruza… Jeruza poderia ter sido minha amiga, se nesta terra amaldiçoada houvesse a chance de existirem amigas. Ela teria sido uma boa amiga, se não tivesse caído nas mãos dele, do meu pai. Eu ouvi enquanto ele a devorava, ela chorava e implorava, e isso aumentava a fome dele. Um tempo depois a barriga de Jeruza cresceu, e assim eu descobri como as crianças chegam nesse mundo. Ela nunca me perdoou. Essa terra é fértil em inimigos. Quantas Jeruzas conheci? Mulheres atraídas para a arapuca brilhante com falsas promessas de escaparem da miséria, e, ironicamente, da fome. Eu não podia ser mais uma, não seria uma vítima. Eu faria algo, encontraria a minha mãe, e com seu poder eu mudaria o meu destino! Meu pai nunca me olhou como olhava para as tantas Jeruzas, mas algo brilhava em seus olhos quando me via, um ímpeto ainda mais sádico. Será que era medo? Quando estava com medo, ele era ainda pior, animal acuado. Ele reservava para mim algo ainda pior do que o destino de Jeruza? Então, ele me deu um presente: o seu maior segredo.
Foi numa de suas noites na guarita da fronteira que ele começou a planejar o meu destino, quando um de seus companheiros lhe mostrou o último suborno que recebeu dos traficantes que passavam pela região: as pepitas de ouro. Também lhe falou da vida no garimpo, e que pensava em partir para lá quando saísse do exército. Aos ouvidos do quati oportunista, aquela ambição virou sua. Ardiloso, planejou o melhor momento para a próxima vez que estivessem juntos na sentinela. Suas memórias, ainda que relatadas com o excesso do álcool, se tornaram vívidas e quase palpáveis para mim; ao ouvir sua versão dos fatos, eu me senti atrás das árvores testemunhando o latrocínio. A Lua Negra, uma pequena fogueira, o ouro no chão, o pio agourento e o sangue que recaía sobre todos. E entre todos os animais necrófagos sedentos de sangue e putrefação, foi ela quem apareceu. A Matinta-Perera. O monstro que a observava extasiado pela matança reagiu instantâneamente, deixou que ela se fartasse nas vísceras e a laçou como bicho, espalhando seu próprio sangue na corda. Ela não podia voltar a ser ave enquanto estivesse amarrada e marcada, e a princípio sequer reagiu. Quando ele a penetrou ela piou dolorosamente. E a fome dele aumentou.
Agora eu consigo visualizar quando o meu infeliz plano começou, há 9 anos, quando ele me contou como arrastou a pobre criatura-mulher de pele vermelha, longos cabelos pretos, nariz batido e selvagem expressão, mata adentro. O que ele sempre odiou em mim foi a minha semelhança com ela. Quando chegaram ao garimpo, ninguém questionou uma selvagem vestida com camisetas velhas amarrada ao homem branco com botas militares. No garimpo ninguém faz pergunta, faz parte do pacto, quanto menos você sabe, menos você se importa, e mais preparado você está para o momento em que precisar explodir uma bomba e fazer toneladas de terra desabarem sobre a cabeça de outrem. Os piados sufocados duraram meses, até que pararam. E assim eu nasci, numa noite de Lua Negra, quando ela, finalmente, pôde virar ave e desaparecer. Para uma criatura esguia e ferida, ser novamente capturada foi mais difícil, mas as lendas a fizeram correr e encher o lugar. Quando a coruja pia, a tragédia está anunciada. Ela piava demais. E eu era a única que sentia conforto em seus maus agouros, era sinal de que ela estava por perto, e assim eu poderia vê-la. Naqueles tempos, eu acreditava tão fortemente que precisava encontrá-la, que precisava dela. Será que meu pai sabia o que eu desejava? Será que ele sentia que era com o sangue dele, o ouro dele, e o fogo que queimava em mim, que eu a chamaria? Desde o dia de sua confissão, minhas lesões aumentaram. Eu adquiri ossos e costelas quebradas e remontadas pelo próprio crescimento do meu corpo, que a cada dia ficava mais disforme, acentuando os traços de ave de rapina.
Quanto mais eu crescia, mais ele me odiava, mais ele me dizia que eu era “a cara daquele monstro”, e mais eu me machucava. Eu já havia feito a minha escolha: seria ele, e não eu. Eu sobreviveria, não importava o que ele tivesse preparado para mim, eu venceria. Foram nove anos refinando o meu plano perfeito, eu precisava sobreviver até ter força suficiente para esfaquear um homem grande. Treinei com animais, caçando e pescando. Imaginei o rosto dele em cada bicho que abri, me tornei uma grande caçadora, a que não se acuava com o cantar da Matinta. Sabia que ele não seria atraído até ali por nada menos que o alvo perfeito, ele só viria pelo ouro. Por anos fingi tentar cultivar sua confiança, mesmo que eu saísse ainda mais machucada. Eu o mataria. Um homem comentou que largaria o garimpo — uma besta iniciante. E quando os boatos circularam, revelei em segredo ao meu pai que o novato largaria o garimpo porque encontrara uma quantidade de pepitas suficientes para aposentar uma família, e as enterrou na floresta, como o novato imbecil que era. Naquele momento, o olhar de orgulho que ele direcionou até mim me agrediu mais que qualquer porrada que ele me deu.
A dor parou. Ou talvez esteja doendo tanto que parei de me importar. Ela é linda, a minha mãe. Há quanto tempo estamos neste ritual? Quanto tempo me resta? Para meu pai, nenhum. Seu corpo está caído perto do fogo, ainda segurando o ouro — único amor que teve em vida. A morte o deixou ainda mais feio e pálido. A sua maldita garganta aberta parece rir de mim, enquanto seu sangue empesteia a terra. E mesmo agora consigo sentir o cheiro podre que exala dele. Gostaria de poder sorrir! Foi por causa desse fedor de esgoto ao sol que esse desgraçado passou ileso na outra vez? Quero gargalhar! Estou feliz por tê-lo matado antes de minha mãe aparecer. Estou feliz porque ele estava mesmo errado! E daí que eu vivi no inferno? Este momento é o meu paraíso infinito! A minha vida foi tão dolorosa, que só agora, em meus momentos finais, consigo vislumbrar a complexidade de Teus planos, oh Criador! Agora sou capaz de entender, e posso ser grata por ter sido o instrumento em Tuas mãos, a executora da Tua divina e terrível vingança contra aquele que aprisionou e violou a tua criatura, fazendo brotar no mundo um terrível mal. Estou contente por estar aqui com ela. Ouço seu piado magnífico pela última vez. Não sou mais capaz de sentir o vento, nem o frio. Oh Deus, estou tão feliz por estar, novamente, acolhida em seu ventre!
FIM.
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- 2026-06-28 10:39:35