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“Desligar-se” é um privilégio: por que o apagão de segunda-feira não foi um retiro espiritual

Na segunda-feira, 28 de abril de 2025, Portugal foi palco de um apagão elétrico de grandes dimensões que afetou milhões de pessoas em todo…

Flor que Morde · 2025-05-01 23:22 · 0 claps · 2.9 min read
#apagão #iberia #eletricidade #desigualdade-social
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“Desligar-se” é um privilégio: por que o apagão de segunda-feira não foi um retiro espiritual

Na segunda-feira, 28 de abril de 2025, Portugal foi palco de um apagão elétrico de grandes dimensões que afetou milhões de pessoas em todo o país. Uma falha grave no sistema elétrico ibérico causou a interrupção súbita de 15 gigawatts de produção de energia — cerca de 60% da eletricidade disponível no momento — afetando não só Portugal, mas também Espanha, Andorra e partes do sul de França. Em várias localidades portuguesas, os serviços essenciais ficaram comprometidos: faltou eletricidade, comunicações, internet, dados móveis, serviços de multibanco e até água canalizada, em zonas onde o abastecimento depende de sistemas de bombagem digitalizados. Este evento teve consequências reais e duras para muitas famílias, e não foi, de todo, um momento de “retiro” ou contemplação.

Apesar disso, nos dias seguintes multiplicaram-se nas redes sociais e na imprensa textos que romantizam a experiência de estar “desligado”. Algumas pessoas chegaram a descrever o apagão como uma “bênção”, uma pausa necessária para refletir e viver o momento presente. Ricardo Araújo Pereira foi direto ao ponto no seu podcast Assim Vamos Ter de Falar de Outra Maneira, ao dizer: “Irritaram-me os textos escritos por pessoas a quem o apagão não fez grande mal e descobriram a ‘contemplação de estar sem net’.” Concordo em absoluto. Porque esta romantização é um sintoma claro de privilégio — e, pior ainda, apaga a realidade de quem mais sofreu.

Desligar-se é um privilégio. Para muitos, é um risco.

Há pessoas que dependem da eletricidade para sobreviver. Em Portugal, milhares vivem com doenças crónicas que exigem o uso contínuo de dispositivos médicos como ventiladores, bombas de insulina, aspiradores de secreções ou concentradores de oxigénio. Para estas famílias, uma falha de energia pode significar a perda de autonomia, o agravamento da saúde ou, em casos extremos, a morte.

Outras tantas famílias viram a pouca comida que tinham estragar-se nos frigoríficos e congeladores desligados. Com os preços dos alimentos a subir constantemente, perder carne, peixe ou leite é perder dinheiro — e, para quem vive no limite, é perder refeições. Num país onde cerca de 1 em cada 5 pessoas vive em risco de pobreza, e onde há famílias a contar os euros ao cêntimo, um apagão não é uma oportunidade de reflexão: é mais uma humilhação.

Nem todos têm água engarrafada ou um gerador em casa.

Também houve quem ficasse sem água canalizada, devido a falhas nos sistemas de bombagem controlados digitalmente. Sem aviso prévio, sem soluções rápidas e sem garantias. Algumas famílias não tinham garrafões guardados nem meios para comprar alternativas. A precariedade torna-se mais cruel quando o sistema falha — e falha, quase sempre, para os mesmos.

Para muitas destas pessoas, a internet também é uma necessidade e não um capricho: é onde trabalham, onde acedem à escola dos filhos, onde marcam consultas médicas, onde recebem apoios sociais. Romantizar a ausência de rede é ignorar que há quem dependa dela para viver com dignidade — ou simplesmente para viver.

Desligar-se só é bom para quem tem a certeza de que se pode voltar a ligar.

Romantizar o apagão é um exercício de cegueira social. É escrever sobre o silêncio do digital ignorando o ruído da desigualdade. É falar de “contemplação” enquanto famílias perderam alimentos, medicamentos, comunicações vitais. É preciso dizê-lo com todas as letras: este tipo de discurso não é só ingénuo — é ofensivo.

Em vez de louvarmos a “libertação digital”, devíamos exigir melhores infraestruturas, planos de emergência eficazes, e políticas públicas que garantam que ninguém fica para trás quando o sistema falha. Porque os apagões não nos afetam da mesma forma. E desligar-se, neste mundo, continua a ser um luxo de poucos.

A imagem acima foi criada com recurso a uma ferramenta de inteligência artificial (IA), utilizada como apoio visual ao conteúdo deste artigo. Não se trata de uma fotografia ou ilustração manual.

A imagem acima foi criada com recurso a uma ferramenta de inteligência artificial (IA), utilizada como apoio visual ao conteúdo deste artigo. Não se trata de uma fotografia ou ilustração manual.

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Fontes consultadas:

REN — Corte no abastecimento elétrico em toda a Península Ibérica afeta Portugal (28/04/2025)

Jornal Publico — Ministra da Saúde pede investigação a morte de mulher ventilada durante o apagão

ECO- Swipe News,S.A. — Hospitais a meio gás, telecomunicações em baixo, aviões na pista. Como o apagão parou o país

Podcast Assim Vamos Ter de Falar de Outra Maneira, episódio de 30/04/2025


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