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A gramática do Design Visual: uma análise comparativa das capas das regravações dos álbuns de…

Introdução

Diego Mendes · 2023-05-20 17:09 · 2 claps · 12.6 min read
#taylor-swift #gdv #linguistics #design #diego-mendes
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A gramática do Design Visual: uma análise comparativa das capas das regravações dos álbuns de estúdio de Taylor Swift

Introdução

O objetivo deste artigo é aplicar os conceitos da Gramática do Design Visual (GDV) de Kress e Van Leeuven ao analisar as capas de 3 álbuns de estúdio da cantora americana, Taylor Swift, e suas respectivas capas das regravações lançadas também pela cantora.

Princípios Teóricos

Os autores Kress e Van Leeuven declaram a Gramática Do Desing Visual (GDV) como uma expansão da Gramática Sistêmico-Funcional (GSF) de Halliday e Matthiessen (2004), pois, de acordo com Brito e Pimenta (2009):

Expansão porque Kress e van Leeuwen nos mostram que as funções propostas por Halliday podem ser usadas como categorias gerais e abstratas, aplicáveis não somente à linguagem verbal, mas também a todos os tipos de semiose humana (1995, p.8).

Dessa forma, pelo fato da GDV estar ancorada na GSF e também na Semiótica Social, usarei os conceitos desta, como uma abordagem de análise das imagens, uma vez que a GDV objetiva "analisar textos não verbais e entender como eles são construídos e como significam" (GOMES E SILVA, 2018, p. 59).

As Metafunções da Gramática Sistêmico-Funcional

As três metafunções de Halliday (Ideacional, Interpessoal e Textual) são a base para a análise. Dessa forma, proponho, para uma leitura mais aprofundada, a visita ao meu texto sobre as metafuncões que pode ser acessado clicando **AQUI**.

A fim de tornar o texto mais didático, para que todos possam ter acesso, segue nos infográficos uma visão panorâmica dos conceitos retirados do texto de Brito e Pimenta (2009):

Autoria Própria — Diego Mendes

Autoria Própria — Diego Mendes

Além das representações narrativas, há as representações Conceituais que se dividem em Processos classificacional ( classificações a partir de um tema em comum) e Processo Analítico (os participantes se relacionam com os atributos que possuem).

Autoria Própria — Diego Mendes

Autoria Própria — Diego Mendes

Sobre as contextualizações, ainda temos a Modalidade Tecnológica e a Modalidade Sensorial.

Autoria Própria — Diego Mendes

Autoria Própria — Diego Mendes

Taylor Swift

Taylor Alison Swift é uma cantora e compositora americana que se destaca na industria musical por suas brilhantes composições. Taylor possui 10 álbuns originais de estúdio. Depois de ter os '’masters" das suas músicas dos 6 primeiros álbuns vendidos sem o seu consentimento para outra gravadora, a cantora decidiu regravar os álbuns para adquirir os direitos sobre suas próprias canções novamente, os nomeado como 'Taylor's Version". A partir de 2019, Swift começou a re-lançar os seus álbuns, revivendo, assim, as suas Eras.

Taylor é muito conhecida pelas características marcantes de cada Era. A cada álbum lançado, a estética de Taylor muda. As roupas, o visual, o gênero musical, as cores, conceitos, intensidades, tudo muda com o início de uma nova era. Apesar de ter mantido a estética da Era em cada regravação, Taylor mudou as imagens das capas dos álbuns. A partir disso, irei fazer a análise das capas dos álbuns originais em comparação com as regravações para evidenciar, a partir da GDV, os significados produzidos, o que mudou e o que permaneceu nas capas dos seguintes álbuns:

Fearless (2009)

Speak Now (2010)

Red (2012)

Fearless Taylor's Version (2021)

Red Taylor's Version (2021)

Speak Now Taylor's Version (2023) — data de lançamento 09/07

Análise de Fearless (F1) e Fearless Taylor's Version (F2)

Fearless (2009)

Fearless (2009)

Fearless (Taylor's Version ) (2021)

Fearless (Taylor's Version ) (2021)

Nas duas imagens, há uma pessoa no centro, a qual é a própria cantora. Pela visão da Metafunção Ideacional, enxergo isso como um processo narrativo de ação não-transacional, pois há apenas a presença do participante que, ao mesmo tempo é o ator, uma vez que a meta não aparece na imagem. Nas imagens, pela posição dos cabelos, braços e corpo, Taylor parece estar em movimento, como se estivesse dançando livremente, destemida, sem medo. O uso desse processo narrativo pode ser entendido para dar destaque a ação que justifica o nome do álbum.

