Não me entenda — me decifre, se for capaz
Disseram que sou difícil de amar. Ouvi devagar, como quem escuta a chuva que não quer passar. Não neguei. Deixei entrar. Hilda Hilst se…
Não me entenda: me decifre, se for capaz

Coração quebrado cola é com porra
Disseram que sou difícil de amar. Ouvi devagar, como quem escuta a chuva que não quer passar. Não neguei. Deixei entrar. Hilda Hilst se incomodou ao ser chamada de hermética. Clarice, naquela entrevista quase imóvel, também reclamou de não ter sido bem compreendida. Às vezes penso que essa estranheza é um lugar que habitamos juntos. Talvez não caber seja uma forma mais delicada de existir. Não sei ainda se esse rótulo (difícil!) é ofensa ou elogio.
Ser incompreendido talvez seja só uma variação da minha natureza dispersa. E aquariana. Eu me jogo. Sempre me joguei. Em piscinas rasas, fundas, em poças que refletem céu e em abismos onde só havia reflexo do que eu queria ver.
Me atiro com tudo: o rosto, o peito, as vísceras. Porque o tédio me envenena. E só as paixões que me desordenaram conseguiram me dar forma. Eu não fui feito para o morno.
Vivo de mergulhos, não de superfície. De faíscas — mesmo que queimem. De palavras ditas com urgência, mesmo que logo faltem. Entre adeuses apressados e voltas que nunca voltaram, fui me desenhando. Já me acusaram de exagero, de tudo, de nada. Já morri de febre, já me inventei guitarrista de mim mesma numa banda que só tocava desatino. E tudo isso deixa marcas. Claro. Mas nelas não me prendo. São lembrança viva, não prisão. Eu sigo com o que me atravessou, mas não me deixo arrastar. Talvez nem todos consigam assim.
Algumas paixões passam como vento forte: movem tudo, bagunçam o chão. E quando cessam, deixam o espelho — o outro vendo, talvez pela primeira vez, a si mesmo. Nem toda história vira compreensão. Há quem só consiga enxergar seus próprios medos refletidos no que o amor tentou ser. Talvez nele fiquem os sulcos mais profundos, raízes curvadas para dentro. Talvez as marcas agora sejam dele. Não minhas.
Você sabia? Amar exige coragem. E alguma dor. Não castigo. Alquimia. Não se encosta no fogo e espera a pele intacta. Você foi ao fogo com as mãos abertas. Pediu calor. Recebeu ardor. E esperava o quê? Redenção? O espetáculo ainda nem chegou ao intervalo.
E há verdades que não digo com raiva, mas com um silêncio que aprendi a decantar. Nunca fui do tipo que joga o corpo sem que o coração vá junto. Nunca precisei do ato em si. Houve quem chamasse isso de falta, eu chamo de integridade. Nunca me deitei sem paixão. Mas apaixonei-me, sim. De verdade. E nunca foi por quem soube me amar de volta. O desencontro é mais antigo que a minha vontade. Porque o que dói mesmo, o que fere com mais precisão, não é o amor que não recebemos. É não conseguir devolver o amor que nos foi dado. As paixões desencontradas — essas são como cabeças trocadas. Ninguém volta o mesmo.
Mas ainda assim, sigo. Porque nenhuma dor dura para sempre. E há passagens que deixam perfume. Suave, quase ausência. Um rastro. De que algo foi real. E bastou.
메타데이터
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