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Minha Querida Senhorita: descobrindo a intersexualidade

Não foi na aula de Biologia que aprendi sobre indivíduos intersexo. Foi com o cinema, mais especificamente com “XXY”, da cineasta Lucía…

Letícia Magalhães in Cine Suffragette · 2026-06-19 23:49 · 0 claps · 3.7 min read
#cinema #filmes #netflix #queer #lgbtq
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Minha Querida Senhorita: descobrindo a intersexualidade

Imagem: reprodução

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Não foi na aula de Biologia que aprendi sobre indivíduos intersexo. Foi com o cinema, mais especificamente com “XXY”, da cineasta Lucía Puenzo. Feito no longínquo ano de 2007, este filme conta a história de uma pessoa intersexo, Alex, que precisa escolher um dos dois gêneros normalmente aceitos — masculino ou feminino — para fazer uma cirurgia e se conformar ao gênero escolhido. A maioria das pessoas intersexo não tem escolha: seus pais escolhem o gênero quando a pessoa ainda é pequena. E isso pode acarretar muitos problemas e questionamentos. É exatamente isso que acontece em “Minha Querida Senhorita”.

Começamos nossa história em 1973. Uma mãe diz que seguirão o que os médicos mandaram e assim sua filha terá uma vida normal. Em 1999 reencontramos a filha, a catequista Adela (Elisabeth Martínez). Para todos, ela só é uma mulher alta. E também para si mesma: ela só sabe que precisa tomar estrogênio desde os 15 anos por conta de uma “condição” que a faz não menstruar e não poder ter filhos.

Quando Adela se vê dividida entre o velho conhecido Santiago (Eneko Sagardoy) e a fisioterapeuta de sua avó, a atriz amadora Isabel (Anna Castillo), surge também uma vontade de saber mais sobre sua “condição”. É assim que vai a um ginecologista e descobre que nasceu sem útero e ovários, mas com gônada sexuais internas compatíveis com o sexo masculino.

Imagem: reprodução

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Chocada, Adela compara o processo de tratamento hormonal e cirurgia pelo qual passou a uma castração e se pergunta quem seria sem essas intervenções. Coube aos pais, como de costume se faz, decidir qual seria o gênero do filho intersexo e questioná-lo é uma reação normal. Assim, Adela sai de Pamplona e recomeça a vida como A.D. em Madrid.

Aqui cabe uma informação surpreendente: “Minha Querida Senhorita” é o remake de um filme de mesmo título, feito nos suspiros finais da ditadura franquista na Espanha. Nele, Adela (José Luis López Vázquez) busca ajuda médica depois de reencontrar um velho amigo, Santiago (Antonio Ferrandis), que lhe propõe casamento, mas ela foge por não sentir atração por ele. A sentença do médico vem acompanhada de música tonitruante: “você não é uma mulher”. Os dois filmes seguem então caminhos parecidos, mas com algumas diferenças: por exemplo, onde A.D. de 2026 encontra acolhimento, o Juan de 1972 encontra preconceito. Outro dado surpreendente: o filme de 1972 foi indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, perdendo na ocasião para “O Discreto Charme da Burguesia”. Apesar de ter-lhe escapado o Oscar, o filme foi muito elogiado inclusive pelo diretor Sidney Pollack, que nele se inspirou para fazer “Tootsie” dez anos depois.

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Outras mulheres da família de Adela eram como ela: a tia e a irmã de sua avó. O médico fala que a intersexualidade é mais comum do que se imagina: hoje, segundo a OMS, de 0,05% a 1,7% da população mundial é intersexo — milhões de pessoas. Historicamente, os indivíduos eram chamados de hermafroditas e até foram considerados uma “terceira via” do sexo biológico. O termo “intersexo” foi usado pela primeira vez em 1917 e a partir dos anos 40 ocorreu um movimento para que este suplantasse o termo hermafrodita.

O melhor amigo e confidente de Adela é o padre José Maria (Paco León), que só abraçou o sacerdócio depois que o amor de sua vida morreu de AIDS. Ele apresenta a amiga à prosa de Anaïs Nin, filha de cubanos — um compositor e uma cantora lírica — nascida na França e escritora ávida de diversos gêneros, incluindo diários e literatura erótica. Um padre ler Anaïs Nin mostra como o personagem tem a mente aberta.

Numa locadora de filmes — você se lembra delas? — Adela e Isabel conversam animadamente sobre “O Martírio de Joana D’Arc” (1928), obra-prima do cinema mudo como um todo e do diretor Carl Theodor Dreyer em particular. Uma vez condenada, a Joana D’Arc interpretada por Maria Falconetti tem seus cabelos raspados, o que lhe confere um ar andrógino. Antes, seu maior pecado, motivo principal do julgamento, era ter usado roupas masculinas para comandar um exército.

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Os produtores de “Minha Querida Senhorita” acabaram de ganhar o prêmio de Melhor Diretor em Cannes, também por um filme queer, “A Bola Negra”. A atriz Elisabeth Martínez realmente é intersexo, e seu papel em “Minha Querida Senhorita” foi seu primeiro trabalho no cinema, antes ela era desenvolvedora de software!

Por começar a história em 1999, o novo milênio traz uma nova vida para Adela / A.D. Como a / o personagem, ao invés da castração para conformação a um gênero, num mundo ideal haveria maior aceitação e possibilidade de experimentar diversas identidades de gênero antes de escolher ser masculino ou feminino — ou talvez sem a necessidade de escolher e ponto.


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