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Dois Passos Para Trás

Grossas gotas de chuva castigavam a janela, ameaçadoras, como se quisessem me impedir de sair daquele cômodo e, de certo modo, de mim…

Denice dos Anjos · 2025-07-19 21:39 · 0 claps · 2.1 min read
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Dois Passos Para Trás

Grossas gotas de chuva castigavam a janela, ameaçadoras, como se quisessem me impedir de sair daquele cômodo e, de certo modo, de mim mesma.

Ali permaneci, protegida por minha própria falta de coragem, observando, do lado de dentro, as pessoas que caminhavam pela rua. Algumas, apressadas, disputavam uma maratona silenciosa contra o relógio. Outras, tranquilas, apenas apertavam os cabos dos guarda-chuvas com força entre os dedos, como se ali descontassem o incômodo que traziam dentro de si, enquanto olhavam distraidamente as vitrines.

Entre todas essas pessoas, algo as igualava; A decisão de sair de enfrentar a chuva, o vento, seus próprios medos… enfrentando a vida.

Foi então que percebi meu reflexo ainda ali, apanhando pelas mesmas gotas de chuva.

Ao baixar os olhos, notei que meus pés continuavam pregados no chão, sem qualquer sinal de movimento. Como se os comandos que meu cérebro enviasse para o corpo, percorressem pela espinha e se perdessem por ali, nunca chegando ao destino, sem chegar em nenhum lugar.

Nenhum lugar.

É exatamente nesse lugar que cheguei e estacionei. Onde sobrevivia observando cada passo falho e incerto de outros, temendo de que essas falhas também me encontrassem, me engolissem e me jogassem, me prendendo em um local do qual eu não saberia voltar.

Nem sei porque penso isso, já que esse “nenhum lugar” não é confortável o bastante para me dizer que é aqui que quero estar, então, resumindo, não é aqui que quero estar.

Uma forte rajada de vento sacode a janela, então meu corpo saltou e me levou dois passos para trás.

Dois passos para trás me despertaram do transe.

Já não estou mais perdida em lugar nenhum, estou dois passos atrás.

Foi ali que minha visão expandiu. Percebo não apenas meu reflexo sendo castigado por grossas gotas de chuva que batem na janela, percebo os móveis ao meu redor, os sons da casa, a vida pulsando à minha volta.

Então comecei a me mover. Organizo meus pertences, vesti a mochila, agarrei o guarda-chuva e o apertei contra o corpo como quem se arma de coragem. Respiro fundo enquanto minhas mãos lentamente alcançam a maçaneta e começam a gira-la com delicadeza e certeza.

Puxo a porta devagar e aí sou atingida pela brisa suave do dia, que roça a pele de meu rosto, trazendo um ar puro para minhas narinas, as inspiro levando-as para dentro do pulmão e soprando com força o ar quente pelos lábios, deixando escapar um leve assovio, talvez alívio, talvez surpresa…

É aí que percebo. A chuva cessou e a brisa suave arrastava as nuvens com delicadeza para longe, deixando espaço para belo céu azul apresentar delicados raios de sol.

Segui o dia.

O medo só me paralisou enquanto meus olhos estavam fixos nele. Bastaram dois passos para trás para que eu pudesse ver um caminho adiante.

Se você não sabe onde está, talvez seja preciso recuar para reencontrar o caminho. Fuja do cômodo mental que te aprisiona.

Abra os olhos.

Dê o passo. A vida está esperando do lado de fora.


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