Dinistia
Linha de Homens e Memórias
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Linha de Homens e Memórias
Em cada família, encontram-se histórias escondidas que, silenciosamente, guardam tradições peculiares. E assim é a minha: sou descendente de três gerações de homens que, como se de uma marca registada se tratasse, legaram o próprio nome ao filho. Esta tradição, isenta de originalidade, deu origem a uma sequência de Rodrigos Diniz, inaugurada pelo meu bisavô (1879), continuada com o meu avô (1918), perpetuada pelo meu pai (1949) e, por fim, recaída sobre mim (1991).
De tempos a tempos, vejo-me a questionar acerca da verdadeira essência desta linha que percorre o tempo e os homens. Será que, ao continuar um nome, perpetuamos também histórias e valores? Ou resume-se tudo a um ritual sem sentido, um fruto do acaso que nos liga a um passado pouco conhecido?

O primeiro dos Rodrigos nascera numa Lisboa vibrante e animada pela mudança. As ruas estreitas, decoradas com casas de azulejos coloridos e roupas a dançar nas janelas, observavam os seus passos apressados a caminho do porto da cidade, onde encontrou sucesso na profissão. Diz-se que era um homem de mão-cheia, um lisboeta de gema, que, à semelhança do próprio Tejo, acolhia as vivências e os saberes oriundos dos quatro cantos do mundo, que o tornavam num autêntico poliglota cultural. Mas, tal como a espuma do Tejo que desvanece junto à margem, também as memórias do meu bisavô se foram dissipando, como se a história, com uma ironia sádica, quisesse apagar o seu rastro.
O que hoje resta são meros fragmentos — pedaços de um passado já quase inacessível. Dos que permanecem comigo, surgem relatos imprecisos que pouco mais desvendam do que lembranças embriagadas pelo tempo. Quem me dera saber mais. Quem me dera dizer mais. Mas não lhe conheci o rosto, nem tampouco guardo um retrato que o eternize.
Apesar da incompletude, restam-me palavras, pois a memória, tal como um rio que flui, arrasta consigo o que somos e o que já fomos. Até que ponto podemos confiar nas suas águas turvas, quando estas nos mostram apenas trechos do que um dia foi?

Se pouco conheço sobre o mais antigo dos Rodrigos, essa penumbra deve-se, em boa parte, ao caminho que o meu avô decidiu percorrer, ao aventurar-se pelas terras de Angola. De uma Lisboa que já lhe escapava o brilho, partiu com os seus trinta e dois anos às costas, ansiando por um futuro mais próspero para os seus.
Estabeleceu-se na encantadora baía do Lobito, em Benguela, lugar onde se estendiam praias de areias brancas e finas, acolhidas pelo abraço das palmeiras e pela exuberância da vegetação. Este segundo Rodrigo, que assim o chamarei, aceitou a responsabilidade de Chefe de Desenho e Projectos dos caminhos de ferro de Benguela, linha férrea que fazia a ligação entre o interior angolano e a sua costa, cumprindo um papel essencial no transporte dos recursos naturais.
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Ali permaneceu, trinta e sete anos, tendo também se ausentado por um tempo em Paris com o desígnio de se entregar por completo à arte da pintura. Contava-me o meu pai, com uma faísca de orgulho no olhar, que ele era um homem de vasta cultura, senhor de um saber em línguas, falando o alemão, o inglês e o francês de forma fluente. Seria raro o momento, em qualquer lugar que se encontrasse, ou em companhia de quem estivesse, que não tivesse consigo uma pasta recheada com um bloco para anotações e um modesto conjunto de canetas de feltro ou lápis de cor, como se a vida, em si mesma, não lhe fosse suficiente e precisasse de a recriar através dos seus traços.