Ainda sobre os processos narrativos, identifiquei em ambas as imagens o processo reacional não-transacional, ou seja, o elemento que a Taylor supostamente olharia, não está na imagem, pois ela está de olhos fechados. O uso desse processo narrativo pode ser entendido como uma maneira de causar empatia no leitor, pelo fato de os olhos fechados transparecer a ideia de confiança, de liberdade, de ausência de medo, o que também justifica o nome do álbum.

É interessante notar que esses dois processos narrativos que há na F1, prevaleceu na F2, justamente por carregar o sentido do nome do álbum.

Sobre o ponto de vista da Metafunção Interpessoal, o olhar da Taylor classifica a imagem como uma imagem de oferta, a qual se dirige ao leitor de forma indireta. Nessa perspectiva, o observador é invisível e está contemplando a imagem. Pela posição que indica liberdade, confiança que a Taylor está, tanto na F1 quanto na F2, nos mostra mais uma vez que o nome do álbum é a todo momento resgatado ao se observar a imagem.

Ainda sobre o ponto de vista da Metafunção Interpessoal, foi possível perceber a diferença de perspectiva entre as imagens. Na F1, Taylor está com a cabeça levemente apontada para baixo. Na F2, observa-se uma outra perspectiva. A cabeça da Taylor está mais inclinada para cima do que na F1, o que podemos entender que, dessa vez, ela está ainda mais destemida, ainda mais confiante, principalmente porque agora ela tem o total controle dos direitos da suas músicas.

Sobre os graus de Articulação, podemos perceber que as cores de F1 e F2 são as mesmas, o que é de se esperar, uma vez que a cor de cada álbum é uma característica das Eras de Taylor Swift. Entretanto, a cor da Era Fearless, representada pelo dourado, é mais forte e presente na F2, o que remete a sensação de mais intensidade. Relacionei essa intensidade, esse poder maior na F2 devido às novas músicas "from the vault" que foram lançadas, as quais já estavam escritas, mas não entraram nas faixas quando o álbum foi lançado pela primeira vez, mostrando mais uma vez um ato de coragem e confiança.

Em relação a Função textual, é possível perceber que as duas imagens se diferem. O corpo de Taylor está para a esquerda na F1. Podemos relacionar a posisão com o tempo. Na ocidente, entendemos que a esquerda significa passado e a direita futuro. Em Fearless Taylor’s Version, o álbum regravado, observa-se ela com o corpo girado para a direita, o que podemos relacionar com o novo, o futuro. Porém, a Saliência, ou seja, o destaque central, nas duas imagens, é a mesma. Em todos os seus álbuns, Taylor costuma aparece nas capas, de forma saliente, o que reforça a ideia de que ela é responsável pela criação de sua arte, tanto liricamente, como musicalmente.

Análise de Red (R1) e Red Taylor's Version (R2)

Red (2012)

Red (2012)

Red (Taylor's Version) (2021)

Red (Taylor's Version) (2021)

Assim como nas capas anteriores, nas duas imagens da Era Red, a Taylor ocupa o centro da imagem. Pela visão da Metafunção Ideacional observa-se novamente um processo narrativo de ação não-transacional, pois há apenas a presença do participante que, ao mesmo tempo é o ator, uma vez que a meta não aparece na imagem. Na R2, é possível perceber mais claramente que a meta não está realizada, ao não podermos ver o fim da estrada que está presente na imagem.

Ainda sobre os processos narrativos, identifiquei em ambas as imagens o processo reacional não-transacional, pois, o elemento que a Taylor está olhando não está na imagem. Em R1, ela está olhando para baixo, o que nos remete a tristeza, melancolia e introspecção, ao passo que em R2, Taylor está olhando para o lado, o que também nos causa uma sensação de melancolia, porém, por seus olhos estarem mais abertos e o olhar claramente visível, apesar de não sabermos para onde ela está olhando, está menos triste que em R1. Em suas entrevistas e textos de divulgação do álbum, Taylor revela que Red, musicalmente e liricamente, representa uma pessoa de coração quebrado, o que é perfeitamente visível pelo âmbito desse processo narrativo.

Na Era Red, nas duas capas, Taylor manteve um acessório na cabeça. Em R1, Taylor veste um chapéu de aba redonda, característica marcada da sua Era Red, por aparecer tanto na capa quando no clipe de um de seus singles, chamado 22. Na metafunção Ideacional, identifiquei isso como um processo analítico, o qual um participante se relaciona com seus atributos. Na R2, Taylor manteve essa relação com o acessório, porém, mudou o estilo do chapéu e adicionou um novo acessório, o qual é anel. Tal anel, que leva o nome do álbum, também aparece em um vídeo de divulgação deste, juntamente com vários outros acessórios. Tudo isso produz um sentido importante dentro da Era Red, o qual os objetos, em sua maioria roupas, carregam valores sentimentais, principalmente, o cachecol vermelho, que está presente na música All Too Well, a qual ganhou um curta metragem na regravação. Na música, é perceptível o sentimento de dor que o cachecol carrega, relacionando, assim, ao nome do álbum.

