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7 poemas desabrochados de Anielson Ribeiro

Anielson Ribeiro nasceu em Juazeiro-BA, em 1994. Atualmente reside em Afrânio-PE. Formado em letras pela Universidade de Pernambuco, é…

Editorial Fazia Poesia in Fazia Poesia · 2026-06-24 15:01 · 183 claps · 5.7 min read
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7 poemas desabrochados de Anielson Ribeiro

Anielson Ribeiro nasceu em Juazeiro-BA, em 1994. Atualmente reside em Afrânio-PE. Formado em letras pela Universidade de Pernambuco, é professor e poeta antidadaísta. Tem textos publicados em diversas revistas literárias, como Mallarmargens, Ruído Manifesto, Uso, entre outras. É autor dos livros tumulto (2021) e desabrigo (2024), ambos publicados Editora Urutau.

Brota em poesia o coração desatinado de Anielson Ribeiro. De versos tácitos, que dizem sem dizer, que silenciam querendo muito falar, nasce a obra do poeta. Poesia livre: não grita, sussurra; respira, lamenta e traduz, sem descanso, os infortúnios deste século. Da miudeza, do detalhe, seus versos indagam: é tempo de poesia? Talvez nunca seja. Ainda assim, o poeta escolheu — e segue escolhendo — dizer em cada uma de suas criações. E há tanto a dizer! Continue, Anielson, pois do seu desalento desabrocha a bruta flor da poesia.

hora de poesia

é o tempo errado para se sentir sozinho pois somos o que restou mutilações de uma negação que se perdeu nos braços da vênus de milo na beleza das ruínas no amor a ver sentido nas devastações do tempo nas pessoas perdidas nas horas exaustivas de indiferença na poeira sobre as coisas fofinhas nos escombros artificiais do que fomos

é o tempo errado apenas o tempo errado tempo de carícias mal elaboradas tempo de nomenclaturas piegas tempo de emoções etiquetadas tempo de mil tempos para fazer mil coisas exceto ter tempo para si mesmo tempo ruim para bater à porta da felicidade

  • tempo bom para fazer poesia? N U N C A É

limpe seu estômago

é inútil qualquer verso agora pois nem mesmo vinte poemas e uma canção de amor desesperada equivaleriam às pequenas rugas que surgem quando você sorri mas sento e me esforço em vão como qualquer um na vida

mesmo distantes agora seus olhos pairam sobre mim como pequenas vertigens que se estilhaçam imensas sob meu chão

há algo no lento ar do sertão no vento quente do norte que sussurra uma semente oculta de um tempo imemorável que não nos deixaram viver

nesta manhã de agosto no barro alto estão jogando terra sobre o caixão da minha tia e a família deve estar oferecendo suas últimas lágrimas ao carcará junto ao pedaço de chão onde Manoel e Dora cresceram onde eu morreria eternamente onde meus olhos resistem sem fôlego onde os pássaros caem e os porcos comem onde deixei minha avó sozinha em sua terceira xícara de chá sem açúcar sem sua filha sem seus netos sem seus nervos nem sutura para seu coração enterrar mais uma filha ô meu Deus minha Dircinha minha Dircinha ô meu Deus minha Dircinha segura firme minhas mãos meu filho não solta não não solta

a enfermeira tenta operar o tumulto checa a pressão de todo mundo e diz não não chá de maracujá demais é ruim pro fígado minha irmã com pressão baixa minha mãe com hipertensão minha madrinha desmaiada no outro quarto

enquanto a tarde passa sem cura

não há cura há somente essa decisão sobre o pecado da ausência entre quem eu amo intensa & lentamente e quem eu corro para amar antes de esmaecer na memória

sob a luz branca do hospital seu corpo inimigo arqueia sobre um leito silencioso de tranquilidade injetada em suas veias guiando substância até as pálpebras

vejo-a mirando para cima agora através da janela um céu sem nuvens os fios elétricos a cortar o horizonte alaranjado as parabólicas desabrocham mas logo murcham em qualquer sintonia os postes permanecem apagados esperando seus olhos abrirem para redimir toda a criação

