Nem esquerda, nem direita: quem controla o "povo" controla o jogo
Nem esquerda, nem direita: quem controla o “povo” controla o jogo
O jogo mudou, e a direita saiu na frente. A esquerda ainda pode reagir — mas precisa entender o jogo que está sendo jogado.

Manifestação de bolsonaristas na Avenida Paulista. (Rovena Rosa/Agência Brasil)
Em seu livro Por um populismo de esquerda (2019), a cientista política belga Chantal Mouffe mobiliza a noção de “momento populista”: um cenário de fragilidade das estruturas políticas hegemônicas, em decorrência de um exaurimento da capacidade das instituições constituídas em responder às demandas populares de maneira representativa. Tais instituições, por definição, esgotam também as ferramentas para reverter esse quadro e de manter a confiabilidade por parte dos eleitores, abrindo espaço para novos projetos políticos que almejam uma reconfiguração radical da ordem social estabelecida.
Esse “povo” não é um dado empírico, mas uma construção discursiva que articula demandas distintas como expressão de um mesmo bloqueio sistêmico. Nesse sentido, o populismo não constitui uma ideologia específica, mas uma forma de organizar o conflito político em contextos de crise de representação. Esse “povo” puramente discursivo é nada mais do que um significante vazio, pois não possui um significado fixo, e serve apenas como um ponto de articulação para diversas demandas e identidades, unindo-as sob uma bandeira comum para a construção de uma identidade coletiva.
O “momento populista” brasileiro
Embora Mouffe tenha escrito seu livro pensando numa intervenção no debate da Europa Ocidental, a problemática da desconfiança sistêmica nas instituições é uma que nós, brasileiros, conhecemos bem. Não vivemos a contradição entre políticas de austeridade (onde os mais pobres presenciaram um abandono do apoio do estado) e os voluptuosos aportes financeiros em bancos privados e nacionalizações parciais, feitas para dirimir os impactos da crise de 2008 nas elites e em corporações vitais ao estado e sua estrutura de funcionamento sob uma lógica neoliberal, contradição essa apontada por Mouffe e outros autores como um dos principais vetores da crise de representatividade. Mas, ainda assim, o eleitorado brasileiro experimentou frustrações profundas com a ordem existente e uma semelhante sensação de abandono por seus representantes, desilusão ainda acentuada por estelionatos eleitorais daqueles que professavam a mudança.
Presenciamos a ascensão do Partido dos Trabalhadores (PT) ao poder, cuja própria trajetória rumo à presidência é marcada por um abandono das pretensões radicais, e cujo governo é mais proximo de um “reformismo fraco" (conforme sintetizado por André Singer em Os Sentidos do Lulismo, de 2012). A melhoria nos indicadores sociais e de cidadania, que garantiu ao PT um resultado eleitoral forte nos estratos mais baixos a partir de 2006, acabou por criar uma base programática frágil, despolitizada, e dependente do poder de compra como vetor de mobilização. Houve também papel relevante da pauta anticorrupção entre 2013 e 2018, que varreu do mapa uma elite então identificada como “velha política” (da qual o PT era comumente compreendido como parte).
Todo esse movimento abriu um vácuo representativo rapidamente ocupado por uma assim chamada “nova direita”. As eleições de 2016 e 2018, marcadas pelo antipetismo, articularam esse difuso sentimento antissistema em torno de candidaturas cada vez mais à direita, das quais emergiu o bolsonarismo. Articulação difusa de setores diversos, a coalizão bolsonarista chegou ao Planalto direcionando a insatisfação generalizada contra a esquerda, e mobilizando a pauta anticorrupção como seu carro-chefe. No entanto, junto à retórica antissistema que prometia expurgar a elite corrupta e resolver os problemas do país, observamos ideias impensáveis irem cada vez mais longe. Hoje, em 2026, o legado inegável de radicalização da política brasileira e de normalização do absurdo deixado pelo bolsonarismo é facilmente constatável. A fim de reavivar a memória do leitor, trago alguns exemplos:
- Nas eleições de 2014, o então candidato Levy Fidelix (PRTB) foi execrado publicamente por quase todos os adversários ao não apenas se recusar a defender o casamento homoafetivo, mas a comparar homossexuais a pedófilos, e sugerir que precisariam de tratamento psiquiátrico. Em 2022, no entanto, discursos homofóbicos foram veiculados à vontade por Bolsonaro durante sua campanha à reeleição, sem a mesma repercussão do episódio análogo de 2014. O ataque generalizado às populações LGBTQIAPN+ figura sob o guarda-chuva de uma crítica à assim chamada “ideologia de gênero”, um espantalho comumente utilizado para criticar os estudos de sexo e gênero. Segundo essa visão, o objetivo dessa “agenda” é erradicar a noção de sexo biológico, colocando-o em segundo plano frente a um gênero construído socialmente. Também se alega que grupos opressores utilizam esse conceito para impor uma agenda cultural, influenciando crianças e adolescentes a questionar sua sexualidade e identidade, o que é visto como ameaça à estrutura familiar tradicional.
