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Arte demais?

Um dia, novelas já ousaram. Mas esse dia não é o de hoje.

Casa do Folhetim · 2024-09-07 01:08 · 7 claps · 2.1 min read
#telenovela #renascer #tv-globo #análise
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Arte demais?

Um dia, novelas já ousaram. Mas esse dia não é o de hoje.

A cena da morte de Egídio em “Renascer”. (Imagem: CNN)

A cena da morte de Egídio em “Renascer”. (Imagem: CNN)

Não pretendia escrever este texto. Estava rascunhando um maior, fazendo críticas gerais a Renascer (2024), mas fui surpreendido por um comentário que me chamou atenção no Bluesky. Anteontem, passou na Globo a cena da morte de Egídio na novela das 9. Atraído por Mariana para uma tocaia, o vilão morreu enforcado em uma sequência arrepiante. Alguém, que estava vendo a novela no dia, disse que achou a cena bonita, mas questionou se novela precisava mesmo de toda essa arte.

No mesmo momento, senti uma inquietação, mas não consegui detectar o motivo a princípio. Minha intenção não é fazer juízo do comentário, mas fiquei curioso. Percebo que estamos passando por uma crise de identidade das telenovelas — que vêm se expandindo pelo mundo, em diferentes formatos. Hoje, não se sabe mais o que é um “visual de novela”, como elas são. Isso porque antigamente eram parecidas, e uma ou outra fugia do padrão. Hoje, já existe a intenção de produzir obras diferentes, únicas, ao menos visual e estilisticamente falando.

Para alguns “noveleiros palpiteiros” — com o perdão da redundância, porque é tudo a mesma coisa — , a intenção de trabalhar melhor os visuais é apenas para expandir a exportação ou agradar aos jurados do Emmy Internacional. Para mim, a telenovela está simplesmente acompanhando o restante do audiovisual, como deve ser. Acho que, ao pensar que o público tem dificuldade de abraçar algo melhor trabalhado, existe uma subestimação.

Família é Tudo é a tal “novela com cara de novela”. (Imagem: Gshow)

Família é Tudo é a tal “novela com cara de novela”. (Imagem: Gshow)

A minha visão é de que não existe “novela com cara de novela”, que seria aquela novela sem efeitos visuais de cor na imagem — ou, narrativamente falando, a famosa novela absurda, pra você debochar com os conhecidos, ironicamente ou não. Acima de tudo, telenovela é um gênero diverso e que não precisa ter imagem chapada ou furos absurdos no texto, para virar chacota. Se pensarmos que o público quer coisas simplórias, toda novela vai ser uma Família é Tudo, e acho que ninguém quer isso.

Entre alguns pontos negativos de Renascer, temos a narrativa mais lenta, que abre espaço para o cotidiano e os relacionamentos dos personagens. Pode ser que isso não tenha chamado a atenção de um público que quer coisas mais rápidas e alucinantes — que estão aliadas aos modos de consumo atuais — , mas não me parece que ninguém desliga a televisão por ter visto uma cena gravada de um ângulo diferente. É coisa da gente, que se apega a detalhes técnicos.

O que o público quer são boas narrativas, não se importando com “arte em excesso” — se é que isso existe. Eu diria, aliás, que o público merece ser presenteado com melodramas bem produzidos como Renascer, porque, acima de tudo, telenovela é uma dose diária de arte.


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