Primeira vez
Sobre novos estádios e impressões iniciais — que ficam para sempre
Primeira vez
Sobre novos estádios e impressões iniciais — que ficam para sempre
salvei esta foto, mas desconheço o autor; alguém sabe?
Com vocês, Andrés Calamaro:
“Cuando era niño y conocí el Estadio Azteca Me quedé duro, me aplastó ver al gigante De grande, me volvió a pasar lo mismo Pero ya estaba duro mucho antes”

Conheço mais estádios do que sonhei quando criança e menos do que, agora obcecado, gostaria. Não cogito a possibilidade de passar por uma cidade sem uma visita demorada a seu(s) estádio(s). São eles, a meu ver, uma atração obrigatória, revelando muito da cultura, dos hábitos e das especificidades de um lugar e de seus habitantes.
Lamento que os guias de turismo sejam tão negligentes quando se trata de apresentar as praças esportivas de uma cidade. A rigor, eles abrem espaço para museus, monumentos, marcos arquitetônicos, parques, centros comerciais, mercados e até para atrações menos relevantes, ignorando quase por completo a existência dos estádios.
Desafio o leitor e a leitora a encontrar um guia de turismo de Roma que vá colocar em evidência o Stadio Olimpico. Ou uma matéria sobre Lisboa que vá elencar as canchas do Benfica, do Sporting ou mesmo do Belenenses — que, ao contrário das outras duas, está a poucos metros de atrações turísticas incontornáveis.
Tampouco será fácil encontrar um guia ou matéria sobre a Cidade do México sugerindo ao visitante que, a caminho de Xochimilco, faça uma parada no estádio Azteca. Pô, Xochimilco é um passeio legal, mas não consigo entender como alguém pode ir à Cidade do México sem querer visitar o colossal estádio da capital mexicana.
Sempre me emociono quando subo a escadaria em direção à arquibancada de um novo estádio. Por mais que eu já tenha construído mentalmente uma imagem de como será o ambiente, vivo me surpreendendo com algum aspecto que não havia capturado pelas imagens previamente escaneadas ou com algum detalhe inesperado.
A essa altura, devo dizer que poucas vezes me emocionei tanto quanto no dia em que conheci o estádio Azteca. E o argentino Calamaro, em uma música que toma emprestado o nome do campo, registra bem a sensação: “me quedé duro, me aplastó ver al gigante”.
Uma cancha icônica tem esse poder. Ela paralisa o visitante mais atento/sensível. Subir em direção às tribunas do Coloso de Santa Úrsula, ainda que ele esteja vazio, coloca o torcedor em contato com o espaço que recebeu as partidas finais de duas Copas do Mundo gigantescas — e, nisso, só o Maracanã é capaz de fazer companhia ao Azteca.
Brasil e Argentina foram buscar dois Mundiais contra europeus, e foi ali também que Diego Maradona teve a atuação mais soberba de sua carreira. Foi ali que ele anotou o gol com La Mano de Dios e foi ali que ele arrancou para percorrer quase toda a extensão do gramado e marcar o Gol do Século. Em uma única tarde, registre-se.
Não há como não se emocionar. Nao há como não parar por alguns minutos e deixar o olhar se perder pelo campo de jogo…
E então eu gostaria de compartilhar breves reminiscências sobre as primeiras vezes nos estádios que eu melhor conheço:
PALESTRA ITÁLIA, SÃO PAULO/SP A bilheteria da Turiassu. Fumaça (são os ambulantes vendendo espetinhos de procedência questionável) em meio à garoa. Capas de chuva. Uma vez lá dentro, eu, criança ainda, esperava algum tipo de locução para acompanhar o jogo. Nada disso. Mas havia a luz dos refletores. Hoje eu sei que era uma iluminação de boate, mas nenhuma noite pareceu mais iluminada do que aquela de abril de 1992. O Palestra dos anos 1990 era escuro pela tv, mas reluzente a partir da arquibancada. O Jardim Suspenso. As azaléias à beira do gramado. A grama molhada. A aspereza do cimento da arquibancada. A divisa entre as duas torcidas. A falta de sutileza da armação quadrada para segurar a rede. As placas de publicidade (vermelhas) da Antarctica. E, acima de tudo, o que me levou a uma paixão arrebatadora: a bateria, as bandeiras, as faixas, os cantos…
PACAEMBU, SÃO PAULO/SP Se um dia você quiser explicar a uma criança o que é um vale, leve-a até a praça Charles Miller. Foi a primeira coisa que eu notei ao chegar lá. E mais a fachada do Municipal. O acesso pelo alto, descendo em direção ao campo de jogo. Cadeiras em vez de cimento. O mar branco ocupando a arquibancada oposta. Bandeiras tremulando. Os dois times de calção branco. Um esquadrão alviverde, meses antes do fim da fila. “Ê, ê, ê, bota pra foder”. Os palavrões gritados sem cerimônia ou reprimenda. Edmundo e Evair, poesia pura.
