Afeto
[Uma das primeiras coisas que escrevi no primeiro caderno, na época em que eu ainda mal conhecia qualquer coisa, e de fato eu estava certo…
Afeto
[Uma das primeiras coisas que escrevi no primeiro caderno, na época em que eu ainda mal conhecia qualquer coisa, e de fato eu estava certo no talvez.]
Existem dois tipos de amores os explicáveis e os inexplicáveis Os explicáveis não dão certo. Os inexplicáveis? Também não. Ou talvez seja apenas eu que só amei duas vezes.
Uma linda elfa me mostra um pergaminho de amor morto: um outro ser mágico colocava tudo que ainda podia ser dito em duas ou três linhas. Meu amor pela elfa vacila diante de seu passado deslumbrante. A caligrafia de seu amante era linda, fiquei hipnotizado, senti-me banal, perdi a magia. Aquela caligrafia demonstrava a verdade e a força da ligação — fui isolado para insignificância. Sinto um pequeno desespero quando penso nela. Mas não sinto desespero nenhum nela mesmo e inclusive o meu é até bem fraco. Isso me faz racionalizar algo real que foge da ilusão do desespero, que não seja impelido para qualquer abismo por uma desilusão. Mas isso de forma algum desencanta sua Valfenda, só a torna mais profunda.
Há mais encanto nela que desencanto em mim.
A floresta fica longe tanto quanto percebo meus instrumentos mágicos: poções, farinhas e ervas, um torto cajado e chapéu pontudo. Mexo as vestes pesadas de pano grosso e a elfa ao longe não me vê pois está de costas bebendo num lago de pureza mágica. Não pense que os elfos não gatunam, mas entenda que a beleza fundamenta mais a pureza que qualquer outra coisa.
Eu a quero mas tenho medo de tudo que me cerca. Tenho medo do que chamo de afeto, medo de rastrea-lo a qualquer instante, de prevê-lo e desencanta-lo. E ao pensar nisso já o faço. Mas nada fiz pois as forças se negam a comportar-se desse jeito. Não se consomem ao pensa-las. Eu a quero mas a comunicação falha — estou falando a mesma língua? Há uma espécie de ringue que se cria e assim cada palavra é um atrevimento pesado até as últimas consequências. As conversações são banais e os embates cansativos. É preciso. Navegar é preciso. Viver não é preciso. Eu a quero mas não a compreendo. Não sei até onde tudo vai, até onde devo ir e para onde ela acha que tudo caminha. Mas algo queremos.
O nome disso é insegurança, filho. Vai dormir.
Ah, como eu queria.
[Não sei falar de outra forma que não seja me confessando continuamente, em todos os bom dias, todos os obrigados e sim senhores]
Confesso gostar de mim. Confesso gostar disso. Confesso gostar de você. Confesso odiar o mundo todo, inclusive você. Confesso me odiar. Mas não confesso e nem nunca confessarei que deixei de amar.
Uma paixão é como uma violenta diarreia completamente liquida sendo despejada após torturantes segundos resistindo a ela. E curiosamente a sensação de vazio anal também é semelhante: a necessidade de despejar o que já foi despejado, a agonia de um vazio que não pode ser esvaziado mais do que está. E o remédio é o mesmo nos dois casos, claro: ficar em pé e fazer força contrária!
[resposta a um poema recebido]
Poema pra ela Outra noite uma esfinge se apresentou a mim como um enigma disfarçada em meio a fonemas elegantes e verdades bruscas Outro dia me peguei viciado em decifra-la como um imã arrastado em meio à cenas viciantes de poesia pura. Certa vez coube senti-la. como sentir a tempestade pelo cheiro que apenas nos tangencia. Logo ali do lado, ao alcance de um passo, que clássico! muito perto e muito longe para qualquer aleijado. e num impasse: perdi o rumo no costume de pensar que o mundo é facil E não disfarça Que não há muro que segure nem pregue tantos quadros. Cubista? Não sei — abstrato. A esfinge se renova sempre com perguntar que eu não saberia responder. Mas também sei que ela não saberia ouvir. Foi dito: tem medo.
E tenho dito:
Tenho mesmo.
E não só do enigma da esfinge como todos outros que habitam esse deserto. E por seus cactos mato minha sede pois o deserto é longo. E toda vez que faço a concha com a mão em seu oásis, não sinto a aguá. só sinto areia. como miragem. e me pergunto: que enigma é esse que sempre me força ao lado. Como um passeio em ruas abandonadas de um domingo a tarde ensolarado. Porque o deserto é longo e eu peregrino em suas lindas dunas mistérios escombros.
M.
por favor não conte a ela eu não saberia lhe encarar a face enrusbeceria a mão iria tremer mas de fato tu podias só deixar ela saber.
Tudo bem, do jeito que querias mas conte a mim primeiro ou conto tudo a ela e conto do meu jeito!
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Eu chego ela já saca arma em mãos eu não saco nada entendo nada então Sem jogo eu não jogo ela xinga o tabuleiro mas se joga no jogo que eu não admitiria. Eu juro que não jogo ela joga comigo ela julga minha indiferença eu a amo todo dia. Ela jura que se joga eu a julgo de “irias” nós jogamos sem querer o jogo de João e Maria
enquanto a gente se engana pro tempo passar, minguante e serena cigana o silêncio está a me atormentar o silêncio que eu mesmo calo o abismo que eu mesmo cavei Patriotas Bandidos Soldados nunca diga que eu nunca te amei
toda a minha é certeza culpa graúda. altura de mangueira troça inocente em bocas maliciosas beijos trocados como aperto de mão
Sinto falta da sinceridade tudo passou e eu passei em vão lembrarei como lembro agora nos tristes dias que virão
Doralice eu bem que lhe disse amar é tolice é bobagem é ilusão. E agora o que a gente vai fazer? O que eu vou fazer? Não há nada permitido no mundo da compaixão, nem nada tão bonito quanto o fogo queimando esses prédios. Eu queria queimar.Mas sinto o morno nos momentos mais felizes e congelo caio morto na solidão. Sinto o meio de campo a panos quentes, o medo, a compaixão, a tristeza de não sentir tudo que se sente sozinho. A veia aberta da America Latina escorre o que há de mais quente entre nós. Somos feitos de amor e de esperança. Mas toda realidade fere nossa utopia assim como o frio da solidão apaga o fogo desses prédios já vazios.
“O amor vareia: o primeiro vira areia o segundo sacaneia mas o próximo é ilusão!” — Guinga
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