- Essa expansão dos limites discursivos não se restringiu aos costumes, mas também à saúde. Durante todo o período pós-88, o conhecimento científico como base das políticas públicas de saúde nunca foi objeto de disputa ideológica pelos principais partidos. De maneira inédita, no entanto, a pandemia de COVID-19 foi marcada por uma enxurrada de frases negacionistas que buscavam minorar o potencial do vírus e estabelecer uma falsa dicotomia entre saúde e economia. As medidas de profilaxia foram diminutas, a aquisição e a entrega de vacinas foi severamente prejudicada, e o país teve quatro ministros da saúde entre os dois anos de pandemia (Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich, inclusive, caíram por adotar uma postura mais próxima do consenso científico). Um estudo da UFRJ e da UERJ identificou que mais de 300 mil das 716 mil mortes observadas pela doença no Brasil poderiam ter sido evitadas.
- Bolsonaro também rompeu os limites discursivos sobre os quais os conflitos institucionais eram possíveis. Essa tendência já estivesse mapeada por boa parte dos principais analistas políticos ainda em 2018, e apenas se aprofundou ao longo dos anos de mandato. Seu governo foi marcado por episódios inéditos que minaram a credibilidade nas instituições brasileiras e a independência das esferas de poder. Segundo um relatório do Conselho de Direitos Humanos da ONU sobre o tema, o ex-presidente questionou o resultado das eleições, desmontou a estrutura de participação social na definição de políticas públicas ameaçou jornalistas, defendeu torturadores do regime militar, e promoveu um ingresso ímpar de militares brasileiros no governo. Em julho de 2022, às vésperas das eleições, Bolsonaro também convocou embaixadores estrangeiros para denunciar que as urnas eletrônicas não seriam seguras.
O levantamento acima não é exaustivo, mas é útil para demonstrar ao leitor que, por ocasião da tentativa de articular o eleitorado conservador e insatisfeito com o establishment, houve uma transformação profunda nos limites do aceitável no debate público brasileiro. Os causos acima, que anteriormente gerariam sanção social imediata, passaram a ser progressivamente incorporados ao repertório político legítimo, muitas vezes articulados com uma retórica antissistema.

Em 7 de setembro de 2021, durante um comício na Avenida Paulista, Bolsonaro tentou uma ruptura institucional ao sinalizar que não cumpriria mais decisões do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal. (Paulo Lopes/AFP)
Mesmo depois de uma eleição apertada contra Lula, onde saiu derrotado, o bolsonarismo ainda ostenta simpatia de boa parte do eleitorado, e o filho mais velho do ex-presidente é canonizado como máximo anti-Lula para as eleições desse ano. Mas a crise de representação persiste: os índices de abstenção crescem a cada ano, e atualmente a maior parte dos brasileiros não possui legenda partidária preferida. Considerando a identificação do eleitorado brasileiro com a direita do espectro, é possível concluir que esse deslocamento não significa necessariamente uma aderência programática plena e estável, apenas que a “nova direita” brasileira teve relativo sucesso em capturar o vazio simbólico e eleitoral do campo ao mobilizar categorias até então hegemonizadas pela esquerda à sua própria maneira e se apropriar de dicotomias e frustrações existentes no tecido social.
