O mito, o sagrado e o profano
Elíade (1996, p. 55) afirmou que “o calendário sagrado regenera periodicamente o Tempo, porque o faz coincidir com o Tempo da origem, o…
O mito, o sagrado e o profano
Elíade (1996, p. 55) afirmou que “o calendário sagrado regenera periodicamente o Tempo, porque o faz coincidir com o Tempo da origem, o Tempo “forte” e “puro”. A experiência religiosa da festa, quer dizer, a participação no sagrado, permite aos homens viver periodicamente na presença dos deuses. Daí a importância capital dos mitos em todas as religiões pré mosaicas, pois os mitos contam as gestas dos deuses, e estas gestas constituem os modelos exemplares de todas as atividades humanas. Ao imitar seus deuses, o homem religioso passa a viver no Tempo da origem, o Tempo mítico. Em outras palavras, “sai” da duração profana para reunir se a um Tempo “imóvel”, à “eternidade”.
Este trecho vem do livro de Mircea Eliade, “O Sagrado e o Profano: A Essência das Religiões” é uma obra fundamental de Mircea Eliade, um dos mais renomados historiadores das religiões do século XX. Neste livro, Eliade explora a natureza do sagrado e sua manifestação nas várias tradições religiosas, contrastando-a com o profano, ou o mundo secular. A principal tese de Eliade é que o sagrado é uma dimensão essencial da experiência humana, uma realidade que transcende o cotidiano e confere significado e orientação à vida. Ele argumenta que o sagrado se manifesta de várias formas, como símbolos, rituais e mitos, que servem para conectar os seres humanos ao mundo transcendente. Uma das ideias centrais do livro é a noção de hierofania, o ato pelo qual o sagrado se revela no mundo profano, transformando objetos ou lugares comuns em entidades ou espaços sagrados.
Eliade também discute o conceito de tempo sagrado versus tempo profano. Ele sugere que, nas sociedades tradicionais, o tempo é vivenciado de maneira cíclica, marcado pela repetição de rituais que reatualizam os mitos fundadores. Esse tempo sagrado contrasta com o tempo linear e homogêneo do mundo moderno, que é caracterizado pela profanação e pela perda do sentido do sagrado.
Diferença Mito, Sagrado e Profano com considerações católicas
Em momentos de celebrações religiosas, os fiéis podem experimentar uma sensação de estar na presença divina. Essa percepção é crucial, pois, conforme as tradições antigas, os mitos — relatos sobre divindades — ilustram as ações dos deuses, servindo como guias para o comportamento humano. Ao seguir esses mitos, os indivíduos adentram um período especial, conhecido como tempo mítico, distinto do cotidiano. Esse processo é semelhante a uma transição do tempo ordinário para um tempo eterno, repleto de significado.
Em momentos de celebrações religiosas, os fiéis podem experimentar uma sensação de estar na presença divina. Essa percepção é crucial, pois, conforme as tradições antigas, os mitos — relatos sobre divindades — ilustram as ações dos deuses, servindo como guias para o comportamento humano. Ao seguir esses mitos, os indivíduos adentram um período especial, conhecido como tempo mítico, distinto do cotidiano. Esse processo é semelhante a uma transição do tempo ordinário para um tempo eterno, repleto de significado.
Geralmente, o mito é percebido como uma narrativa que descreve as ações de divindades ou seres sobrenaturais. Tais histórias são vistas como verdades sagradas dentro de uma tradição religiosa ou, pelo menos, portadoras de verdades para aqueles que as consideram. Os mitos orientam o comportamento humano, oferecendo modelos para a interação com o mundo misterioso que nos rodeia. Conforme Elíade (1996), os mitos são essenciais, pois narram as façanhas divinas e estabelecem padrões para os seres humanos.
Para Eliade, os mitos também podem ser interpretados como narrativas simbólicas que transmitem ensinamentos espirituais e morais. Embora o cristianismo não se fundamente em mitos da mesma forma que as religiões pré-mosaicas mencionadas por Elíade, ele possui histórias sagradas, como as parábolas de Jesus, que atuam como modelos para a conduta humana. Balsan e Rozin (2019) ressaltam que essas narrativas são cruciais para entender a ação divina na história e orientar a vida espiritual dos fiéis.