Assim com na Era Fearless, é válido ressaltar que esses processos narrativos que há na R1 e continuaram existindo na R1, carregam consigo o sentido do nome e do conceito do álbum.

Sobre o ponto de vista da Metafunção Interpessoal, o olhar da Taylor classifica as imagens R1 e R2 como imagens de oferta. Taylor oferta vulnerabilidade, diferente de Fearless, o qual ela ofertava confiança e coragem. Novamente, essa classificação também carrega o conceito de dor, coração quebrado e vulnerabilidade do álbum e está presente nas duas imagens.

Ainda sobre o ponto de vista da Metafunção Interpessoal, foi possível perceber também na Era Red a diferença de perspectiva entre as imagens. Na R1, a cabeça dela está apontada para baixo. Na R2, já temos uma outra perspectiva. A cabeça da Taylor está mais inclinada para cima do que na R1, porém, o olhar distante a o corpo virado para a esquerda, ainda sinalizam o passado, a dor, o coração quebrado. O sentido que podemos inferir é que, apesar de agora ela entender melhor seus sentimentos e ter superado (cabeça levantada na R2) ela ainda olha para o passado (corpo virado para a esquerda) e enxerga que o que ela viveu foi necessário para seu crescimento emocional.

Sobre os graus de Articulação, podemos perceber que as cores de R1 e R2 são as mesmas, o que é de se esperar, como já citei anteriormente. A cor da Era Red, representada pelo vermelho, é presente nas duas capas, porém, de formas diferentes. Enquanto na R1, a cor vermelha ocupa a capa inteira, formando a palavra RED, que é o nome do álbum e também o nome da cor, mostra mais intensidade e chama mais atenção para o conceito do álbum já explicado aqui. Na R2, a cor é distribuída na imagem toda também, mas não em primeiro plano, e sim como um filtro na imagem. Também se percebe a cor em elementos como o carro, o chapéu e em seu batom. É interessante ressaltar que o batom vermelho também é uma característica marcante da Taylor, realçada em suas músicas e no seu visual do dia a dia durante a permanecia da Era Red. A cor vermelha nesse albúm é muito relevante para a produção de sentido, principalmente por ser o nome dele, por ter uma música single com esse título e por representar, para Taylor nessa Era, o conceito do que é amar.

But loving him was red (red, red) Oh, red (red, red) Burning red (red, red, red, red) (SWIFT, 2021, Red. Red Taylor's Version)

Em relação a Função textual, é possível perceber a modalidade sensorial na R2, o que não há na R1. O background da R2 remete ao outono, uma estação importante para a produção de sentido para o álbum, por trazer a sensação de frio, o que nos remete ao cachecol vermelho e a todos os sentidos que ele carrega consigo, de tristeza, fragilidade, coração partido e músicas tristes, o que há bastante nesse álbum.

Análise de Speak Now (S1) e Speak Now Taylor's Version (S2)

Speak Now (2010)

Speak Now (2010)

Speak Now (Taylor's Version) (2023)

Speak Now (Taylor's Version) (2023)

Nas duas imagens da Era Speak Now, a Taylor também ocupa o centro da imagem. Pela visão da Metafunção Ideacional, observa-se novamente um processo narrativo de ação não-transacional, pois há apenas a presença do participante ator/meta. Em ambas as capas, Taylor está em movimento, como se girasse. Na S1, é possível perceber o movimento do participante pela posição das mãos, do cabelo e do vestido, já na S2, é possível perceber o movimento pelos cabelos e pelo vestido. Porém, não é possível ver o fim do movimento, ou seja, a meta. Em ambas as capas, esse tipo de processo é entendido como forma de mostrar gentileza, suavidade, coloca a Taylor como se fosse uma princesa recém-saída de um conto de fadas, o que vai de encontro com a proposta do álbum. Ainda sobre os processos narrativos, identifiquei em ambas as imagens o processo reacional não-transacional, pois, o elemento que a Taylor está olhando não está na imagem. Porém, o olhar da cantora na S2 é mais impactante por causa do enquadramento, o que irei discutir em instantes.

