É bom não esquecer que o inventor do alfabeto foi um analfabeto.
Millôr Fernandes
É bom não esquecer que o inventor do alfabeto foi um analfabeto.
Millôr Fernandes

É bom não esquecer que o inventor do alfabeto foi um analfabeto.
Millôr Fernandes
São analfabetos inventando uma sintaxe.
Montadores de cinema se deparam com um material em estado bruto. E são analfabetos dele. Chegam pedaços filmados, trechos sem ordem, falas interrompidas, luzes a corrigir.
*Lexis = retórica, fala.**
Lidam com o etéreo — que se manifesta em oposição e, ao mesmo tempo, em justaposição. E só será, se a linguagem própria transposta de um roteiro, se estruturar em seu léxico.
*Mythos = roteiro, argumento.**
É necessário conduzir o espectador por uma linha de raciocínio e deixar que imagine com seu próprio entendimento, na sua história pessoal, através da cultura em que vive imerso.
*Opsis = espetáculo.**
Encadeamento linear. Mas qual linearidade é possível com tantos fragmentos? Será que fazem de um estilhaço de porções, um discurso?
*Anagnorisis = reconhecimento, identificação.**
Todas aquelas cenas, teoricamente coladas umas às outras, são uma linha temporal inexistente. Tempos depois, alguém determina que findou a edição. Filme pronto! A história foi contada. Mas ela é pura mentira. Mas como? Se consigo gravar, relembrar, me enternecer?
*Catharsis = purgação, purificação, esclarecimento.**
O que você assistiu, nunca existiu. Inteiro.
Para os editores, os minutos são líquidos, maleáveis, ajeitáveis, inconsistentes. Quando os realinham, modificam. Quando optam por um volume de trilha mais alto do que um diálogo, alteram tudo mais. Talvez. Às vezes.
*Melos = melodia, música.**
Esses profissionais lidam diariamente com o “Princípio da Incerteza: impossível determinar onde está e qual a velocidade de uma determinada partícula, pois a simples observação dessa partícula alterará sua posição e/ou velocidade. É como se nosso olhar, ao enquadrar ou determinar o que apreender, mudasse o sentido do que chamamos naquele momento de realidade.” Heisenberg
Editores de cinema são deuses sem trono a migrar o Tempo. Cronificados, momentaneamente consignados, em looping. Imersos em signos, significados e significantes. E óticas e semióticas. Um sem-fim roseano.
Logo somem dali.
Quando se dá o pronto? Bem, é meio Capela Sistina — fica pronto quando ficar pronto. Muitas vezes, refazem. E refazendo criam outro composto. Até oposto ao primeiro.
*Peripeteia = reversão.**
Uma rede de trapézio é a partícula constante em montagem cinematográfica. E anotem aí — não são mágicos, são poetas.
*A Poética (em grego antigo:Περὶ ποιητικῆς; em latim: poiétikés), provavelmente registrada entre os anos 335a.C. e 323 a.C. (Eudoro de Souza, 1993, pg.8), é um conjunto de anotações das aulas de Aristóteles sobre o tema da poesia e da arte em sua época, pertencentes aos seus escritos acromáticos (para serem transmitidos oralmente aos seus alunos) ou esotéricos (textos para iniciados). Wikipédia.
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