A quem pertence seu tempo?
Uma das frases que mais ouço tanto de pessoas conhecidas quanto em conversas alheias é sobre a correria imposta pela rotina e a falta de…
A quem pertence seu tempo?
Uma das frases que mais ouço tanto de pessoas conhecidas quanto em conversas alheias é sobre a correria imposta pela rotina e a falta de tempo para outras atividades. Mas que rotina é essa?
É óbvio que vivemos múltiplas realidades, imbuídas de recortes de classe e gênero e das subjetividades de cada indivíduo. Mas, respondendo de forma generalizada, acredito que a grande maioria vem sendo engolida pelos trabalhos que desempenham e pela infinidade de burocracias que caracterizam nossa vida em sociedade. Quanto às atividades desejadas, muitas, provavelmente, são uma resposta às exigências do mesmo mercado de trabalho que abocanha nossas horas e dificulta seguir com as especializações necessárias para continuar nele.

O pouco tempo livre que sobra após tantas cobranças também acaba sendo colonizado pelo sistema. Somos atraídos diariamente para o poço sem fundo do consumismo e para situações que nos anestesiam temporariamente de uma realidade massacrante. Não é à toa que sexta-feira é a menina dos olhos para todos aqueles trabalhadores que cumprem uma jornada-padrão, isto é, com um regime de trabalho que ocorre entre segunda e sexta-feira. Para além das horas dormidas a mais, o final de semana é a oportunidade de se embriagar, e não só pela via etílica. As maratonas de Netflix estão aí para provar que tudo que muita gente deseja é se aninhar no sofá, dar o play e “esquecer de tudo”. A vida virou uma eterna espera pelos dias que correm fora do circuito casa-trabalho.
Diante de uma narrativa tão desanimadora, não há como não se questionar: será que realmente viemos a esse planeta azul com a finalidade de sermos meros autômatos? É normal passarmos pelo menos 2/3 de nossas vidas nos dedicando a um trabalho enfadonho, que paga mal, consome nossa saúde, não hesita em nos trocar — no melhor estilo mercadoria — e ainda inculca em nós uma mentalidade produtivista? Onde aperta para parar o mundo e descer?
Para aqueles que acreditam que entender a dinâmica social é essencial para propor outra alternativa, não faltam materiais sobre o assunto. A exploração perpetrada pelo mercado de trabalho é tema de obras consagradas da sociologia e da história. O Capital e outros trabalhos, de Karl Marx, estudos de seu companheiro Friedrich Engels, além de David Harvey e Marcelo Badaró Mattos são algumas importantes referências para quem quer se aprofundar nos estudos sobre o funcionamento do modelo capitalista e os seus desdobramentos na sociedade. Apesar das diferentes abordagens, podemos ver que existe um consenso entre esses e outros autores: a condição de explorado do trabalhador é fruto desse sistema baseado na acumulação de riqueza e poder.
E é na busca desenfreada pelo seu elemento fundante que começa o vale-tudo. Para que o dinheiro entre, é necessário produzir algum bem ou serviço, e para que ele seja produzido são necessários braços e, dependendo do caso, cabeças. Sendo assim, é mandatório que hajam corpos que produzam e consumam, afinal, somos nós que retroalimentamos a máquina capitalista; produção e consumo são necessárias para fechar o círculo vicioso. Isto é, o parco dinheiro que recebemos pelo trabalho vendido volta para a mão das mesmas pessoas que espremem nossas capacidades e nos deixam apenas com o bagaço de retornos exorbitantes.
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O ônus dessa exploração desumana também tem estado cada vez mais presente no passivo dos trabalhadores, como é possível atestar pelo aumento substancial nas vendas de antidepressivos e soníferos. O estresse gerado pelo trabalho é tão grave que ele já foi oficializado como uma doença crônica pela Organização Mundial da Saúde (OMS). A chamada síndrome de burnout, ou síndrome do esgotamento profissional, atinge, hoje, cerca de 33 milhões de brasileiros, segundo uma pesquisa da International Stress Management Association (ISMA), sendo que os afastamentos do trabalho por conta dessa síndrome cresceram 114% apenas entre 2017 e 2018, conforme dados da Secretaria Especial de Previdência e Trabalho.
