Sambas-enredo 2024 — Viradouro
Enredo: “Arroboboi, Dangbé”
Sambas-enredo 2024 — Viradouro
Enredo: “Arroboboi, Dangbé”

O enredo
A Viradouro carnavaliza o culto das sacerdotisas voduns da Costa da Mina. Arroboboi é uma salvação, aqui dirigida a Dangbé, o vodun “ofídico” da proteção, do equilíbrio e do movimento. A imagem da cobra engolindo a própria cauda simboliza o “eterno retorno”, a ideia de que “nada principia nem finda, tudo avança, tudo retorna”. Por isso a sinopse começa e termina com “Alafiou!” — verbo derivado do odu Alafiá, sinalizando que os caminhos estão abertos para a Viradouro.
O culto a Dangbé nasce entre os povos de Uidá. Contava-se que durante a sua batalha contra o reino vizinho de Aladá, a serpente partiu do lado inimigo e atravessou o campo de batalha para assegurar a sua vitória. Com a expansão de Daomé no século XVIII, Dangbé foi incorporado ao conjunto de “voduns ofídicos” adorados no reino. Era a base espiritual da preparação das ahosi — o poderoso exército feminino preparado espiritualmente pelas sacerdotisas voduns. Também chamadas de guerreiras Mino, “as mulheres mais temidas do mundo” eram protegidas pelo sobrenatural e guiadas pelo espírito de coletividade — em seu ritual de iniciação realizavam um pacto místico de lealdade incondicional.
Sendo mais “irmandade” que exército, inspiraram lideranças femininas do Daomé a disseminar seus valores em outras lutas — como na defesa do sagrado em novas regiões onde as herdeiras da serpente estabeleceram “pés e pejis” — raízes e altares. Uma dessas herdeiras, Ludovina Pessoa, chegou ao Brasil iniciada no vodun Gu Rainha e ergueu terreiros como o Seja Hundé (no Recôncavo Baiano ) e o Terreiro do Bogum (em Salvador) — tendo este último funcionado como importante local de apoio para a Revolta dos Malês em 1835.
O enredo lembra que não só os voduns protegiam as mulheres, como também estas, através de sua rede matriarcal associativa, protegiam os voduns. Eram como como guardiãs da memória, além de “senhoras da cura, da fertilidade, das adivinhações, dos conselhos e dos destinos” — guias espirituais inclusive para os brancos e brancas que repudiavam o culto aos espíritos publicamente. Constituíam ainda “um tipo de devoção feminina e solidária que transbordava também no gestual, na língua, no cabelo, nos cheiros, nos talismãs, nos balangandãs, nos paramentos, nos alimentos, no jeito de dançar e de cantar, enfim, de ser e de estar no mundo. Poder que se eterniza na constante luta pela crença vodum, suas encantações, ritos e mistérios”.
Finalmente, ao celebrar a Terra como “terreiro cósmico”, o enredo relembra as palavras de Doné Ronhó, líder do Bogum até 1975: “Sem água e sem mata, o jeje não sobrevive”. A herança vodun no Candomblé — materializada no aguidavi, no toque de guerra do adarrum — e em outras matrizes religiosas africanas fluiu como rio “serpenteando pela mata, rumo ao mar. E assim como as ofídicas, sobrevivem e se expandem em peles que se renovam.” Partindo de Uidá, Dangbé alcançou a costa e atravessou o Atlântico, antes de aportar na Bahia, se espalhar pelo Brasil e ser cantada pela Viradouro.
A safra
Seguramente uma das safras com o maior número de sambas excelentes. São sambas que refletem fidedignamente o tom e as cores fortes do enredo. Muitos incorporaram o espírito de guerra do adarrum. Destaco quatro deles, como poderia destacar 7 ou 8.
Os sambas que eu mais gostei
Claudio Mattos, Claudio Russo, Julio Alves, Thiago Meiners e cia. Um sambaço, com estrutura semelhante à obra da parceria de Mattos que sagrou-se vencedora ano passado. A primeira do samba é irretocável, criando a imagem da serpente que rasteja até oferecer o seu poder às guerreiras mulheres, fortalecidas pelo vodun e pela própria lealdade que cultivam. Os versos “Já sangrou um oceano pro seu rito incorporar / Num Brasil mais africano, outra areia, mesmo mar” — logram uma bonita metáfora ao associar o oceano ao sangue dos escravizados e, ao mesmo tempo, ao encontro dos diferentes pólos da diáspora através do culto aos voduns. O primeiro refrão, que resume o papel de Ludovina Pessoa como herdeira do da religiosidade agora trazida e ressignificada nas areias de Salvador, é uma pancada que dá gosto de cantar — muito pela maneira como exploram a sonoridade de “Bogum”: “Ergue a casa de Bogum, atabaque na Bahia / Ya é Gu rainha, herdeira do candomblé / Centenário fundamento da Costa da Mina / Semente de uma legião de fé”. Já o início da segunda do samba é o único trecho que não me agrada tanto. Talvez pela repetição da fórmula de Rosa María Egípciaca, a transição soa um pouco brusca demais; por outro lado, gosto da arrastada no canto em “Ayi! Que seu veneno seja meu poder” e já consigo ouvir o Wander Pires entoando esses trechos. O pré-refrão em tom de desafio empolgam — “Ê alafiou, ê alafiá, é o ninho da serpente / Jamais tente afrontar (Preparado pra lutar)” — chamando para a guerra e para o refrão arrebatador: “Arroboboi meu pai, arroboboi Dangbê / Destila seu axé na alma e no couro / Derrama nesse chão a sua proteção/ Pra vitória da Viradouro”.
