“um arrepio, um sopro que nos aproxima daquilo que ainda não sabemos” — entrevista com Inês…
série de entrevistas com as/os poetas da editora Urutau em Portugal
“um arrepio, um sopro que nos aproxima daquilo que ainda não sabemos” — entrevista com Inês Falafogo
série de entrevistas com as/os poetas da editora Urutau em Portugal

Inês Falafogo (1990)
O que é a poesia para ti?
No outro dia estava refletindo sobre isto — até por causa do pré-lançamento do Pérolas e Malaguetas que fizemos na Cooperativa Mula — e gostei da ideia que me surgiu sobre ser uma cápsula. Gosto de pensar que se a poesia fosse um objeto seria uma cápsula, gosto desta essência que se condensa, aparentemente, e que depois liberta toda a sua potência. Mas também pode ser uma chave, uma porta, um portal para a criação de novos espaços; é, com certeza, um encontro, um arrepio, um sopro que nos aproxima daquilo que ainda não sabemos.
O teu poema nasce de repente, como algo que golpeia e surge de forma explosiva e rápida, ou é um processo mais pausado e demorado?
A maioria das vezes o poema acontece-me, chega de rompante e sacode-me, por isso mesmo costumo escrever “Frágil. Contém poesia” nos embrulhos que faço dos meus livros. A fragilidade no sentido de, a qualquer momento, a poesia, o poema, aquilo que é poética poder explodir. Em regra, é assim que acontece, um estalar de dedos. Aponto no meu caderno e só se achar que ainda falta alguma coisa, deixo-o respirar e volto a trabalhar nele mais tarde. Por vezes, pequenos poemas ou ideias conversam umas com as outras por entre os dias, concebendo algo maior.
Nos últimos anos, tivemos uma série de acontecimentos em Portugal (as crises económica, habitacionais, ascensão da extrema-direita e dos discursos de ódio) e também uma maior visibilidade dos movimentos de luta social (feminista, LGBTQIA+, pró-Palestina, antirracista…) — isso repercute-se na tua criação literária?
Para mim, é inevitável. O desconforto e a raiva são lugares de combustão para eu criar e, sendo eu sensível ao que se passa comigo e ao redor, a inevitabilidade de reagir surge como reação intrínseca, uma extensão de mim e da forma como me expresso, inclusive na arte. Para mim há muita beleza quando as criações são insurretas, nos despertam e mantêm viva uma chama de mudança, de denúncia e de rutura com as imposições de um sistema que nos limita e nos erradica vivências, subjetividades, sonhos. Não quero que aquilo que crio seja biombo de sala, mas sim um alarme.
Quais são as/os poetas da atualidade, vivas/os, que mais te tocam neste momento?
Regina Guimarães, Letrux e Ondjaki.

Pérolas e malaguetas (Urutau, 2026)
O teu livro, Pérolas e malaguetas, como surgiu?
No final de 2024, decidi que ia lançar o meu primeiro livro de poesia no ano seguinte e assim foi. Já estava a ganhar balanço há muito tempo. Então, em 2025, autopubliquei e lancei o Casulo para criar asas, um livro que reúne 35 poemas que tentam criar uma atmosfera de transformação interna, um caminho que nos leva a parirmo-nos nós mesmos, tal qual larva-borboleta. Foi, deliberadamente, um livro autopublicado, pela própria razão da sua construção e edição, onde selecionei e reuni alguns poemas que fui escrevendo ao longo do tempo.
O *Pérolas e Malaguetas vem neste seguimento, é a minha proposta e expressão depois da transformação. O Pérolas e Malaguetas também tem poemas antigos, alguns de 2009, mas é um convite para brincarmos com as palavras, desobedecendo à linearidade, às convenções, aos formalismos. O livro tem poemas muito curtos — eu diria mesmo nano-poemas — , aforismos e poesia visual; traz crítica social, política, mas também fala sobre amor, então é em si mesmo um jogo em que aceitar o instável é o único equilíbrio possível, não tem um fio condutor, um início e um fim, cabendo a quem lê percorrer as suas possibilidades e descobrir novas leituras. Este livro surgiu muito da necessidade de expressar uma recusa àquilo que é enorme e explorar o agigantar daquilo que é minúsculo. O Pérolas e Malaguetas* é essa lupa que quis reverter a ideia de que o elefante na sala incomoda e partir à descoberta de como uma grão de areia pode incomodar tanto, mais ou, pelo menos, de formas distintas. É um convite à contemplação das subtilezas da linguagem, uma fricção com o nosso dia-a-dia, com o detalhe, que cospe pérolas e inflama, apimenta e provoca convenções. E fico sinto-me muito feliz e honrada por estar a ser editado e publicado através da Urutau, uma editora com que eu trazia no pensamento e com quem desejava trabalhar, por sentir valores-base e propósitos comuns aos meus.
Qual é o teu verso favorito do livro? Há alguma explicação para isso?
“às vezes o equilíbrio começa no tropeço”. Não diria que é o meu favorito, mas partilho-o porque acredito que possa ser sugestivo daquilo que é a viagem na cápsula do Pérolas e Malaguetas, o tal encontro com a valorização e apreciação do detalhe, com aquilo que parece inócuo mas que pode conceber grandes repercussões.
Como conheceste a Editora Urutau?
Foi através das redes sociais, vi uma publicação sobre o livro “Volta para a tua terra: Uma antologia antirracista/antifascista de poetas estrangeirxs em Portugal” (2021) e passei a seguir o trabalho da Urutau e comprei o livro, claro.
Há alguma observação que queiras acrescentar?
É urgente criarmos redes de afeto, respeito e insubmissão. Nesse sentido, gosto que as minhas criações e eu, enquanto artista, nos encontremos nesses lugares, cocriando-os e fazendo parte. Se a expressão artística tiver de fazer sentido, que seja o da mudança.
Inês Falafogo
inventa, escreve, sussurra palavras. Brinca, entoa, namora com palavras. Explora, experimenta, grita palavras. Às vezes, também as silencia, porque o que cala também fala. Na poesia, tem percorrido as possibilidades das suas estéticas escrita, falada e visual. Na prosa tem arriscado pouco; e nas paisagens sonoras, devolve-se à poesia e tenta agarrá-la com os ouvidos — com as mãos já tentou Adília. As suas criações, nas quais reflete sobre temas como o tempo, a liberdade e a igualdade, têm sido partilhadas em antologias e festivais de arte nacionais e internacionais. Tem um mestrado em Comunicação e Jornalismo, é formadora e coordena o coletivo Mulheres Fazem Revoluções.
메타데이터
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