Louca, criança e velha
Algumas pessoas têm medo de morrer, outras têm medo de viver para sempre. Eu sempre tive medo de enlouquecer. Perder a noção do que é…
Louca, criança e velha
Algumas pessoas têm medo de morrer, outras têm medo de viver para sempre. Eu sempre tive medo de enlouquecer. Perder a noção do que é correto, do que é real, e sofrer, ou fazer alguém sofrer. Me vejo hoje um pouco louca, um pouco criança, um pouco velha. Mas tudo é muito. Sinto o vento bater no rosto e me emociono. Choro com frustrações e discussões. Sinto dor nas articulações e muita vontade de dormir. Meu rosto já não é mais o mesmo de alguns anos atrás, meus sonhos também não. Me sinto feliz com as coisas da vida: as risadas, um carinho, passear pela cidade aos sábados, viver arte, conhecer histórias, ver gente. Me sinto triste também, mas há uma certa felicidade nas lágrimas que nos permitimos derramar. Me permito derramar, e depois removo a permissão. Penso que estou ficando louca ou que só sou imatura, mas no final percebo que sou artista e é assim mesmo que funciono.

Hester Finch
Vejo gente cometendo os mesmos erros de gente que já se foi, e diariamente é uma nova dor iluminada por holofotes. Vivemos em um estado apocalíptico, absurdo (de novo)… quem me dera ser Camus. Sinto tudo e tudo dói, dói tanto que finjo não ver. No meio disso, tem todo o resto. Tem amor, tem arte, e o que nos resta da natureza. Vivo e esqueço de viver. Existo me forçando a lembrar como é estar viva. Sentindo. Olho em volta e é tudo o mesmo e, ainda assim, diferente todos os dias. Grande contradição é estar vivo, é o que faz valer a pena.
Me perco na empatia e tento entender sempre todos os lados, o que me torna doente ou egoísta pelo seu caráter utópico. Cresci para ser boa gente, para ser educada e bondosa, caridosa e gentil. Quando me pego em minha essência humana desafiando o que sempre consideraram o correto para mim, sinto culpa. Culpa que não deveria ser sentida por ninguém. Culpa não se transforma, só surge, magoa, fica ou desaparece. Me forço a pensar no agora e no que pode surgir dele.
Me vejo cansada, mesquinha, irritada. Me vejo aos gritos, aos prantos. Sou parte de algo maior que não entendo. Me agarro a qualquer coisa que deixe meus pés no chão, o desejo de voar é enorme. Quando se fala em voar sempre imaginamos a liberdade. Visualizamos pássaros, aviões. Esquecemos que nem sempre voar está sob controle. Tenho medo de voar como em um balão sem motor, em que o vento me leva para onde quer que deseje, em direção ao desconhecido. Mantenho uma parte de mim no ar, outra parte no chão, e sigo assim, esticada, incompleta, dividida.
Ouso dizer que sou feliz, ainda que não haja felicidade. Ouso dizer porque estou viva e isso é tudo o que tenho. O que me motiva é sentir, observar, aprender, crescer, criar e transformar. Não me importo em ser um pouco louca, um pouco criança e um pouco velha. Tenho a coragem dos loucos, a imaginação das crianças, a responsabilidade dos velhos… e o coração de todos eles.
메타데이터
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