A Farsa do Voto — Por Lucy Parsons
Recentemente, entrei em contato com a obra de Lucy Parsons. E o artigo “The Ballot Humbug”, escrito há mais de um século, despertou minha…
A Farsa do Voto — Por Lucy Parsons

Imagem gerada com o auxílio da IA Gemini.
Recentemente, entrei em contato com a obra de Lucy Parsons. E o artigo “The Ballot Humbug”, escrito há mais de um século, despertou minha atenção ao provocar um olhar para além das superfícies das disputas políticas e focar na estrutura real do poder.
Parsons argumenta que, enquanto as bases se perdem em ciclos de conflito, as estruturas de poder muitas vezes operam sob um “véu de papel”, priorizando interesses privados em detrimento do bem comum.
Para além da crítica sistêmica, o que mais me chamou a atenção é a solução proposta por ela: a saída para o caos social não reside apenas em novas camadas de regulação ou burocracia, mas no ensino da solidariedade, da fraternidade e do apoio mútuo.
Em um mundo corporativo e social cada vez mais polarizado, o convite de Parsons para “transformar fábricas de leis em escolas de humanidade” permanece desconfortavelmente atual. Como estamos cultivando a solidariedade nas nossas próprias esferas de influência hoje?
Escrito em 1905, mas parece que foi hoje. Lucy Parsons alertava: enquanto o povo se perde em ódio e violência, quem está no poder usa o voto como um ‘véu de papel’ para esconder trocas de favores e interesses privados. A saída? Parsons é categórica: o caos social não se resolve com mais leis, mas com o ensino da solidariedade, do amor e da fraternidade. Menos fábricas de leis, mais escolas de humanidade.
The Liberator, 10/09/1905
Traduzido por Victoria Giaretta Rubira
“Tudo o que ouvimos de todos os lados, somos propensos a acreditar, exija ou não algum esforço para crer, seja verdade ou não — especialmente se exigir esforço para examinar o assunto. De todas as ilusões modernas, o voto certamente tem sido a maior. No entanto, a maioria das pessoas acredita nele.
Em primeiro lugar, ele se fundamenta no princípio de que a maioria deve liderar e a minoria deve seguir (não importa se haverá qualquer vantagem para a maioria em ter a minoria seguindo-a ou não). Tomemos um conjunto de legisladores absolutamente honestos, e vejamos o que eles podem fazer. A, B e C têm, cada um, um princípio distinto para realizar, e não há boa razão para que cada um não execute seu princípio até certo ponto sem interferir nos outros dois. A política entra em cena e diz: vamos decidir esta questão pelo voto, pois é justo. Qual é o resultado? A e C finalmente chegam a um compromisso e se unem, ao desistirem de uma parte de suas ideias. A e C tornam-se então a maioria e os princípios de B não são mais levados em consideração, sendo simplesmente excluídos da existência. Isso é o governo da maioria.
Observe o resultado. Em vez de três princípios bem definidos que poderiam ter continuado, sido desenvolvidos e desfrutados, perdemos um por completo e corrompemos os outros dois. Este é o resultado inevitável do governo da maioria em um corpo legislativo que tenta fabricar leis e impô-las a pessoas de grandes comunidades que têm todos os tipos de interesses conflitantes.
Certamente, é melhor ter o governo da maioria se este representar os desejos reais de um grande número de pessoas do que ter o governo da minoria, que atende apenas ao interesse de poucos, como é o caso hoje, onde todas as leis são praticamente voltadas ao interesse da classe capitalista. Mas o princípio da autoridade é, em si mesmo, errado: nenhum homem tem o direito de governar outro homem.
Claro que, se alguém está invadindo os direitos de outrem, deve ser contido. Isso não é governo, mas autopreservação. Vejamos, por exemplo, como nossas “fábricas de leis” são operadas. Um corruptor manipula uma maioria da seguinte forma: ele contrata uma ferramenta chamada advogado ou lobista para rondar o congresso (capitol), abordar os membros da legislatura e apresentar a eles seu esquema com as cores mais vivas, de modo que pareça ser uma grande benção para o país. Dessa forma, junto com alguma propina (graft), ele geralmente consegue os votos da maioria dos congressistas.
Se o esquema a ser aprovado for tão descarado que a maioria não possa ser enganada a votar nele, então o trabalho é feito por meio de um acordo. O lobista convenceu A de que o projeto é correto; e B, sendo contrário a ele — mas favorecendo algum outro esquema ao qual A se opõe — só precisa que B concorde em votar no projeto sob a condição de que A vote no projeto de B quando este for apresentado. Esse esquema é chamado de honesto, ou pelo menos se justifica pela ideia de que “na política vale tudo”. O lobista que controla A pode ter armado os dois trabalhos com o lobista que controla B.
Assim, nossos lobistas usam um membro do corpo legislativo contra o outro para extrair um trabalho lucrativo do povo em benefício dos detentores do dinheiro. Não faz diferença quem seja o membro do congresso, ou quais sejam seus princípios — o esquema pode ser aplicado nele da mesma forma. Portanto, o que vale o voto do povo na escolha dos congressitas?
