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Última Formação

O dia amanhece silencioso.

Penso Logo Existo · 2026-05-30 18:39 · 9 claps · 2.3 min read
#1945 #segunda-guerra-mundial #medium-brasil #feb #poesia
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Última Formação

O dia amanhece silencioso.

Como fazia todas as manhãs, Seu Zé levanta cedo. Aos setenta e quatro anos, seus movimentos já não têm a velocidade da juventude, mas ainda carregam firmeza.

Em frente ao velho espelho do banheiro, ajeita o cabelo já branco e veste sua melhor roupa.

— Hoje é um dia importante — murmura para si mesmo.

Quando chega à cozinha, o café já está servido. — Seu café está pronto, pai — diz a filha.

Ele sorri, senta-se à mesa e leva a xícara aos lábios. O aroma quente desperta lembranças antigas. Pela janela, seu olhar se perde ao longe.

E então ele vê Osvaldo. Não o Osvaldo da fotografia amarelada guardada na gaveta, mas o rapaz sorridente de dezenove anos, parado ao seu lado no porto de Santos.

— Pai, o senhor está pronto? A voz da filha o traz de volta. — Sim, estou.

Levanta-se devagar. — Hoje é um dia importante. Limpa os farelos da camisa e segue até o carro estacionado do lado de fora. Durante a viagem, observa a paisagem passar lentamente pela janela.

As ruas desaparecem. Os prédios desaparecem. E, pouco a pouco, o presente desaparece também.

De repente, ele está na Itália de 1945. O frio corta a pele. Explosões fazem a terra tremer.

Tiros ecoam por toda parte. — Osvaldo! Abaixa! Uma bala passa raspando.

Os dois correm entre a fumaça e os escombros. O cheiro de pólvora, sangue e morte domina o ar. Corpos sem vida jazem espalhados pelo terreno.

A trincheira está logo à frente. Eles saltam para dentro dela. Por um instante, parece que conseguiram escapar.

— Chegamos, pai. Seu Zé abre os olhos. A guerra desaparece.

Está novamente no carro. Ele pega o quepe cuidadosamente dobrado e uma garrafa de cachaça. Desce devagar.

Na entrada, o guarda sorri. — Veio visitar o seu Osvaldo de novo, Seu Zé? — Vim. — Alguma data especial?

Seu Zé aperta a garrafa contra o peito. — Hoje ele faz setenta e dois anos.

O guarda apenas acena com a cabeça. Seu Zé segue sozinho pelo caminho. Passo após passo.

Até parar diante de uma lápide simples.

Osvaldo de Souza Xavier 1926–1945

Por alguns segundos, ele permanece em silêncio. Depois coloca a garrafa ao lado da pedra. — Trouxe sua bebida favorita, meu velho amigo.

A voz falha. — Achei que você fosse gostar.

As lágrimas finalmente vencem. E as lembranças retornam pela última vez. Naquele dia, após alcançarem a trincheira, um soldado alemão surgiu entre a fumaça.

Tudo aconteceu rápido. Rápido demais.

Osvaldo se lançou à frente. Houve um disparo. Depois outro.

E então o rapaz caiu. Seu Zé o segurou nos braços enquanto o sangue escorria por seu uniforme.

Osvaldo tentou sorrir. E, em seus últimos momentos, olhou para o velho amigo. — Por favor… não me esqueça, parceiro.

Seu Zé apertou sua mão. — Nunca.

Osvaldo apontou para o cantil preso ao cinto. Um simples sorriso surgiu em seu rosto. — Um dia… a gente ainda divide um copo de cachaça. Então seus olhos se voltaram para o distante céu nublado pela fumaça.

Diante da lápide, setenta e dois anos depois, Seu Zé enxuga as lágrimas. Abre a garrafa. Enche dois copos de metal que trouxe consigo.

Coloca um deles ao lado da pedra. Ergue o outro em direção ao céu. E sorri.

— Eu não esqueci, parceiro. Eu não esqueci.


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