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Vestígios de um dia ao espelho

Olhei no espelho e percebi que o vinco entre o nariz e a boca estava acentuado. Pensei: “Meu Deus, estou ficando com cara de bulldog”…

Luciana Torreão in Comunidade da Escrita Afetuosa · 2026-01-28 16:53 · 1 claps · 2.0 min read
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Vestígios de um dia ao espelho

Olhei no espelho e percebi que o vinco entre o nariz e a boca estava acentuado. Pensei: “Meu Deus, estou ficando com cara de bulldog”. Naquele período, no isolamento da pandemia, eu mal observava meu reflexo, a não ser para apreciar os cabelos nascendo. Afinal, estando em casa direto, não era necessário me olhar com esmero. Não precisava me arrumar para sair.

Passei a mão pelo rosto e senti a pele mais flácida. O rastro do tratamento oncológico e os medicamentos da hormonioterapia levavam embora a minha vitalidade. Fiquei minutos observando cada detalhe. “Estou envelhecendo”. Aos 47 anos, nunca tinha me dado conta desse pormenor. Não havia rugas, mas linhas de expressão leves — é herança de família. Geralmente não aparentamos a idade que temos. Meu referencial sempre foram as mulheres da minha linhagem: rosto sem rugas e cabelos grisalhos.

Resgatei uma foto de apenas um ano antes, em 2019. Eu estava bem diferente. Como o tempo varreu minha juventude sem que eu percebesse? Os fios brancos já me acompanhavam há tempos, mas eram apenas um detalhe; não me preocupava em pintar o cabelo. Para mim, o envelhecer era algo distante. Por dentro, ainda me sentia com, no máximo, trinta e poucos anos; por fora, sinto que o corpo aparenta mais idade do que realmente tem.

Lembro que, aos vinte e poucos anos, conversando com amigos, eu dizia não ter problema algum com o envelhecimento. Eu só enxergava o lado estético; nunca tinha pensado sobre o vigor, a saúde ou as limitações físicas. Nessa conversa, uma amiga disparou: “Deus me livre ficar velha. Tomara que Ele me leve antes”. Achei aquilo estranho na época, e logo ela me veio à mente.

Nossa sociedade não nos prepara para a velhice. Comecei a refletir sobre a finitude e o fato de estar na chamada “meia-idade”. Hoje, seis anos depois, eu me observo mais. Vejo cada detalhe novo: o colágeno dando adeus às pernas, seios e face. Mas me recuso a recorrer a procedimentos estéticos apenas para “caber” no espelho ou no julgamento alheio. No máximo, passei a me cuidar mais: retocar os fios com tonalizante, pintar as unhas e me vestir melhor. Mas tudo para EU me sentir melhor.

Hoje, às vésperas dos 54, a geografia do meu rosto ainda não está enrugada, mas já não me reconheço como há seis anos. Ainda assim, sempre me acho bonita. Aprecio as fotos e me aceito mais. Carrego a história e as marcas de um corpo que lutou várias batalhas, com todas as suas imperfeições. Envelhecer, descobri, não é perder a juventude para o tempo, mas ganhar a consciência de que aquela jovem de vinte e poucos anos agora tem uma casa (alma) muito mais forte e real para viver.

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