Sobre o ponto de vista da Metafunção Interpessoal, o olhar da Taylor classifica as imagens S1 e S2 como imagens de demanda, o que se difere dos outras capas analisadas até então. Além disso, a perspectiva da imagem também é de demanda. Taylor está olhando diretamente para observador. Porém, na S1, o olhar é mais distante, mais razo, talvez pela posição afastada de Taylor na imagem. Já na S2, o olhar da cantora demanda mais do observador, é mais intimista, mais próximo, justamente pela posição aproximada entre o observador e a Taylor. Pude relacionar essa olhar de demanda com o nome do álbum. Speak now, que no português se traduz para “Fale Agora”, está no imperativo, é uma ordem, uma demanda. É como se a cantora estivesse intimando o observador a falar, o olhar dela tem um poder de autoridade, mas ao mesmo tempo de magia, de sedução, o que vai de encontro com o conceito do álbum. Além disso, esse olhar de demanda coloca o observador em relação direta com a cantora, o que podemos confirmar pela declaração de Taylor nas redes sociais na divulgação do álbum ao se dirigir aos fãs como "dear readers" e dizer que o Speak Now representa a fé que eles têm nela.

Assim como na regravação de F2, a capa de Speak Now Taylor's Version apresenta elementos que exprimem mais confiança do que nas capas originais. Em F2, é realizado pelo enquadramento e pelas cores, na S2 é realizado pelo imagem de demanda, o enquadramento e também as cores.

Ainda sobre o ponto de vista da Metafunção Interpessoal, foi possível perceber também que na capa do Speak Now, há diferença de enquadramento entre as imagens. Na S1, temos a posição da Taylor de médio distanciamento em relação ao observador. Isso resulta em maior credibilidade, o que foi importante para a época em que ela o lançou, pois ela estava em busca da consolidação da sua carreira na insdustria da música. Já na S2, temos a posição da Taylor de curto distanciamento em relação ao observador, o que causa uma maior afinidade entre a cantora e seus fiés fãs (dear reader), que a apoiaram em todas as suas regravações. Além disso, essa proximidade realça o olhar de demanda, chamando atenção para o conceito que leva o nome do álbum.

Sobre os graus de Articulação, podemos perceber que as cores de S1e S2 são as mesmas, o que é, mais uma vez, de se esperar. A cor da Era Speak Now, representada pelo roxo, é presente nas duas capas, porém de formas diferentes. Enquanto na S1, a cor roxa está presente somente no vestido, na S2 a cor roxa já predomina, tanto no gradiente do background, quanto no vestido. A cor roxa, representa no álbum o encantamento, a magia, o conto de fada, temas estes presentes nas canções do álbum.

Em relação a Função textual, é possível perceber que as duas imagens se diferem, assim como visto na Era Fearless. O corpo de Taylor está para a esquerda na S1 e para a direita na S2. Podemos relacionar isso, mais uma vez, com o velho e o novo.

Considerações finais

Ao fim da análise das capas das regravações, foi possível perceber diversas coisas muito interessantes. Em todas as capas, Taylor é a saliência na imagem, o que se justifica pela importância que ser dona das suas próprias produções tem para a cantora, principalmente depois de ter seus master vendidos, além de enfatizar a presença dela em tudo envolvendo suas músicas. Outro padrão encontrado, foi a presença de processos narrativos, os quais foram mantidos nas regravações, pois eles carregam o sentido e o conceito dos álbuns. Também ficou muito evidente a confiança e a intensidade que as capas das regravações transpassaram, o que pode se justificar pelo fortalecimento da cantora na industria musical e o reconhecimento e apoio dos fãs em todos os seus projetos. O olhar da Taylor também é muito significativo nas capas, revelando seus sentimentos que vão de encontro com os conceitos dos álbuns. As cores também são elementos fundamentais para entender não só o conceito, mas também a estética dos álbuns e das Eras de Taylor Swift.

O conceito das capas não mudaram, observou-se muitas coisas que se mantiveram, mesmo que representadas de formas diferentes, mas também observou-se alguns detalhes que mudaram devido a evolução e à história de Taylor.

Sem dúvidas, a realização dessas análises pode contribuir para exemplificar a aplicação dos conceitos da GDV, o que é de ganho muito produtivo, principalmente, se for pensado para o contexto da sala de aula.

Referências

BRITO, Regina Célia Lopes; PIMENTA, Sônia Maria de Oliveira. A gramática do design visual. In: LIMA, Cássia Helena Pereira; PIMENTA, Sônia Maria de Oliveira; AZEVEDO, Adriana Maria Tenuta de. (Org.). Incursões semióticas. 1. ed. Rio de Janeiro: Livre Expressão, 2009.

HALLIDAY, M. A. K.; MATTHIESSEN, Christian M.I.M. An introduction to Functional Grammar. 3.ed. London: Hodder Education, 2004.

GOMES, Francisco Wellington Borges; SILVA, Ana Paula de Oliveira. Multimodalidade e persuasão em uma peça publicitária audiovisual. 2018.

KRESS, G.; VAN LEEUWEN, T. Reading images: The grammar of visual design. London: Routledge, 2001.


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