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Mocotó, Peralta e cia. É o samba que mais me emociona na safra. A primeira, fortíssima, canta a serpente e reproduz de cara o clima de guerra do enredo. Emenda em versos que se repentem — “Se esconde, rabisca o chão / Refaz a história da sua nação / Refaz a história da sua nação / Se esconde, ligeira, rabisca o chão” — um recurso em alusão ao infinito, o círculo fechado associado à Dangbé. A parte em seguida — “Brava mulher por Daomé / Vitórias lidera, a tropa e a era” — é uma das que faz desse samba também excelente pro tipo de extensão que favorece o canto de Wander Pires. A melhor parte da letra brinca com a cidade de Cachoeira-BA — onde Ludovina ergueu o terreiro Seja Hundé — usando a sonoridade de “peji” (altar), para fazer a imagem da cachoeira como altar: “No Seja Hundé… A fé se banhou… / Peji cachoeira… Bogum Salvador”. O papel de Ludovina e das sacerdotisas — elevadas a “altares” dos malês — também aparece aqui; além dos cultos sincréticos, cuja “discrição” também é muito bem representada poeticamente: Ê… Ludovina corre tempo e ensina / Pretas divinas pro Malê um altar / Noite e dia, do batuque à ladainha / E nos fundos da igrejinha / Fez o Jeje entoar”. Excelente a transição deste último verso para o pré-refrão, fazendo com que entoemos “junto” aos Jeje a linda melodia de “Arroboboi, à natureza, Arroboboi / O arco-íris é Dangbé / Encanta o amanhecer”. Por fim, o também emocionante refrão que faz os tambores feiticeiros da Viradouro tocarem o adarrum e abençoar o mundo, transformando-o em um “grande terreiro”.
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Renan Gêmeo, Raphael Richaid, Rodrigo Gêmeo, Bebeto Maneiro, P.C. Portugal, Marcelo Adnet e cia. A parceria “dos Gêmeos”, que já chegou até a final no ano passado, conseguiu emplacar outra bela obra. O samba é todo bonito e bom de cantar, com melodias fáceis, ainda que criativas, ressaltadas pela excelente interpretação de Gilsinho. Pede passagem com “Preceito no ilê da Viradouro / Alabê bateu no coro, encantou o meu tambor / Agoyê, mensageiro do destino / Aponta o caminho, Legbá alafiou” — introduzindo o Vodun equivalente a Exu na religiosidade iorubá. Destaca-se o trecho “Tem mandinga ê no toque do adarrum / É feiticeiro o trono de Gu Rainha / Ainda ecoa no terreiro do Bogum / O canto de Runhó e Mãe Nicinha”, que exalta mães importantes dos dois terreiros fundados por Ludovina. Além da cantiga vodun, transformada em trecho com potencial viral “Agô dilê mahim á Dan issu Dan”, o refrão também chama atenção — sobretudo por sua melodia “pegajosa” e seu breviloquente verso final: “Salve o Jeje! A luz pra vencer / Na Viradouro, a magia de Dangbé / Vodum é vida, proteção, acè / E a natureza, o altar do candomblé”.
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Lucas Macedo, Diego Nicolau e cia.
Outro samba que captou muito bem a essência guerreira do enredo. No segmento inicial, a poética dos versos de métrica perfeita “Sentinela do preceito, fundamento dos voduns / Guardiã de toda mina, onde sangra o mar azul / Infinita na batalha, consagrada em Uidá / És o rastro encarnado, divindade em Aladá” é acompanhada de uma linda melodia — perfeita tanto para “o ex” Zé Paulo Sierra, quanto para Wander Pires (homenageado no final da gravação). A transição com a repetição de “Alafiou” para chegar em “Negra rainha cruzou o mar / No passado, o que vem de lá? / É Jeje é, Vodun-fa! / Eis o futuro que se cumpriu / A serpente fez seu pilar / Herança assentada em meu Brasil” é brilhante, assim como as “esticadas” na melodia para compor com os versos “Que entende a dor, estende a mão, leva a missão / Senhora do saber é Ludovina”. O ritmo — e novamente a métrica — do trecho “Que acolhe a entidade, no clamor do adarrum / Sob a cruz da lealdade, a essência do vodun / Onde o bem se impõe ao mal, onde todos são iguais / Pra rezar na ‘Cachoeira’ e evocar seus ancestrais” também contagiam, antes de uma transição diferente para o refrão explosivo, que fecha o samba pedindo para ogã pegar no aguidavi e abrir os caminhos da Viradouro — cumprindo a risca o enredo “circular”.
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Dudu Nobre, Samir Trindade e cia.
Munido de um verso pronto para ser slogan — “Se me desafiar… é guerra” — este samba é outro concorrente muito forte da safra. O samba esbanja melodias bonitas e bem trabalhadas desde os seus primeiros versos. A sua segunda segue esse padrão, com destaque para “Jeje matriz do candomblé / Bahia Ilê de Ifé / Toca o adarrum ô ô ô ô” — versos encerrados por uma pausa meio diferente, muito criativa, em que o adarrum é executado. Apesar do seu refrão poderoso, melodias excelentes, e de também ter trabalhado muito bem a sinopse, a letra deste samba está um pouco abaixo em poesia quando comparado aos anteriores.
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Meu palpite
Parceria Claudio Mattos leva. Mocotó, Peralta e cia. e Lucas Macedo, Diego Nicolau e cia. estarão na final.
메타데이터
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- 2026-07-20 10:21:28