Estamos ficando doentes por causa de um sistema que apenas gera miséria, desigualdades brutais, devastação ambiental, esgarçamento das relações, desconexão com a vida e a alienação de milhares de pessoas em relação ao trabalho. Ou seja, não nos reconhecemos mais naquilo que produzimos, dado que viramos pequenas engrenagens substituíveis de uma imensa máquina que tritura cada um dos seus componentes. E é exatamente o medo de sermos substituídos e perdermos nosso meio capenga de sobrevivência que faz com que nos submetamos a empregos precários, condições de trabalho abusivas e atividades que não fazem sentido.
Soma-se a esse quadro a flexibilização do trabalho que hoje perpassa diferentes segmentos, visto que um número crescente de empresas tem optado por não assumir compromissos de trabalho com empregados, se eximindo de oferecer qualquer proteção ou garantia. O resultado dessa negligência proposital aparece em balanços cada vez mais robustos, já que a cifra paga a esses trabalhadores autônomos é substancialmente menor do que aquela paga a empregados formais. No processo também conhecido como uberização do trabalho, o empregado é iludido ao comprar a narrativa de que esse modelo permite que cada um seja empreendedor de si, trabalhando nos horários que lhe convém e tendo retorno financeiro quase que imediato.
O saldo dessa dinâmica degradante são relações de trabalho cada vez mais precárias e o risco associado à autonomia de quem não conta com qualquer direito trabalhista. Uma recente experiência cinematográfica retrata alguns dos efeitos devastadores de uma vida uberizada. No longa inglês “Você não estava aqui”, acompanhamos Ricky Turner atingir seu sonho de empreender ao se tornar um entregador franqueado de mercadorias e o rápido desmonte dessa vida idealizada, que vai ser sentido e somatizado por ele, pela esposa e por seus dois filhos. O céu se transforma em inferno rapidamente, e o protagonista se vê preso em uma armadilha aparentemente sem saída.
O horizonte para essa situação, vivida pelo personagem e por uma horda cada vez maior de trabalhadores, não traz sinais de mudança. Segundo dados do IBGE, hoje, 38,3 milhões de brasileiros compõem o contingente de trabalhadores informais, o que representa uma taxa de informalidade na casa dos 40,7%. Enquanto isso, o total de desempregados é de 11,9 milhões, número que tem potencial para ser convertido em ainda mais informalidade. Fazendo uma conta simples, são mais de 50 milhões de pessoas que constituem a força de trabalho do País e que estão fora do sistema, seja sem uma renda ou com um trabalho precário e sem direitos.
A tão aclamada reforma trabalhista, sancionada em 2017 pelo ex-presidente Michel Temer e que prometia gerar mais empregos e modernizar as relações de trabalho frente aos avanços tecnológicos, apenas serviu, mais uma vez, aos interesses dos donos dos meios de produção, que conseguiram reduzir encargos trabalhistas se livrando de um peso a mais na folha de passivos. A grande maioria dos trabalhadores, supostos beneficiados pela nova lei, não viu tal medida surtir qualquer efeito positivo em suas vidas. Por enquanto, seu único legado tem sido a ampliação da informalidade e, consequentemente, de laços de trabalho ainda mais frágeis.
Cada um vive e sente as agruras do capitalismo predatório de acordo com a pluralidade de realidades que classe, gênero e raça compõem, mas todos compartilham a condição de trabalhadores explorados. E como tal, é preciso que todos enxerguem que o modelo que hoje norteia as relações sociais e econômicas não deu certo. Como parte do processo de sua superação, um primeiro passo talvez seja a mudança de nossa mentalidade produtivista, condicionada por uma lógica de acumulação primitiva que só vê virtude naquilo que é passível de ser monetizado. Precisamos parar de cair no canto desse sistema que ora nos cobra produtividade, ora reforça a mensagem de que o consumismo é a solução (para nós ou para eles?), e nos apropriarmos das horas espoliadas por esse sistema.
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