Impperfeito
Um dia, navegando pela internet à toa, encontrei-me num vídeo. Esse, que relacionava algumas correntes existencialistas com a ansiedade da…
Impperfeito
Um dia, navegando pela internet à toa, encontrei-me num vídeo. Esse, que relacionava algumas correntes existencialistas com a ansiedade da humanidade moderna, citava em diversos trechos como nossa angústia é subproduto de uma cultura que sobrecarrega a mente.
Mas é claro! Nossa estreiteza, carência, inquietude e tormenta só poderia vir de uma cultura que anseia produtividade, ganância e ódio. Uma cultura que nos obriga desde infantos a encaixarmos-nos em padrões inventados, inusitados, que são apenas criados para vender grande ilusão e tonteamento de perfeição. Se pareça perfeita, seja perfeita, isso é perfeito, perfeito é belo. Pois não.
Por definição, perfeição, substantivo e intimidante feminino, é o mais alto nível numa escala de valores. É a excelência em mais alto grau, não possui falhas ou defeitos. Se, portanto, há falhas, não é perfeito. Mas e o que tem falhas? Não é perfeito. Mas o perfeito é perfeito, então devo ser perfeito também.
Esse anseio pelo mais excelente nível — aliás, nível de que? — gera, como uma peça numa sequência de dominó, contrastes na percepção do que é ou não isento de falhas, e o porquê de algo imperfeito parecer tão ruim. Achamos que devemos ser perfeitos o tempo todo para sermos alguém de valor, alguém suficiente. Mas porque não é natural, a perfeição é repetitiva empanada à exaustão. Desencadeia a angústia, o sentimento de incapacidade e de impotência de não ser alguém perfeito, mas alguém que falha. E quem vai me lembrar de que está tudo bem falhar?
Aliás
Está melhor do que perfeito falhar
Ora, quero eu estar em um mundo em que possa e queira cometer erros! Eu quero errar, quero aprender com minhas frustrações, quero ter raiva de mim mesma por ter me metido onde não devia, quero chorar depois de uma longa discussão, quero beijar a pessoa errada, quero cair quando tentar a primeira, a segunda, a terceira vez, quero sentir e aprender com meus erros e sentimentos. Se minha perfeição não me permite errar, como sinto? Como sei onde deveria melhorar, o que fazer da próxima vez, onde pisar o próximo passo?
A verdade é que nem a perfeição é perfeita, pois se fosse, abarcaria também a falta da mesma — é questão de perspectiva.
Nos constroem uma ilusão aqueles que querem vender o inexistente. No entanto, numa tentativa de vender o falso, um sentimento real o acompanha; junto a perfeição, a angústia. Criatura inquieta essa que culmina dor e insuficiência, da qual devemos nos libertar… É de pouca importância seus resultados finais, se em seu processo não houve aprendizado, e, se não há erros, não há aprendizado. Erre! Tente! Sinta! Espere! Aprenda! Cresça!
É hora de ir, pois meu coração está com pressa. Permito-me aqui apagar alguns versos já escritos na versão inicial desse texto — eis ai a graça de poder refazer diante do erro. E não sou e quero finalizar perfeitamente essas palavras — tenho liberdade e isso me basta.
메타데이터
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