Tomemos este exemplo: suponha que uma legislatura seja composta por noventa e nove eleitos; no esquema acima, vinte e cinco farão uma maioria, mesmo que todos estejam presentes; os vinte e cinco trocam favores com outros vinte e cinco e assim formam cinquenta votos — uma maioria de um. O lobista procura saber quantos estão doentes ou ausentes, ou se esforça para enviar os oponentes mais ferrenhos para comissões ou comitês de investigação fora da cidade. Há muito mais nas trocas de votos [1], pois cada membro geralmente sente vontade de manter suas trocas em segredo, ou pode ser convencido a fazê-lo, portanto, é fácil trocar o voto de A com B, C, D e E, fazendo com que cada um pense que apenas ele negociou com A. Dessa forma, dez homens como A podem facilmente conseguir a maioria de noventa e nove, e dez homens assim não são difíceis de encontrar quando o capital precisa deles.
Mas isso não é o fim. A não pode negociar com F, então A apresenta um projeto de lei ou uma emenda repulsiva a F e depois concorda em retirá-la sob a condição de que F ou vote no projeto principal ou esteja ausente quando este for votado. Esses são alguns dos truques feitos na fabricação de leis.
Você pode culpar um anarquista que declara que as leis feitas pelo homem não são sagradas? A sociedade não se dissolveria nem voltaria à barbárie se as leis fossem abolidas. Com milhares de leis sendo promulgadas e centenas de corruptores fazendo seus truques, o que resta da vitória do eleitor nas urnas? O que resta da sua pretensão de reformar todas as coisas pelo uso do voto? Enquanto ele estiver disposto a se submeter a uma lei ruim até que ela seja revogada, que melhor subterfúgio os canalhas poderiam querer sobre a humanidade?
O fato é que o dinheiro, e não os votos, é o que governa o povo. E os capitalistas não se importam mais em comprar os eleitores, eles simplesmente compram os “servidores” depois de eleitos para “servir”. A ideia de que o voto do homem pobre vale alguma coisa é a mais pura ilusão. O voto é apenas o véu de papel que esconde os truques.
Você pode culpar um anarquista quando ele vê um vigarista político tramando por um emprego em uma fábrica de leis e não consegue ver nada de sagrado nele ou em suas leis? Sabemos que nunca houve uma lei aprovada que tenha impedido um único crime de ser cometido. Sabemos que o crime cessará apenas quando os homens forem ensinados a fazer o bem, porque isso os torna mais felizes do que fazer o mal. Sabemos que, se aprovar leis tivesse evitado um crime ou tornado melhores os homens, todos nós já seríamos anjos agora.
Dizemos: transformem as fábricas de leis em escolas e aloquem cientistas nelas para ensinar as verdades da solidariedade humana, do amor e da fraternidade, e tornem isso possível abolindo o monopólio dos meios de vida. Assim, a humanidade desenvolverá rapidamente o que há de melhor, mais nobre e mais puro em sua natureza.”
[1] Essa prática envolve muito mais do que uma simples negociação direta: ela é cheia de truques, segredos e manipulações (N.T.).
Texto original escaneado do jornal disponível em Internet Archive. A versão usada para a tradução está disponível em The Anarchist Library.
BIOGRAFIA
Lucy Parsons (c. 1851–1942) foi uma das figuras mais radicais e influentes do movimento operário e anarquista dos Estados Unidos.
Lucy nasceu escravizada, provavelmente no Texas ou na Virgínia. Ao longo de sua vida, ela frequentemente contestava sua origem africana, afirmando ser de ascendência mexicana e indígena (Creek), possivelmente como uma estratégia de sobrevivência política ou pessoal na época. Casou-se com Albert Parsons, um ex-soldado confederado que se tornou um radical republicano. Devido ao preconceito contra o casamento interracial, o casal fugiu para Chicago em 1873.
Em Chicago, Lucy e Albert tornaram-se líderes do movimento pela jornada de trabalho de 8 horas. Em 1º de maio de 1886, uma greve geral paralisou a cidade. Três dias depois, durante um comício na Praça Haymarket, uma bomba foi lançada contra a polícia, desencadeando um massacre. Embora não houvesse provas de sua participação, Albert Parsons e outros três anarquistas foram enforcados em 1887. Lucy passou o restante da vida lutando para limpar o nome do marido e provar que o julgamento foi uma farsa política.
Lucy não era apenas a “viúva de um mártir”; ela era uma teórica e organizadora por direito próprio. Oradora incendiária, era famosa por seus discursos poderosos e por defender o direito de autodefesa dos trabalhadores. Em 1905, ela foi a única mulher a discursar na convenção de fundação da Industrial Workers of the World (IWW). Editou jornais como o The Alarm e o Freedom, onde escrevia sobre as condições das mulheres trabalhadoras, desemprego e a farsa do sistema eleitoral.
Lucy Parsons continuou ativa até o fim da vida, participando de greves e defendendo prisioneiros políticos. Ela morreu tragicamente em um incêndio em sua casa aos 89 anos. Logo após sua morte, o FBI e a polícia apreenderam sua vasta biblioteca de mais de 1.500 livros e todos os seus escritos pessoais, temendo o poder de suas ideias mesmo após o seu falecimento.
Biografia escrita a partir de informações disponíveis na Wikipedia.
Publicado originalmente em meu LinkedIn
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