A problemática da dúvida na modernidade
Para iniciar esse caminho de meditações, quero propor como tema de hoje pensarmos um pouco a respeito da ideologia da dúvida na qual está…
A problemática da dúvida na modernidade

Jesus sendo interrogado por Pilatos — Fonte: https://oespiritosanto.com/jesus-perante-pilatos-e-herodes-o-palacio-de-pilatos-e-os-arredores
Para iniciar esse caminho de meditações, quero propor como tema de hoje pensarmos um pouco a respeito da ideologia da dúvida na qual está inserida a nossa cultura moderna ocidental. Para ilustrar esse paradigma, te convido a fazer memória da cena em que Pilatos interroga Jesus Cristo, pouco antes de sua Paixão, Morte e Ressurreição.
Para mim, o ponto central dessa cena icônica está representada na passagem do Evangelho segundo São João, capítulo 18, versículo 38 (Jo 18, 38): “Disse-lhe Pilatos: ‘Que é a verdade?’ (…)”. Se continuamos a leitura do texto, veremos que em nenhum momento Jesus responde a essa pergunta (ao menos não diretamente); isso porque Ele já tinha respondido em dois momentos anteriores, um aos discípulos (quando disse “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”), e outro ao próprio Pilatos momentos antes (quando afirmou “Quem é da verdade escuta a minha voz”).
Esses três momentos nos permitem chegar a algumas conclusões: (1) a existência da verdade; (2) a verdade é uma pessoa; (3) podemos conhecer a verdade. Mais ainda, esse episódio também nos revela o desejo mais profundo do ser humano: conhecer a verdade. No entanto, por mais que esse desejo esteja inserido em nós, o conhecimento da verdade não é algo simples: como uma luz fulgurante, ela penetra em nós e revela as mentiras que optamos por viver.
Dessa forma, torna-se quase que obrigatório reconhecermos que todo processo de busca de conhecimento, quando iluminado à luz da verdade, é doloroso. Vejam, não digo que não vale a pena, mas sim que não é fácil. Um alpinista quando vai subir um grande monte precisa realizar muito esforço e aceitar muita dor, mas ao chegar no pico ele pode se deliciar com aquela bela imagem do horizonte.
No entanto, em uma humanidade que rejeita, a todo custo, os sofrimentos da vida, com sujeitos que preferem desistir de seus objetivos ao menor sinal de dificuldade, torna-se mais fácil fingir que não existe a verdade do que, acolhendo-a, aceitar as dores que a existência dela nos traz. E, para isso, o homem moderno inventou sua própria artimanha, negar a verdade, utilizando-se basicamente de duas armadilhas, a dúvida e o relativismo.
1) A dúvida como negação da verdade
O filósofo francês René Descartes talvez seja o maior expoente da dúvida como metodologia de pensamento. Elevando a dúvida até o seu extremo, ele chegou até mesmo a duvidar da sua própria existência. Contudo, ao invés de reconhecermos o tamanho de seu delírio, o elevamos ao posto de pensador-mor, que influenciou diversos outros pensadores posteriores. Se isso não for sintoma de uma sociedade adoecida, não sei mais o que é.
Desse modo, o racionalismo inaugura uma nova categoria de conhecimento: o dito “senso crítico”. O criticismo, então, está baseado em uma análise minuciosa do que está posto, a fim de avaliar (segundo os meus parâmetros) a veracidade ou não de determinada coisa. Nesse caso, ele se baseia na máxima: duvide, até não poder duvidar mais.
Porém, se a dúvida é a minha única certeza, como posso ter certeza da dúvida? Dito de outro modo, se a única verdade que eu reconheço é a dúvida, então nem mesmo a dúvida pode ser uma verdade; caso contrário, existiria uma verdade e, se ela existe, não me cabe mais duvidar.
2) O relativismo como negação da verdade
Você poderia me responder assim: “eu não duvido da verdade, eu apenas acredito que existam mais de uma verdade”. Desse modo, entramos em outra práxis moderna: o relativismo.
Todavia, relativizar a verdade é um outro absurdo, um paradoxo elevado ao seu grau mais extremo. O próprio conceito de verdade nos faz pensar que, tudo o que está fora dele é mentira, pois algo não pode ser e não ser verdade. Como dizia Parmênides,
“O ser é e não pode não ser; e o não-ser não é e não pode vir a ser”.
Se eu digo que 1+1 = 2, automaticamente eu estou dizendo que 1+1 não pode ser nem 0, nem 1, nem 3, nem 4, e assim sucessivamente. Qualquer outro valor diferente de 2 invalida automaticamente a afirmação, pois quando a verdade se impõe, ela exclui de modo imediato todas as outras possibilidades. Caso contrário, ela não seria uma verdade, e sim uma mentira.
3) A angústia do homem moderno
Um carro foi criado para se mover e, se ele passar muito tempo parado, certamente será necessário ir ao mecânico, pois quando uma coisa não cumpre o papel para a qual ela foi criada na ordem das coisas, problemas começam a surgir. Dito isso, nos voltemos ao homem: criado para o conhecimento da verdade, ele se põe agora a negar aquilo que ele foi criado para ser. Aí que entra o mecânico, ou melhor, o psicólogo.
O vazio existencial que sentimos nada mais é do que a consequência cabal do descumprimento de nossa finalidade. E, assim como existem maus mecânicos, que só vão nos fazer gastar tempo e dinheiro, sem chegarem de fato à origem do problema do carro (ou até chegam, em um “golpe de sorte” que, da próxima vez pode não dá certo), da mesma forma, se o psicólogo que eu procuro não reconhece as causas do meu vazio, a terapia no máximo vai se tornar uma lorota.
Assim, Pôncio Pilatos representa o drama do homem: aquele que está de frente para a verdade, mas é incapaz de reconhece-la.
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