MORUMBI, SÃO PAULO/SP Arquibancadas azul, laranja, vermelha e amarela. O Hospital Albert Einstein ao fundo. E tudo o que eu havia perdido nos anos anteriores, por ser criança ainda.
CANINDÉ, SÃO PAULO/SP As torres de iluminação a partir da ponte Cruzeiro do Sul. A fumaça da churrascaria vizinha. As bilheterias quase na marginal. A liberdade para caminhar de um lado a outro da arquibancada. A sensação de espremer a torcida da casa, que, ainda assim, nunca deixou de ser aguerrida.
BRINCO DE OURO, CAMPINAS/SP Foi lá que assisti a um dos meus primeiros jogos como visitante. E me lembro essencialmente de duas coisas, ambas marcantes: o túnel de acesso à cabeceira norte do estádio e o incomparável tobogã ‘suspenso’.
MINEIRÃO, BELO HORIZONTE/MG O comboio, o tropeiro e a santa. E tudo mais que eu relato no capítulo 4 do “Forasteiros”.
VILA BELMIRO, SANTOS/SP Vou recorrer ao capítulo 23 do “Forasteiros”. O texto em questão foi escrito mais de 20 jogos depois da primeira visita, mas, de certa forma, aí estão as impressões que vêm desde a estreia:

MARACANÃ, RIO DE JANEIRO/RJ Canta Calamaro: “Cuando era niño y conocí el Estadio Azteca/ Me quedé duro, me aplastó ver al gigante”. Foi como me senti, já longe de ser niño, ao entrar no Maracanã pela primeira vez. E é assim que me sinto até hoje. Tenho um amigo, o Edu Goldenberg, que costuma dizer que “o Rio humilha”. Eu soube disso quando lá pisei pela primeira vez e, como visitante, tive uma visão panorâmica que incluía o campo de jogo, a tribuna sem fim e o Cristo Redentor acima da marquise. Sim, o Rio humilha.
SÃO JANUÁRIO, RIO DE JANEIRO/RJ Vou apelar, de novo. “Forasteiros”, capítulo 17: “São Januário compartilha com o antigo Palestra Itália não só a semelhança arquitetônica (construções em formato de ferradura aberta, para os respectivos clube social e piscina), mas também a padronização no espaço destinado às torcidas visitantes: nos dois estádios, os viajantes já foram alocados tanto em um enclave na curva entre arquibancada e numeradas quanto em um dos extremos da ferradura.”
OLÍMPICO, PORTO ALEGRE/RS Simples assim: era um estádio que fedia a Libertadores. (eu escrevi um capítulo inteiro sobre o Olímpico, mas penso que a frase acima resume bem o espírito do meu relato no “Forasteiros”.)
CENTENARIO, MONTEVIDEO/URU O Centenario é o Azteca da América do Sul:
메타데이터
- post_id
- ea54e2e02f01
- slug
- primeira-vez-ea54e2e02f01
- url
- https://medium.com/@barneschi/primeira-vez-ea54e2e02f01
- canonical_url
- https://medium.com/@barneschi/primeira-vez-ea54e2e02f01
- author_url
- https://medium.com/@barneschi
- status
- ok
- fetched_at
- 2026-07-20 11:20:23