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O Curioso Mundo de Isaac D’Israeli

Ou a “toca de coelho” literária que me fez sumir do Medium

Renato Pincelli · 2026-05-21 12:36 · 0 claps · 6.9 min read
#literatura #livros #curiosidade #tradução #hiperfoco
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O Curioso Mundo de Isaac D’Israeli

Ou a “toca de coelho” literária que me fez sumir do Medium

Isaac D’Israeli (1767–1848)

Isaac D’Israeli (1767–1848)

AZ TEMPO QUE ANDO AUSENTE DESTA PLATAFORMA de publicação (uns dois anos, parece) e, mesmo assim, vez por outra, recebo notificações sobre novos leitores e seguidores. Fico agradecido, mas também preocupado. Já não tenho tanto tempo para fazer as traduções que costumo publicar aqui — e um dos principais motivos tem sido um grande projeto de tradução que me ocupa há anos . Mas tenho um bom motivo: estou traduzindo um livro. Ou três. Explico: o que estou traduzindo, já há alguns anos, é um livro de não-ficção em três volumes, originalmente intitulado Curiosities of Literature, de Isaac D’Israeli.

Este é provavelmente meu projeto de maior extensão, pois trata-se de traduzir uma obra de três volumes publicada há cerca de 200 anos. A obra é Curiosidades da Literatura, de autoria de Isaac D’Israeli. Como agora estou prestes a concluir o último volume, acho justo publicar aqui alguma coisa a respeito. Quem me acompanha no instagram já deve conhecer essa história e ter visto alguns trechos e estatísticas na forma da série “Curiosidades das Curiosidades da Literatura”.

Agora que estou concluindo este trabalho — faltam só três ensaios do terceiro e último volume — , pretendo tentar retomar as traduções que costumava fazer por aqui. Para apresentar minha versão das Curiosidades da Literatura, escolhi um artigo de Martin Spevack para a *Public Domain Review*. A seguir, a tradução do artigo mencionado — que, salvo alguma mudança de planos, servirá de introdução à obra em caso de publicação.

Folha de rosto da edição de 1858 das Curiosities of Literature

Folha de rosto da edição de 1858 das Curiosities of Literature

O Curioso Mundo de Isaac D’Israeli

Introdução por Martin Spevack

Folha de rosto (e capa provisória) da minha tradução das Curiosidades da Literatura

Folha de rosto (e capa provisória) da minha tradução das Curiosidades da Literatura

O O QUE HÁ DE MAIS CURIOSO sobre as Curiosidades da Literatura, de Isaac D’Israeli, é o seu próprio título. Para D’Israeli, a curiosidade era uma mis­tura do sentido original, “a investigação (…) caracterizada por um cuidado especial”, e o de sua própria época, “inquisitivo, desejoso de informação”. Isso se nota em sua referência à gramática do Johnson’s Dictionary como sendo “curiosamente ilustrada pelas notas e pesquisas de editores modernos” e sua descrição da biblioteca de seu amigo Francis Douce como sendo “curiosa”. Para D’Israeli, o homem de letras, a Literatura significava muito mais do que apenas “a literatura em geral, as humanidades”; era o conhecimento em sentido amplo, sem formalidade nem restrição.

As Curiosidades da Literatura são uma coletânea de ensaios — como explica o título completo da primeira edição (1791), “Composta de Anedotas, Personagens, Esboços e Observações Literárias, Críticas e Históricas” — e a obra foi descrita com justiça como “aquela biblioteca em miniatura”. Trata-se de uma biblioteca que se desenvolveu através de um processo vigorosamente evo­lutivo — uma verdadeira mudança radical de seleção, adição, omissão e revisão. Sua 14ª. e última edição em 1849, um ano após a morte de D’Israeli, contava com 276 ensaios (a edição-padrão de seis volumes foi reduzida a três na coleção de suas obras editada por seu filho Benjamin em 1881 [sendo esta a que serve de base para a tradução]).