Nesse cenário, a disputa política segue organizada em torno de antagonismos fortes, nos quais a construção discursiva de um “povo” em oposição a um “sistema” permanece como estratégia central de mobilização. Há dois vetores que merecem especial atenção em razão de seu potencial: o combate à corrupção e o debate sobre a segurança pública.
Nós, o povo honesto
O discurso contra a corrupção política é um velho conhecido dos brasileiros na imprensa. Mais do que um fenômeno empírico delimitado, a corrupção já operou ela própria em eleições passadas como significante vazio precisamente no sentido proposto por Laclau, condensando uma série de insatisfações difusas em relação ao funcionamento do sistema político. A própria eleição de 2018, marcada pela prisão de Lula e pelo auge do prestígio da Operação Lava-Jato, teve forte influência desse movimento. A despeito de crimes ao erário efetivamente existentes, o discurso anticorrupção é tão abrangente que não distingue necessariamente práticas ilegais de dinâmicas inerentes à política institucional (como negociação, barganha e formação de coalizões), contribuindo para um processo de criminalização da política. Trata-se de uma reconfiguração simbólica em que a própria atividade política passa a ser percebida como intrinsecamente corrupta, corroendo a legitimidade das instituições representativas.
Essa estrutura simbólica ajuda a explicar por que, apesar das oscilações conjunturais, a percepção de corrupção permanece persistentemente elevada entre os brasileiros, funcionando como um pano de fundo quase permanente da opinião pública, sem oscilações substantivas. Ela se mantém latente, pronta para ser reativada por novos escândalos ou disputas políticas que a recolocam no centro do debate público. E episódios recentes (como as discussões em torno de fraudes no INSS, bem como a demora do Governo em tomar um posicionamento sobre o tema) operaram como gatilhos para a reatualização desse repertório anticorrupção, com efeitos deletérios sobre a popularidade do atual incumbente. Ainda que tais eventos não possuam, isoladamente, a magnitude de escândalos anteriores, eles se inserem em uma memória política recente já saturada por denúncias, reforçando a percepção de continuidade e recorrência do problema. O efeito não é necessariamente a produção de uma crise institucional imediata, mas a reativação de disposições cognitivas e afetivas que associam o grupo da situação a desvio, privilégio e impunidade.
Essa permanência cria condições favoráveis para a emergência recorrente de atores que se apresentam como outsiders ou moralizadores, capazes de explorar essa desconfiança difusa e convertê-la em capital político. Em vez de um ciclo superado, o discurso anticorrupção permanece como um recurso latente de mobilização, pronto para ser reativado sempre que as condições políticas e discursivas o permitirem.
Nós, o povo de bem
A segurança pública é outro terreno especialmente fértil para um refinamento dessa construção discursiva do “povo”. Isso porque, conforme capturado por alguns estudos clássicos sobre violência urbana no Brasil, há uma distinção entre trabalhadores “honestos” (indivíduos que, apesar das dificuldades, se inserem no mercado de trabalho e aderem às normas sociais) e indivíduos associados ao crime, distinção essa que não seria apenas imposta de fora para dentro, mas atravessaria as próprias dinâmicas sociais das periferias. Essa clivagem moral opõe sujeitos considerados “de bem” àqueles vistos como desviantes. Jessé Souza, em “Os Batalhadores Brasileiros”, também demonstra como uma estratificação semelhante se organiza a partir de hierarquias econômicas e morais, opondo a assim chamada “ralé” (parcela estigmatizada da população, altamente precarizada e com acesso quase nulo à cidadania e a serviços basicos, e que é com frequência associada à criminalidade e a comportamentos desviantes) aos “batalhadores” (parcela do subproletariado que, pela ética do trabalho e busca por capital cultural, ascenderam socialmente, e agora visam o distanciamento material e simbólico da “ralé”). Essas duas clivagens morais, chaves analíticas temporalmente diferentes que capturam a oposição entre sujeitos considerados “de bem” àqueles vistos como desordeiros, pode fornecer uma base simbólica para a aceitação de políticas que diferenciem o alcance dos direitos de cidadania.