Para Eliade, o mito é uma narrativa sagrada que revela verdades fundamentais sobre o mundo e a condição humana. No entanto, a revelação divina em Jesus e a verdade sobre Deus e o mundo são entendidas principalmente através da Sagrada Escritura e da tradição da Igreja, bem como da razão natural. Os mitos, enquanto veículos de verdade em outras religiões, não têm o mesmo status que a revelação divina no cristianismo. Portanto, a ênfase de Eliade nos mitos como fontes primárias de verdade religiosa pode ser vista como um erro que coloca a revelação divina e a razão acima dos mitos.
O sagrado refere-se ao que é considerado divino, santo ou digno de veneração. Transcendendo o cotidiano, o sagrado está ligado ao divino ou ao sobrenatural. Sua experiência é particularmente intensa durante festividades religiosas, quando os participantes entram em contato direto com o divino, vivenciando um tempo e espaço distintos do cotidiano. O calendário sagrado, mencionado por Eliade, exemplifica como o sagrado é incorporado à vida dos fiéis, permitindo-lhes vivenciar periodicamente a presença dos deuses.
O sagrado pode ser visto como a manifestação da presença divina no mundo, vivenciada de forma especial nos sacramentos, na liturgia e nas celebrações religiosas. Rubio e Kirsten (2020) destacam que a participação nessas celebrações possibilita aos fiéis um contato com o sagrado e a vivência de um tempo especial, análogo ao “Tempo da origem” descrito por Eliade. O sagrado confere sentido e direção à vida dos crentes, guiando-os em direção ao divino.
Eliade vê o sagrado como uma realidade que irrompe no mundo profano, criando manifestações que revelam o divino. No entanto, para o cristianismo, o sagrado não é apenas uma irrupção esporádica do divino, mas uma presença contínua e ordenada de Deus na criação. O sagrado é entendido em um sentido mais amplo, incluindo não apenas momentos específicos de revelação divina, mas também a ordem natural e a presença de Deus em todas as coisas. Assim, a concepção de Eliade do sagrado como separado do profano pode ser considerada uma simplificação do entendimento tomista mais abrangente do sagrado.
O profano, originário do latim profānus, que significa “o que está fora do templo”, é o oposto do sagrado; refere-se ao que é comum, secular ou não religioso. É a esfera da vida cotidiana e das atividades humanas que não estão diretamente ligadas ao divino ou ao sagrado. O profano é caracterizado pela duração temporal comum, em contraste com o tempo mítico ou sagrado. Quando os indivíduos participam de celebrações religiosas ou rituais, eles “deixam” o tempo profano e adentram um tempo sagrado, experimentando uma conexão mais profunda com o divino.
Para Eliade, o profano é o domínio da vida cotidiana, separado do sagrado. No entanto, na teologia tomista, o profano não é visto como completamente separado do sagrado. Em vez disso, existe uma continuidade entre o sagrado e o profano, pois Deus está presente em todos os aspectos da vida. A graça divina santifica o mundo natural e a vida cotidiana, tornando-os parte da ordem sagrada. Portanto, a distinção rígida de Eliade entre sagrado e profano pode ser vista como um erro do ponto de vista tomista, que reconhece a presença de Deus em todos os aspectos da existência humana.
Ainda na compreensão católica, o profano refere-se ao cotidiano e às atividades seculares que não estão diretamente relacionadas ao sagrado. No entanto, a Teologia Espiritual Católica ensina que o profano também pode ser santificado pela presença de Deus na vida diária. Balsan (2019) argumenta que os cristãos são chamados a viver sua fé no mundo, transformando a realidade profana em uma expressão do sagrado. Assim, a distinção entre sagrado e profano não é absoluta, mas permeável, permitindo que o divino se manifeste em todos os aspectos da existência humana.
REFERÊNCIAS:
BALSAN, L.; ROZIN, C. Teologia da Espiritualidade e dos Estados de Vida. Batatais: Claretiano, 2019. Unidade 1. (Caderno deReferência de Conteúdo — CRC disponível na aba Material)
BALSAN, L. Teologia Espiritual. Curitiba: Intersaberes, 2019. Capítulo 1, 2 e 3 — pág. 19–119. (Livro digital — Biblioteca VirtualPearson)
ELIADE, M. O sagrado e o profano: a essência das religiões. Tradução de Rogério Fernandes. São Paulo: Martins Fontes, 1992.
RUBIO, A. F.; KIRSTEN, N. Espiritualidade e vivência cristã. Curitiba: Contentus, 2020. Pág. 5–16. (Livro digital — Biblioteca VirtualPearson)
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