Tal número pode parecer está­vel quando comparado aos 279 artigos da primeira edição, mas não é de forma alguma indicativo da flexibilização do processo ou da natureza dos tópicos. Ambos os aspectos são notavelmente evidentes nos títulos de alguns dos 50 ensaios da seção “Literatura e Crítica” presentes na primeira edição que foram excluídos das edições posteriores: “Bibliotecas Tártaras”, “Os Turcos”, “A Lei e os Profetas”, “República das Letras“, “Esdras”, “Aristóteles“, “Gregório VII”, “O Belo Sexo não tem Alma”, “Os médicos escrevem pouco sobre assun­tos profissionais”, “Guy Patin”, “Adão não foi o primeiro homem”, “Santos que levam suas Cabeças nas Mãos”, “Do Adjetivo Bonito”. Entre as 27 “Anedotas Históricas” que ficaram pelo caminho estão “Dispensações de Casamento”, “Damas Inglesas”, “Monges Espanhóis”, “A Virgem Maria“, “Protestantes”, “Café”, “A Transubstanciação”, “América“, “Tapeçaria Encantada”, “O Peque­no e o Grande Turco”, “O Corpo de César”.

Em um prefácio datado de Março de 1839, D’Israeli descreveu seu traba­lho em constante evolução como uma

“volumosa miscelânea, composta em vários períodos […] Tamanho círculo de conhecimento multifacetado não poderia ser traçado se fôssemos mensurar e contar cada passo com algum pedômetro crítico”.

Seria, no entanto, um erro de julgamento considerar essa miscelânea como uma selva desordenada de impressões extravagantes ou pensamentos fantasio­sos. Em vez disso, é uma floresta paisagística, cultivada e cuidada por um cavalhei­ro urbano, ou antes cosmopolita. D’Israeli tirou a maior parte de seu conhe­cimento dos livros — o primeiro ensaio é sobre “Bibliotecas” — pois ele mesmo era descaradamente livresco e bibliófilo. Pela amplitude e variedade de seus tópicos, o curioso mundo de D’Israeli não estava hermeticamente isolado do mundo fora da biblioteca, senão nunca teria tido uma popularidade tão ampla durante um período tão longo.

Se as Curiosidades da Literatura não refletiam diretamente questões sociais, políticas e literárias da época nem se apoiavam em fofocas ou escândalos contemporâneos de qualquer forma as tratava como características e fenômenos reconhecíveis da existência humana em temas recorrentes sem restrições de tempo ou lugar. Como era de se esperar, o mais proeminente é o de personalida­des literárias, acompanhados das suas produções e preocupações. Dos numero­sos autores que são objetos de ensaios individuais, que vêm da época romana até o século XVIII, nenhum é contemporâneo de D’Israeli e nenhum gênero em particular é predominante.

Os autores ingleses recebem sua devida parte: Milton, Pope, Dr. Johnson, Ben Jonson, Shenstone, Prior, Spenser, Shakespeare, Butler, Richardson. Mas os autores continentais parecem ganhar uma atenção ainda mais individual. Os franceses estão bem representados por Saint-Evremond, La Rochefoucault, Bay­le, Scarron, Madeleine e Georges Scudéry, Corneille, entre outros; e os italia­nos por Vida, Ariosto, Tasso, Dante, Politiano. Além disso, há ensaios que tratam de Marcial, Cervantes, Aristóteles, Platão e Cícero. Como se pode inferir desses e de outros nomes, D’Israeli dá relativamente muita atenção ao que se poderia chamar de figuras literárias marginais, muitas das quais são humanistas e erudi­tos pouco conhecidos; bibliófilos e bibliógrafos; antiquários e homens de letras; editores e filósofos, entre os quais Grotius, Magliabechi, Anthony à Wood, Ma­rolles, Annius de Viterbo, Bodley, Camden, Costar, Fabroni, Hearne, Leland, Naudé, Bentley, Lenglet du Fresnoy, George Steevens e Oldys.

Em linhas semelhantes está a atenção dada por D’Israeli a instituições a serviço da Literatura e famílias relacionadas, como se lê em “Um Olhar sobre a Academia Francesa“, “Uma Academia Inglesa de Literatura”, “A Sociedade Port-Royal”, “A História dos Caracci”, bem como sua inclinação para dar atenção mais detalhada a coletivos e gêneros do que a obras isoladas, como os ensaios sobre “Poesia Espanhola”, “Romances”, “O Drama Primitivo”, “Imitações e Similarudades Poéti­cas”, “Comédias Extemporâneas”, “Diários”, “Canções dos Ofí­cios”, “Paródias”, “Mascaradas”, entre outros.

Embora inúmeras obras sejam citadas, relativamente poucas são encon­tradas como títulos ou temas em si: entre elas estão “O Espião Turco”, “Amor e Loucura”, “O Coração do Amante”, “O Talmude” e “Robinson Crusoé”.