Em novembro de 2025, Nikolas Ferreira (PL) visitou o Centro de Confinamento do Terrorismo (CECOT), em El Salvador, maior prisão das Américas. As políticas de combate ao crime do presidente Nayib Bukele, criticadas por entidades de direitos humanos e observadores internacionais, são um modelo para Nikolas e uma parte da direita brasileira. (Reprodução/Instagram)
Ora, precisamente a crescente adesão popular a soluções punitivistas pode ser interpretada como consequência dessa distinção moral, aprofundada nas periferias por décadas de domínio tirânico de facções e milícias, conforme apontado por Wilson Gomes em sua coluna na Folha. A segurança pública figura atualmente entre as principais preocupações da população brasileira, e as operações policiais letais são frequentemente percebidas como respostas legítimas à criminalidade.
Um exemplo: em outubro de 2025, o governador Cláudio Castro (RJ) realizou uma megaoperação conjunta nos complexos do Alemão e da Penha. Considerada a maior e mais letal da história do estado, o resultado foi de 121 mortos, 113 prisões realizadas e 100 fuzis apreendidos. Mesmo assim, o resultado em termos de popularidade foi bem-sucedido: 67% dos brasileiros consideraram a operação correta, e que a polícia não exagerou na força (Quaest). No Rio de Janeiro, 81% acreditavam que “todos” ou “a maioria” dos mortos eram criminosos; 57% entendeu a ação como "um sucesso"; e quase 70% defendeu que foi bem executada (Datafolha). Ou seja, parte da população percebe a suspensão seletiva de garantias individuais como instrumento legítimo de restauração da ordem.
E mesmo o discurso político mainstream caminha na direção de distinguir esse “cidadão de bem”, entendido como aquele que “faz tudo certo” apesar das adversidades, sujeito de direito plenamente digno de proteção estatal; do “bandido”, deslocado para fora do campo das garantias legais, aproximando-se da figura do “inimigo” descrita por Günther Jakobs em seu polêmico ensaio. Sob essa ótica, contra os inimigos do Estado, é permissível que qualquer meio disponível seja utilizado para a punição, o que é justificado pela necessidade de proteger a sociedade ou o Estado contra determinados perigos.
O futuro do populismo no Brasil
Corrupção, assim como segurança pública, são temas clássicos do debate público brasileiro. Ambos mobilizam disputas calorosas, e figuram entre as principais preocupações dos eleitores, e operam a partir de uma lógica moralizante e punitivista: a construção do “político corrupto” e do “vagabundo/bandido” como figuras equivalentes dentro de um mesmo campo semântico permite a expansão de demandas por ordem, punição e exceção, frequentemente em detrimento de direitos e garantias constitucionais. Além do campo bolsonarista propriamente dito, há um ator que tem desenvolvido suas ações precisamente mirando no futuro: o Partido Missão, braço partidário do MBL (Movimento Brasil Livre), cujo registro no TSE foi aprovado no final de 2025.
Renan Santos, coordenador do partido, é pré-candidato à presidência, e abertamente crítico a Flávio Bolsonaro, que considera parte de uma direita pró-corrupção. O Missão também reivindica a experiência de El Salvador no combate ao crime, advogando conscientemente pela adoção do direito penal do inimigo e do encarceramento em massa, e defendendo também a execução de lideranças do crime organizado, aprofundado a ideologia punitivista brasileira e empurrando ainda mais os limites discursivos do tema.

Na última pesquisa da AtlasIntel/Bloomberg de 2025, Renan Santos aparece com 18,6% das intenções de voto para as eleições de 2026 no estrato entre 16 e 24 anos de idade, percentual muito acima da média geral.
A forma como o discurso é apresentado também merece atenção específica. A brevíssima vida do Missão já conta com diversas polêmicas: Renan Santos propôs a fusão do Estado do Tocantins com Goiás; acabar com as favelas; e chamou a filósofa Djamila Ribeiro de “jeca”, dizendo que “sua agenda é a mesma do crime organizado”. Tal atuação não é fruto de um mero destemperamento, mas revela uma adaptação consciente à lógica contemporânea de comunicação política, marcada pela espetacularização e pela memetização do debate público. A linguagem empregada (direta, provocativa e frequentemente simplificadora) não busca apenas transmitir uma mensagem, mas maximizar sua circulação em ambientes digitais, especialmente entre públicos mais jovens. Há semelhança com a estratégia utilizada por Pablo Marçal, candidato à Prefeitura de São Paulo pelo PRTB em 2024.
