A eternidade, avós e varandas
Um amigo muito querido, o pastor Gerson Borges, no seu livro sobre oração, tem um capítulo cujo título nunca saiu da minha mente, chamado…
A eternidade, avós e varandas

Um amigo muito querido, o pastor Gerson Borges, no seu livro sobre oração, tem um capítulo cujo título nunca saiu da minha mente, chamado “Saudade do tempo das varandas”, em que ele faz a seguinte reflexão:
“O pouco de diálogo profundo, nutritivo, criador e criativo que restava entre nós, humanos, parece deteriorar-se — o câncer do individualismo se espalhando, nesses nossos dias pós-tudo. Saudade do tempo das varandas! As vozes que se ouviam no living, na cozinha ou na sala de jantar foram substituídas por outras, a dos monitores de TV, um em cada cômodo, prato na mão. Dias, esticando o exemplo, dessa esquálida e desidratada “comunicação” eletrônica/virtual: a carta foi atropelada pelo e-mail, que sucumbiu aos posts. Telefone? Deixa pra lá. Os celulares cada vez mais se tornam máquinas caríssimas de mensagens paupérrimas, cheias de abreviaturas estranhas, impronunciáveis. Dias do Twitter, que nos catequiza para o monossilabismo: podemos dizer tudo com apenas 140 caracteres. Conta outra! Também conversamos mal devido a uma dificuldade cada vez maior de articulação da linguagem (…). Sim, a conversa humana vai mal, descendo a ladeira. Saudade do tempo das varandas!”[1]
Neste último ano, minhas duas avós partiram para a eternidade, minha vó Helena há pouco mais de uma semana, e minha vó Maria, que se foi em novembro do ano passado, faria aniversário em 24 de setembro.
Assim é que, nesses dias de muitas lembranças e emoção, me peguei agradecendo a Deus pela esperança da eternidade e, com lágrimas nos olhos, ansiando pelo dia do reencontro com tantos que já foram, pelo dia em que hão de ser postas mais uma vez as muitas mesas que já partilhamos, agora na eterna mesa que o próprio Cordeiro nos promete.
E me pus a pensar na metáfora que Jesus usou para essa união perpétua que desfrutaremos na eternidade, a figura da mesa, que, em sua cultura, era símbolo supremo de comunhão, e ainda hoje, mesmo em nosso tempo de desagregação, é um lugar de encontro e partilha, de olhar nos olhos, conversar, chorar e sorrir, de viver junto.
Tentando acessar, depois de tanto tempo, as memórias dos momentos com minhas avós e com a família, lembrei-me de que, além das muitas horas passadas em torno da mesa — prática que temos lutado para manter aqui em casa -, nossa comunhão acontecia também em outros ambientes, as salas e as varandas.
Nas salas, sentávamo-nos para assistir algum jornal, filme ou até mesmo a novela. Sei que a televisão já representava um certo decréscimo no nível de partilha, mas ainda estávamos ali juntos, com um único foco, e conversávamos sobre o que víamos, debatíamos as notícias, os enredos, as histórias, até os comerciais, enfim, havia algo de “comum” naqueles momentos.
Ou, quando a sala silenciava, era só a boa e velha conversa mesmo, as histórias de antigamente, felizes ou tristes, e eu viajava para um mundo distante, de cidades e pessoas que eu não conhecia. Eram os tempos de pobreza da infância da vó Helena, a vida nada fácil que ela e a família levaram, eram os tempos de fartura dos natais da vó Maria, quando seu pai tinha um empório e as iguarias, petiscos e temperos italianos enchiam de sabor a sua infância em Jaboticabal.
Mas havia, sobretudo, as varandas! Ah, as varandas, de que meu amigo Gerson lembrou com saudade.
Ali, nada de televisão. Só a família junta, as conversas, as redes, a paisagem, o vento, a chuva caindo, alguém contando histórias, rindo, alguns até mesmo cochilando, outros no violão, às vezes um jogo, uma palavra-cruzada. Nesse tempo das varandas, ainda não éramos escravos dos celulares, como hoje. Não que fôssemos moralmente superiores ou menos distraídos, só não tínhamos os meios à nossa disposição para nos ensimesmarmos, acho que demos é sorte mesmo!
Varandas e varandas, quantas vezes, na praia, na chácara, na casa da vó em São Bernardo, descascando uma fruta, comendo e conversando. Comunhão, pura e simples. Tempo precioso, que muitos desaprenderam a cultivar.
Jesus usou a metáfora da mesa para fazer nosso coração arder pela eternidade. Eu, olhando para meu passado, vejo que, além das muitas mesas, fui marcado profundamente pelas horas de sala e, mais ainda, de varandas.
Nesse ano que passou, partiram minhas avós. Sei que, um dia, partirão meus tios, tias, meus pais, talvez meus primos, todos que compartilharam comigo essas varandas, ou partirei eu para esperá-los.
Mas, no meu coração, ardem o desejo e a esperança de uma eternidade de mesas, salas e varandas, onde a conversa e a comunhão fluam pelos séculos dos séculos, na companhia dos meus amados e do Amado, que já nos fez companhia, talvez sem nem mesmo percebermos, em todas aquelas santas horas de varanda.
Enquanto não chega o dia, meu desejo é que nossa vida continue a ser preenchida por muitas mesas, salas e varandas de verdadeira comunhão. Amém.
[1] Gerson Borges, Quero aprender a orar, São Paulo, Garimpo, p. 25.
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- 2026-06-21 20:33:08