D’Israeli tampouco negligenciou os fundamentos da própria produção literária, conforme evidenciado em ensaios como “Origem dos Materiais da Es­crita”, “Autógrafos”, “Escrita em Miniatura”, “Figuras Numéricas” e “Composição Literária”; nem deixou de lado os personagens e os processos da fabricação e divulgação de livros, como em seus ensaios “Primórdios da Imprensa” e “História Secreta dos Autores que arruinaram Livreiros”. Ele também se interessou pelos elemen­tos dos livros em si: “Títulos de Livros”, “Dedicatórias”, “Prefácios”, “Citações”, “Índices” e “Errata”, bem como alguns de seus praticantes e respec­tivas práticas, como em “Patronos”, “Bibliomania”, “Abreviadores”, “Imitadores”, “Professores de Plágio e Obscuridade”, “Dos Furtos Literários”, “Falsificações Literárias”, “Imposturas Literárias”, “Críticos”, “Destruição de Li­vros” e “Licenciadores da Imprensa”.

Além de escrever ensaios sobre Charles I nas Curiosidades da Literatura, D’Israeli foi autor de uma biografia em cinco volumes do monarca inglês decapitado ao fim da Guerra Civil. [Charles I in Three Positions by van Dyck, 1635–36]

Além de escrever ensaios sobre Charles I nas Curiosidades da Literatura, D’Israeli foi autor de uma biografia em cinco volumes do monarca inglês decapitado ao fim da Guerra Civil. [Charles I in Three Positions by van Dyck, 1635–36]

Além da dimensão histórica implícita dos ensaios “literários”, D’Israeli também deixou uma dimensão explícita e nisso não se restringia a um determi­nado período ou país. A realeza inglesa, claro, era o assunto principal de ensaios assim. Há textos sobre “Charles I”, o “Duque de Buckingham”, “Edward IV”, “A Morte de Carlos IX”, “Elizabeth e Seu Parlamento”, “A História Secreta de Charles I e Sua Rainha Henriqueta”, “A História Secreta da Morte da Rainha Elizabeth”, “O Flerte Político de Buckingham com os Puritanos” e “História Secreta de Charles I e Seus Primeiros Parlamentos”. Ainda é possível mencionar conceitos e práticas como “Nobreza”, “Monarcas”, “Teologias Reais”, “Sobre a Promoção Real”, “Proclamações Reais”, “Religionismo Político”, “Tolerância” e “Dos Palá­cios construídos por Ministros”. Além da Inglaterra, há ensaios sobre os “Papas”, o “Duque de Richelieu, o Ministro-Cardeal”, os “Usurários no Século XVII”, “Os Historiadores Italianos”, “Apologia ao Massacre Parisiense”, “História Secreta de uma Monarquia Eletiva”, “As Fontes da História Secreta” e até mesmo “Uma História de Eventos que Não Aconteceram”.

Uma outra dimensão toma a forma de uma espécie de sociologia cultural abrangente, que se concentra em modos e materiais: “Costumes Feudais”, “Etiqueta Espanhola”, “Beleza e Ornamentos Femininos”, “A História das Lu­vas”, “Música Medicinal”, “Virgindade”, “Modos de Saudação e Cerimônias Ami­gáveis em Várias Nações”, “O Fogo e a Origem dos Fogos de Artifício”, “Anedotas dos Costumes Europeus”, “Do Costume de Beijar as Mãos”, “Culinária Antiga e seus Cozinheiros”, “Saturnália Antiga e Moderna”, “Costumes de beber na Inglaterra“, “Introdução do Chá, Café e Chocolate” e “Canto de Salmos”. Toques sociopsicológicos podem ser encontrados em “Solidão”, “Anedotas de Abstração da Mente” e “Causa e Pretexto”.

A mera observação dos assuntos pode ser desconcertante por sua disposição um tanto dispersa. Ainda assim, não pode haver dúvida de que há algo inte­ressante para qualquer um nesta biblioteca em miniatura, tão bem concebida e cultivada. E além do prazer e da informação presentes neste ou naquele ensaio está a vista panorâmica de uma paisagem cultural encantadoramente curiosa.

MARVIN SPEVACK ocupou uma cátedra de Filologia Inglesa na Universidade de Münster (Alemanha). Depois de produzir obras essenciais sobre Shakespeare — concordâncias, edições e um tesauro — ele se voltou para as figuras literárias do séc. XIX com livros sobre James Orchard Halliwell-Phillipps, Isaac D’Israeli, Sidney Lee e Francis Turner Palgrave. O presente artigo foi publicado originalmente na Public Domain Review em Fevereiro de 2013.


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