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O início

No meio da pandemia, dezembro de 2020, recebemos o diagnóstico de cirrose hepática da minha mãe. O principal sintoma, que nos assombrou até…

Priciane Crocetti · 2025-06-10 19:02 · 0 claps · 2.0 min read
#luto #mãe #filha #psicología #morte
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O início

No meio da pandemia, dezembro de 2020, recebemos o diagnóstico de cirrose hepática da minha mãe. O principal sintoma, que nos assombrou até o dia da morte dela, é chamado de encefalopatia hepática. É uma espécie de desorientação mental que me deixava apavorada. Na primeira consulta o hepatologista avisou “é pior para vocês. Ela não sente nada e nem entende o que está acontecendo”.

Dali em diante vivi a maior prova de amor que já pude dar para alguém. Parei a minha vida para cuidar da minha mãe. A cura para cirrose é o transplante de fígado, como ela já era idosa, não foi considerado a cirurgia. Então seguimos num acompanhamento rigoroso da doença e com o uso de muitas medicações.

Eram cuidados minuciosos e as atenções deveriam estar voltadas para inchaços e sintomas da encefalopatia. Com o passar dos anos virei uma especialista no assunto, conseguia identificar as necessidades dela apenas no olhar. Sabia todos os passos para contornar os sintomas, e mesmo assim, vez ou outra, ela ficava internada.

Nos dois últimos anos ela ficou muito debilitada. Foi perdendo peso, músculos, caia com facilidade, fazia roxos imensos pelo corpo. Virou um papel de seda molhado. Como foi triste assistir minha mãe que havia sido tão forte fisicamente e de alma, ficar naquelas condições. Eu dizia na época, que vivia o luto dela ainda viva, tamanho a tristeza que foi assistir a morte lenta que a acompanhava. Mas eu não tinha a menor ideia do que era o luto.

Ela não podia ficar sozinha, automaticamente eu não saia de casa ou tinha um emprego formal. Também não tivemos muita ajuda, então era eu por ela e ninguém por mim. As vezes conseguia sair se deixasse ela deitada, com comidinhas organizadas numa bandeja ao lado na cama e orientações do tipo “se precisar ir ao banheiro vá bem devagarinho se segurando na parade”.

E assim foi a nossa vida até o dia que ela partiu. De amor, de cuidados, de um desgaste físico e emocional sem precedentes. Todos os dias eu tinha a função de mantê-la bem, todos os dias eu tinha a vida dela na minha mão. Ela dizia “eu tenho uma dó de você minha filha. Eu me tornei um peso na sua vida”. E eu respondia “não faço por obrigação, faço porque eu te amo e pela pessoa maravilhosa que você é pra mim”.

Durante o último ano de vida dela, todo santo dia eu a acordava com um “bom dia minha princesa!”. Quando sobrava um tempo sentava ao lado dela no sofá e ficávamos de mãos dadas. Se eu fechar os olhos agora, consigo sentir a textura da pele da mãozinha dela. Todos os dias eu dizia que a amava. Ela morreu com esta certeza: de que foi amada até o ultimo minuto de vida. E eu, eu faria tudo de novo.


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