Nesse sentido, mais do que responder a um eleitorado já consolidado, o Missão parece antecipar transformações geracionais no modo de consumo da política, investindo na construção de repertórios discursivos compatíveis com uma esfera pública cada vez mais mediada não apenas por plataformas digitais, mas também por uma espetacularização da política. Assim, mais do que responder a uma demanda social já consolidada, o Missão atua na antecipação de um eleitorado em formação, socializado em uma esfera pública cada vez mais mediada por dinâmicas de espetacularização e memetização da política.
O dever histórico de liberais e da esquerda moderada
Diante desse cenário, o dever histórico da esquerda moderada não é apenas resistir, mas especialmente se reorganizar em um terreno já profundamente transformado. Isso implica reconhecer que o conflito político não é necessariamente uma distorção da democracia contemporânea, mas sua própria condição de funcionamento.
No plano institucional, o campo deve abandonar a hesitação em disputar legitimamente os espaços de poder. Por exemplo, há farta evidência empírica na literatura sobre erosão democrática que aponta para as cortes supremas como uma das principais barreiras à consolidação de regimes autoritários. O próximo presidente terá direito a três indicações, em razão das aposentadorias compulsórias de Luiz Fux, Carmen Lúcia e Gilmar Mendes. Caso reeleito, Lula não deve hesitar em preencher as vagas abertas com juristas garantistas e comprometidos em frear eventuais retrocessos democráticos.
No plano discursivo, a experiência recente sugere que a retórica populista permanece central para a mobilização eleitoral. Após anos no poder, o PT não pode reivindicar o lugar de outsider. Ainda assim, isso não impede que explicite os conflitos distributivos que estruturam o capitalismo brasileiro. Debates como a tributação da renda, o fim da escala 6x1 e a gratuidade do transporte público apontam caminhos possíveis, mas que foram mal aproveitados pelos governistas nos últimos anos.
No campo da segurança pública, a esquerda como um todo enfrenta seu maior déficit, sofrendo derrota atrás de derrota após décadas formulando a crítica ao punitivismo de forma exclusivamente normativa e garantista. No entanto, é nesse que também se constitui a maior oportunidade. Há um amplo acervo de evidências empíricas que demonstram a ineficácia de políticas baseadas no confronto letal, tão caras à extrema-direita brasileira. Mesmo experiências como El Salvador, dificilmente transplantáveis ao Brasil, possuem um custo social que não pode ser ignorado, e vieram acompanhadas de um retrocesso substantivo nas instituições democráticas.
No Brasil, há uma camada a mais: a própria dinâmica do crime organizado revela uma dissociação entre a violência ostensiva e os circuitos econômicos que sustentam essas organizações, de maneira que operações altamente letais, tão espetacularizadas e veneradas pela extrema-direita, frequentemente produzem efeitos marginais sobre as estruturas do crime — ao contrário de investigações financeiras, que tendem a gerar impactos mais duradouros. Em 2025, poucas semanas antes da operação de alta letalidade supracitada no Rio de Janeiro, uma outra foi realizada pela Polícia Federal em Belo Horizonte, visando desarticular o tráfico de armas. Sem nenhuma baixa, o resultado foi de 10 pessoas presas, 47 fuzis apreendidos, R$ 40 milhões em bens bloqueados, e o desmantelamento de uma capacidade de produção de 3.500 fuzis/ano que, segundo a investigação, abasteciam facções ligadas ao Comando Vermelho no Rio de Janeiro.
Diante desse cenário, o dever histórico da centro-esquerda não é apenas resistir, mas se reorganizar. Isso exige maior assertividade institucional, clareza na construção de conflitos políticos e capacidade de adaptação a novas formas de comunicação, sob o risco de se tornar irrelevante em um ambiente político cada vez mais moldado por essas dinâmicas.
A centro-esquerda brasileira não enfrenta apenas adversários mais agressivos, mas um ecossistema político distinto daquele que a levou ao poder nas décadas anteriores. Adaptar-se a esse novo contexto não é uma escolha estratégica entre outras possíveis; é uma condição para sua própria sobrevivência como força política relevante.
메타데이터
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