2026 — A Paixão segundo São Mateus
Notas de programa para o concerto A Paixão Segundo São Mateus, com a OBach, realizado em 12 de abril de 2026. Repertório:
2026 — A Paixão segundo São Mateus
Notas de programa para o concerto A Paixão Segundo São Mateus, com a OBach, realizado em 12 de abril de 2026. Repertório:
J. S. Bach — A Paixão Segundo São Mateus, BWV 244
Por Rafael de Abreu Ribeiro
Johann Sebastian Bach compôs o oratório A Paixão Segundo São Mateus para a Sexta-feira Santa de 1727. Após algumas décadas, A Paixão caiu no esquecimento, sendo redescoberta quase um século depois, em 1826, e posteriormente apresentada em concerto por Felix Mendelssohn, em Berlim. Eduard Devrient, que cantou o papel de Jesus na ocasião, expressou suas dúvidas: a obra de Bach era pouquíssima apresentada, tida como uma antiguidade, uma curiosidade, ecos de outra era; o público considerava Bach como “não-melódico, seco e ininteligível”. Contudo, tanto Devrient quanto Mendelssohn reconheciam a grandeza intrínseca d’A Paixão.
E estavam certos! Fanny Hensel, a irmã de Mendelssohn, relata que cantores e instrumentistas ficaram maravilhados com o oratório já nos primeiros ensaios. Até mesmo os acadêmicos de Berlim começaram a estudá-la com genuíno interesse: “a obra em si, a novidade e a natureza da forma sem precedentes fascinavam-nos”, escreveu ela em carta. A noite da (re)estreia foi um sucesso! Adolf Bernhard Marx, crítico musical, descreveu a música como “os primeiros raios de sol após as névoas do Grande Dilúvio”, e como “uma verdadeira celebração entre religião e arte”.
O que torna esta composição tão especial?
A resposta é curta e simples: bom texto e boa música.
Bach combinou três tipos de textos: capítulos da Bíblia, textos litúrgicos dos séculos XVI e XVII e versos escritos pelo libretista Picander, seu contemporâneo. Essa mistura promove reflexões profundas sobre o episódio narrado ao mesmo tempo em que sintetiza histórias milenares em emoções compreensíveis ao público. A fusão entre passado e presente também está na parte musical: além da parte original, Bach fez questão de inserir hinos tradicionais conhecidos pelo público de sua igreja. A intenção era representar a voz do povo, permitindo que a congregação participasse do oratório de forma mental e emocional.
Para dar conta dessa plêiade de sentimentos, Bach recorreu a diversas ferramentas retóricas e musicais. Dissonâncias, pausas dramáticas, suspensões e até a Teoria dos Afetos, muito em voga no período barroco, foram amplamente aplicadas. Em Buss um Reu, por exemplo, Bach escolheu uma tonalidade de difícil execução e afinação, intensificando o desconforto do ouvinte em uma ária sobre arrependimento e pesar. Em Geduld! Wenn mich falsche Zungen, um violoncelo solo transita entre a paciência de Jesus e a ferocidade daqueles lhe dirigem palavras venenosas. Já em Erbarme dich, mein Gott, o violino solo assume a imagem de Pedro chorando de arrependimento após negar Cristo três vezes. São inúmeras as relações musicais que ilustram com precisão o conteúdo do texto!
A carga dramática, a intensidade emocional, a caracterização dos personagens e a influência exercida sobre compositores dos séculos seguintes fazem d’A Paixão segundo São Mateus uma obra inesquecível. Aparece frequentemente em primeiro lugar em rankings sobre melhores músicas europeias, mas ocupa um lugar ainda mais especial: é considerada uma das maiores realizações de toda cultura ocidental.
Johann Sebastian Bach, um dos mais prolíficos compositores de seu tempo, morreu sem saber que toda sua obra musical atingiria os píncaros da arte musical. Se soubesse, talvez não daria tanta importância. Suas partituras musicais terminam com a inscrição S.D.G., uma abreviação de Soli Deo Gloria (glória somente a Deus), refletindo sua devoção religiosa e a busca pelo divino. Depois de passar quase um século esquecido pela humanidade, hoje temos a graça de poder ouvir um pouco de sua inspiração sagrada traduzida em notas musicais.
CITE ESTE TEXTO
Este texto foi publicado no dia 12 de abril de 2026 em versão digital. Última revisão (nesta versão online) no dia 09 de abril de 2026. Direitos de reprodução, parte ou todo, segundo diretrizes de CC BY 4.0.
Para citações acadêmicas:
RIBEIRO, Rafael de Abreu. *A Paixão segundo São Mateus. *Medium.com, 2026. Disponível em: https://medium.com/%40maestrorafaelabreu/2026-j-s-bach-a-paix%C3%A3o-segundo-s%C3%A3o-mateus-e9dbd9e5bb80. Acesso em: //****.
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