Última Formação
O dia amanhece silencioso.

Última Formação
O dia amanhece silencioso.
Como fazia todas as manhãs, Seu Zé levanta cedo. Aos setenta e quatro anos, seus movimentos já não têm a velocidade da juventude, mas ainda carregam firmeza.
Em frente ao velho espelho do banheiro, ajeita o cabelo já branco e veste sua melhor roupa.
— Hoje é um dia importante — murmura para si mesmo.
Quando chega à cozinha, o café já está servido. — Seu café está pronto, pai — diz a filha.
Ele sorri, senta-se à mesa e leva a xícara aos lábios. O aroma quente desperta lembranças antigas. Pela janela, seu olhar se perde ao longe.
E então ele vê Osvaldo. Não o Osvaldo da fotografia amarelada guardada na gaveta, mas o rapaz sorridente de dezenove anos, parado ao seu lado no porto de Santos.
— Pai, o senhor está pronto? A voz da filha o traz de volta. — Sim, estou.
Levanta-se devagar. — Hoje é um dia importante. Limpa os farelos da camisa e segue até o carro estacionado do lado de fora. Durante a viagem, observa a paisagem passar lentamente pela janela.
As ruas desaparecem. Os prédios desaparecem. E, pouco a pouco, o presente desaparece também.
De repente, ele está na Itália de 1945. O frio corta a pele. Explosões fazem a terra tremer.
Tiros ecoam por toda parte. — Osvaldo! Abaixa! Uma bala passa raspando.
Os dois correm entre a fumaça e os escombros. O cheiro de pólvora, sangue e morte domina o ar. Corpos sem vida jazem espalhados pelo terreno.
A trincheira está logo à frente. Eles saltam para dentro dela. Por um instante, parece que conseguiram escapar.
— Chegamos, pai. Seu Zé abre os olhos. A guerra desaparece.
Está novamente no carro. Ele pega o quepe cuidadosamente dobrado e uma garrafa de cachaça. Desce devagar.
Na entrada, o guarda sorri. — Veio visitar o seu Osvaldo de novo, Seu Zé? — Vim. — Alguma data especial?
Seu Zé aperta a garrafa contra o peito. — Hoje ele faz setenta e dois anos.
O guarda apenas acena com a cabeça. Seu Zé segue sozinho pelo caminho. Passo após passo.
Até parar diante de uma lápide simples.
Osvaldo de Souza Xavier 1926–1945
Por alguns segundos, ele permanece em silêncio. Depois coloca a garrafa ao lado da pedra. — Trouxe sua bebida favorita, meu velho amigo.
A voz falha. — Achei que você fosse gostar.
As lágrimas finalmente vencem. E as lembranças retornam pela última vez. Naquele dia, após alcançarem a trincheira, um soldado alemão surgiu entre a fumaça.
Tudo aconteceu rápido. Rápido demais.
Osvaldo se lançou à frente. Houve um disparo. Depois outro.
E então o rapaz caiu. Seu Zé o segurou nos braços enquanto o sangue escorria por seu uniforme.
Osvaldo tentou sorrir. E, em seus últimos momentos, olhou para o velho amigo. — Por favor… não me esqueça, parceiro.
Seu Zé apertou sua mão. — Nunca.
Osvaldo apontou para o cantil preso ao cinto. Um simples sorriso surgiu em seu rosto. — Um dia… a gente ainda divide um copo de cachaça. Então seus olhos se voltaram para o distante céu nublado pela fumaça.
Diante da lápide, setenta e dois anos depois, Seu Zé enxuga as lágrimas. Abre a garrafa. Enche dois copos de metal que trouxe consigo.
Coloca um deles ao lado da pedra. Ergue o outro em direção ao céu. E sorri.
— Eu não esqueci, parceiro. Eu não esqueci.
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