Este talentoso pintor, a quem também não tive a oportunidade de conhecer, deixou-me um legado de telas e cores que decoravam as paredes da casa onde cresci, como se tivessem sido ali colocadas para testemunhar silenciosamente as diferentes fases da minha juventude. Pinturas de paisagens, retratos e cenas do quotidiano ocupavam lugares de destaque, parecendo querer contar histórias que não cabiam em palavras.
Ainda menino, recordo-me das tardes preguiçosas na sala de estar, onde contemplava as pinturas do meu avô, procurando decifrar o homem escondido por trás do artista; como se, através do tempo e espaço, pudesse estabelecer um laço com aquele desconhecido que, por acaso do destino, partilhava comigo o nome e o apelido.
Imaginava-o de pincel em punho, capturando com mestria aquelas montanhas e o rio que corria mansamente. Por vezes, tentava imaginar como teria sido em vida. Seria um homem de poucas palavras, como eu? Teria ele também passado tardes preguiçosas a contemplar as obras de outros artistas, ansiando conhecê-los através das suas criações?
Nascido em Lisboa, Rodrigo, meu pai, era arrancado do seu berço na capital com poucos meses de vida, seguindo rumo com a sua mãe, Maria Romana, e os três irmãos mais velhos à distante Angola. A cidade que o vira nascer era diferente daquela que recebera o seu pai e, antes dele, o seu avô; porém, a mesma Lisboa de sua meninice, mal conhecida na sua primeira infância, haveria de cruzar-se novamente no seu destino.
Desviando-se do legado do pai, mestre em dar vida às paisagens com pinceladas, abraçou a sua vocação ao empunhar o microfone e tornar-se cantor. Em Angola, a sua voz ecoou pelos confins do país e a sua alma reverberava nas notas e palavras das canções que entoava. O país conheceu-o de lés a lés e nele reconheceu o talento, aclamando-o vencedor num Festival da Canção em 1970.
Quando contava vinte e cinco anos de idade, a descolonização trouxe consigo ventos de mudança, obrigando-o a deixar a única terra que verdadeiramente conhecia e a regressar a Lisboa, cidade que, no fundo, nunca deixara de lhe pertencer. Mas antes disso, durante três longos meses e afastado do seu primogénito, integrou-se numa caravana de automóveis que atravessou a África do Sul, onde mais de dez mil refugiados, tal como ele, procuravam a sobrevivência e um recomeço. E ali, num campo circundado por arame farpado, viveu como se estivesse numa prisão sem muros, onde a liberdade era um sonho distante.
O retorno a Lisboa impôs-lhe um novo desafio: o desemprego. Foi então que, com os 25 mil escudos que possuía, comprou uma passagem e rumou ao Brasil. Durante dois anos, abraçou novamente o desconhecido e, no fundo, encontrou um pouco mais de si mesmo.
Com alívio, o meu pai nada tinha que lhe pesasse no âmago, quanto a desejos por concretizar, deixando-se apenas a interrupção da música, e a falta de coragem para a retomar. Nos alvores de Portugal, após o desmoronar das colónias, com a prole a exigir cuidados e um recomeço a partir do nada, achava que seria uma temeridade aventurar-se a cantar em bares, uma vez que os horários laborais lhe vedariam tal possibilidade. Caso o tivesse feito, porventura perderia a segurança de um emprego onde auferia remuneração condigna.
Com a aproximação da pré-reforma, permitiu-se arriscar em alaridos de karaoke, sem ir além disso. O tempo fluiu, restando-lhe somente a memória do privilégio de ter partilhado o palco com Paulo de Carvalho e, especialmente, a actuação na primeira parte de um espectáculo em Luanda com Nelson Ned. Foram para ele, tempos de excelência, mas compete guardá-los, sabiamente, no recanto a que pertencem, no arquivo da memória.
Conheci-o e perdi-o demasiado cedo para conhecer histórias.
Rodrigo Diniz, assim me chamo, nascido em Lisboa e herdeiro de nomes e tradições de uma dinastia peculiar. Nasci numa Lisboa moderna que, tal como o Tejo que por ela passa, vi-me inundado destas histórias, melodias e telas, encaixadas cuidadosamente em molduras do tempo, ciente de que, talvez, não igualasse os talentos que me precederam, mas compreendendo o significado e o peso que essa linhagem representava.
A tradição que nos liga é também um fardo que transportamos, um peso que nos lembra do legado que devemos perpetuar. Contudo, o que significa, de facto, perpetuar esse legado? Quando escrevo, pinto com letras e frases, perpetuando esta linhagem através de uma linguagem diferente. A arte, essa senhora camaleónica, adapta-se, reinventa-se e torna-se imortal, eterna. As paredes da casa onde cresci ainda guardam a memória das pinturas de Rodrigos que já partiram, mas que, de alguma maneira, ainda se fazem sentir.
Nos fragmentos do passado, que tentamos encaixar como peças de um puzzle, encontramos ecos de nós mesmos, ressonâncias que vibram no presente e moldam o nosso ser. E, no âmago desta busca, talvez esteja a percepção de que as nossas raízes nos definem, mas também nos prendem e nos empurram para um caminho já traçado pelos que nos antecederam.
Entretanto, quando meu pai fitava o rosto do seu próprio filho, sentia a responsabilidade e a incerteza que essa herança trazia.
No futuro, que outros Rodrigos Diniz do amanhã encontrem em obras, pinturas, escritas ou histórias, uma herança que faça a linhagem continuar. A primeira das linhas é sempre aquela que nos precede, a que nos convida a interrogar a nossa própria existência e a reconhecer o valor do legado que nos é concedido.
Será a vida nada mais do que uma anedota contada por um velho contador de histórias que, cansado e envelhecido, já não se lembra de todos os pormenores?


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