Clever, o homem que queria ser Bruce Lee
Com humor seco e precisão visual, filme uruguaio acompanha a regressão juvenil de um homem desquitado e expõe contradições da masculinidade…
Clever, o homem que queria ser Bruce Lee
Com humor seco e precisão visual, filme uruguaio acompanha a regressão juvenil de um homem desquitado e expõe contradições da masculinidade contemporânea

(Clever, 2015)
A reprodução de clichês é algo natural no cinema, mas a falta de criatividade que permeia alguns gêneros é algo que incomoda. A comédia é uma vítima disso, reproduzida mundialmente com assustadora uniformidade em cada país (e com boa parte deles copiando Hollywood). Nesse cenário, Clever (2015) representa um tremendo sopro de frescor, sendo um filme extremamente divertido, até idiota, sem deixar de explorar as sutilezas do cinema e a força da imagem.
O principal elemento de comédia em Clever é a infantilização das figuras masculinas. O personagem-título (Hugo Piccinini) é um homem casado, pai de um filho, que, após a separação, regride aos anos de juventude — inconscientemente. Tuna o carro, entra na academia, frequenta boates, usa drogas — tudo inconsequentemente. Qualquer semelhança com a realidade (uruguaia, brasileira, talvez mundial) não é mera coincidência, assim como o fato de homens assim se rodearem de pessoas iguais a si.

(Clever, 2015)
O modo como Federico Borgia e Guillermo Madeiro constroem isso é fantástico — hilário e sutil. Com um minimalismo cínico, capaz de construir planos de silêncio expressivos, os diretores e roteiristas vão acompanhando o cotidiano do protagonista com travellings que revelam aos poucos seus atos banais, closes que acentuam a estranheza de seu visual, sempre realçando o seu ser derrotado.
Clever (que em inglês significa “inteligente” ou “esperto”) é tudo que esse protagonista não é. Tampouco maduro, e Borgia e Madeiro incorporam tais características na estrutura do longa. Isso acontece quando a comédia se torna um road movie totalmente subversivo, em que o personagem, em vez de partir numa jornada de descobertas e amadurecimento, pegará a estrada apenas para customizar seu carro (de um azul vivo careta quando casado, num vermelho “radical” depois de solteiro) com detalhes de fogo e uma imagem de seu ídolo: Bruce Lee.

(Clever, 2015)
Tal idolatria, aliás, denota outro aspecto muito engraçado no filme: à medida em que passa a cultuar o corpo na academia, Clever se aproxima cada vez mais de homens. Quanto mais machão ele almeja ser, maior o teor homoerótico de suas ações. E ele só se dará conta disso no outro, quando se deparar com um delicado fisiculturista que mora com a mãe, pinta quadros e toca piano. Soa como se Borgia e Madeiro perguntassem a Clever (sem qualquer preconceito) se é aquilo que ele deseja ser, mas ele (nada “clever”) não entendesse a pergunta.
No maior estilo Napoleon Dynamite (2004), uma cena de Clever, em plano fechado, musicada por uma trilha sonora bem temática, cômica, revela um homem com uma peruca chanel, feia, olhar idiota, cavanhaque aparado, saindo de um bar com porta de fitas coloridas e chupando picolé — de vinho. Nada se diz, nada se precisa dizer. Por todo o contexto narrativo e pela construção da imagem, se extrai o riso. De forma sutil e certeira. E poucos filmes têm o poder de fazer isso: fazer graça fazendo cinema.
Obras citadas:
**Clever (2015), de Federico Borgia e Guillermo Madeiro; [Napoleon Dynamite](https://www.imdb.com/pt/title/tt0374900/?ref_=nv_sr_srsg_0_tt_5_nm_1_in_0_q_Napoleon%20Dynamite%20(2004)) (2004), de Jared Hess.**
Texto originalmente publicado no dia 22 de junho de 2026 no AdoroCinema
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