desalento

a única dificuldade é respirar enquanto olhos e bocas submersos no cotidiano ⠀⠀ ⠀⠀ ⠀ ⠀ ⠀⠀ pairam sem descanso tirando isso tem supermercados igrejas músicas tristes farmácias youtube netflix academia kpop instagram x ou xvideos chatgpt chamadas para originais cervejas importadas e artesanais indie rock podcasts ao som da louça batendo a meta diária de proteína filmes da A24 coisas fofinhas o mapa interativo da guerra concursos da PM empreendedorismo cigarros cigarros cigarros cigarros cigarros cigarros cigarros cigarros cigarros cigarros cigarros cigarros cigarros cigarros cigarros cigarros ⠀⠀ ⠀ ⠀ ⠀ ⠀⠀ ⠀⠀⠀⠀ ⠀ ⠀só mais um tirando isso você está nu

primeiro como tragédia, depois como farsa

invocação a Carlos Drummond de Andrade — enquanto espírito animal

os problemas do mundo continuam sem solução oitenta anos depois Carlos ainda dizem que o mundo prospera capitalista

mães continuam acordando cedo sozinhas na madrugada murcha preparando um café amargo preparando os filhos o marido e elas próprias todos os dias sentindo as dores de parir uma classe

oitenta anos depois Carlos as pessoas continuam trancadas em seus quartos cômodos enterrando suas cabeças no chão esperando florescer do concreto poemas engavetados do inconsciente

as pessoas continuam com seus corações trêmulos testemunhando o horror nas noites do mundo em camas doentes esgotadas em lençóis quentes amarrotados resguardando um sexo sem uso

oitenta anos depois Carlos nada muito novo nada muito velho eterno delírio na febre dos séculos

antidadá

sou tão sutil quanto um caminhão quanto um tijolo desses caindo e é engraçado que sempre me entendem como que querendo dizer algo mais etéreo e infinitamente suprassensível quando só quero dizer que é irônico

que a única coisa que realmente existe neste lugar são caminhos de um lado ao outro e mesmo assim permaneço imóvel meu deus não sei como com toda essa vontade com tanto caminhão de boleia vazia só quero dizer que aqui a gente come até espaguete com colher de sopa quero dizer como todo mundo que eu como todo mundo fumo um marlboro no final da festa quando já tô meio tristinho embora camel seja mais cool

que é de louça o anel que tu me deste partiu e se quebrou porque o amor era pouco só quero dizer que tem coisa que quero dizer mas não sei como dá pra entender

apostasia

o rádio desligado permanece sintonizado na rede aparecida ecoando o especial do roberto carlos em todos os domingos da infinitude de minha mente

o relógio se comove e cede o ruído compassado de seu ponteiro aos corações expostos de Jesus e Maria na imagem estática na parede

na mesa há um oratório colorido com algumas fitas onde habitam em amontoado santos de olhos rebaixados como se realmente compreendessem o infortúnio e mesmo com as mãos paralisadas quisessem pousá-las sobre a humanidade e distribuir sua misericórdia

dentro deles cabem preces cabem sonhos cabe o luto mas não o quebranto e a fadiga de um dia quente estes só num coração de carne

a noite cai branca o brilho e a melancolia da lua atravessam as frestas do telhado empoeirado e carcomido

nessas horas as batidas do ponteiro já não conseguem mais acompanhar meu coração em desatino

apenas um poema confessional para tempos de repressão estética

porra você é muito egoísta ela disse você está esfacelando todos os nossos planos ela disse eu vou ficar bem ela disse deus vai me ajudar ela disse eu sonhei ontem com você soltando minha mão ela disse mas acordei feliz ela disse eu tinha um presente mas esqueci em casa ela disse eu quero que você continue indo ao psicólogo ela disse pare de fumar e de mascar chiclete não faz bem aos seus dentes seu sorriso é bonito pena que ela disse você não o usa muito merda! eu não vou chorar ela disse e sorriu é assim que se faz ela disse (carro luzes lua um buraco negro quando se precisa pra acabar com tudo pensei) você não me amava o bastante ela disse o amor não é o bastante disse rimbaud seus piores poemas são sobre mim ela disse eu sei finalmente eu tinha o que dizer

[Anielson Ribeiro](2) é o poeta selecionado para a coletânea de junho. Para acessar as outras edições, basta clicar aqui.**

Curadoria por

Ísis Cunha | Poeta e assessora de conteúdo no portal Fazia Poesia faziapoesia.com.br

Ísis Cunha | Poeta e assessora de conteúdo no portal Fazia Poesia faziapoesia.com.br

Edição por

Ana C. Moura | Poeta, revisora e editora de conteúdo no portal Fazia Poesia faziapoesia.com.br

Ana C. Moura | Poeta, revisora e editora de conteúdo no portal Fazia Poesia faziapoesia.com.br

Editorial Fazia Poesia

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