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Um doce aroma de morte (nas igrejas)

Uma igreja pode morrer. Não creio (e não vejo nas Escrituras) que a Igreja de Cristo, invisível, militante, espiritualmente vivificada pelo

Marcos Motta · 2024-12-30 19:01 · 0 claps · 5.4 min read
#igreja #morte #frieza #morte-da-igreja #apostasia
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Wiki topics: 🧘 · Spirituality

Um doce aroma de morte (nas igrejas)

Uma igreja pode morrer. Não creio (e não vejo nas Escrituras) que a Igreja de Cristo, invisível, militante, espiritualmente vivificada pelo Senhor, possa perder a vida. É Cristo que a sustenta. Por “igreja”, me refiro aqui, então, às denominações, aos agrupamentos, congregações, enfim, àquelas comunidades às quais conhecemos popularmente pelo nome de “igreja”. Sim, nesse caso, uma igreja pode perder a vida. Estes coletivos nascem, se reproduzem e morrem quase que diariamente no universo cristão.

Ora, a morte de uma igreja pode ser identificada de várias formas. Talvez, a forma mais fácil de se notar esta morte seja quando a igreja fecha as suas portas — para nunca mais abri-las. Cessa de existir. Há igrejas com as quais isso aconteceu: certo dia, suas portas fecharam e nunca mais abriram. Na Europa, há muitos desses casos. Em determinados locais do Velho Continente, houve uma desconfiguração tão grande nas igrejas que, com o passar dos anos, elas foram simplesmente erradicadas. Mas, não só lá — aqui, também. Eis, diante de nós, uma pandemia.

Morte lenta

Não pense que estas igrejas morreram quando as portas se fecharam. Não. O fechar das portas foi apenas a evidência externa de algo que já havia acontecido internamente. Tais igrejas, que por fim cessaram de existir, estavam mortas muito antes do último ato, e é sobre esse assunto que desejei tratar quando iniciei este texto: no que se refere ao processo de derrocada das igrejas, nem sempre perder a vida significa deixar de existir. O deixar de existir, fechar as portas, dar baixa no CNPJ, é apenas o ponto final da história. Precisamos aprender essa lição.

O processo de morte de uma igreja pode acontecer lentamente, de forma que as pessoas — de dentro e de fora — acabam não percebendo a moribunda definhando. E se nos demoramos a compreender que uma igreja está doente, quanto mais demoraremos para dar-nos conta de que ela já morreu!

Um cheiro de morte no ar

Pense na grande massa de igrejas que vemos em nossas cidades. Certa vez, li um livro de ficção do autor Guillermo Arriaga, cujo título era Um doce aroma de morte. Neste título, eis uma forma peculiar de dizer que “há um cheiro de morte no ar”. Quando há um zelo em nosso interior pela casa do Senhor, ao olharmos para as igrejas de nossa época é isso que vemos: uma terrível expectativa de morte. Igrejas engolidas pela sociedade. Sufocadas pela cultura. Envenenadas pelas mais diversas filosofias ímpias. Mortas à míngua pela falta de teologia bíblica e de fervor espiritual. Marionetes de líderes mal-intencionados. Só parecem vivas.

Lembro-me do último abraço que dei em minha mãe, já no leito de morte. Triste dia, aquele 10 de novembro. Ela ainda estava “quentinha”; mas incontestavelmente morta! O problema se agrava, então, quando levamos em conta que, depois de morto, um “defunto” (propriamente dito) leva, ainda, algumas horas para começar a exalar mau-cheiro. Certamente, chegará o momento em que isso será inevitável e todos saberão a verdade — mas um desavisado pode se enganar facilmente, confundindo morte com vida.

Há igrejas que, de maneira semelhante, perderam a vida, mas ainda mantém certo “calor”, certo “cheiro de igreja” — uma agenda cheia, forte engajamento por parte dos adeptos, redes sociais em plena atividade. Elas ainda têm um endereço, um CNPJ, um grupo de pessoas que se identifica com a placa do prédio, um slogan. Todavia, o fato é que, nessas igrejas, já não há mais vida, a vida de Jesus, que Ele dá à Sua Igreja por meio das Escrituras e do Espírito Santo. Há uma mecânica, rituais à toda, mas nada de Deus, como na época do rei Josias, em que o trabalho no templo existia de alguma forma sem o livro da Lei (2Crônicas 34).

Evidências de que a morte já aconteceu

Hernandes Dias Lopes elenca cinco “sintomas” que evidenciam a morte de uma igreja:

  1. a morte de uma igreja acontece quando ela se aparta da verdade.
  1. a morte de uma igreja acontece quando ela se mistura com o mundo.
  1. a morte de uma igreja acontece quando ela não discerne sua decadência espiritual.
  1. a morte de uma igreja acontece quando ela não associa a doutrina com a vida.
  1. a morte de uma igreja acontece quando falta-lhe perseverança no caminho da santidade.

Em meu livro ***Isso é mesmo evangelismo?, **entre outros assuntos, discorro sobre a igreja em Sardes, à qual o Senhor dirige a palavra em Apocalipse 3:1–6. Nessa passagem, somos ensinados que Deus conhece a igreja e aqueles que têm nome de igreja, mas não são. Ele conhece seus atos, suas obras. O que muitas igrejas que se consideram* vivas têm a dizer é que, com seu status, seu movimento, seu prestígio perante o mundo, seus números, podem provar que estão vivas. Seu constante flerte com a cultura, sua anexação dessa cultura, sua conformação da pregação às premissas e exigências da sociedade, sua modernização e seu distanciamento das bases e rudimentos da fé cristã em nome da relevância, tudo isso infla o peito de seus líderes, fazendo com que pensem que estão no caminho certo.

Atualmente, muitas igrejas estão nesse caminho. Desprezam a pregação do Evangelho verdadeiro. Desprezam o discipulado. Desprezam o fervor espiritual gerado genuinamente pelo Espírito. Na tentativa de conquistar o coração das pessoas, apelam para suas vaidades, transformando a igreja em algo que pode ser identificado como qualquer outra coisa, exceto como a Igreja-de-Nosso-Senhor-Jesus-Cristo. Todavia, temos de lembrar que, devido ao profundo contraste entre os padrões do mundo e os padrões do Evangelho, uma igreja que está viva aos olhos do mundo é uma igreja que está morta aos olhos de Deus.

Lembremo-nos que, após a morte, um corpo entra em estado de putrefação, começa a inchar e o cérebro vira um caldo. Mera semelhança ao que acontece nessas igrejas?

As palavras de Cristo

O que Cristo tem a dizer sobre isso tudo? “Desperte! Vejo que suas ações não atendem aos requisitos de meu Deus. Arrependa-se. Se não despertar, virei subitamente até você, como um ladrão.” Mas, o que seria, basicamente, este arrependimento, esse despertamento? Eventos proféticos? Mais shows? Mais música? Mais ação social? Mais modernização? Não. Estas não são ações que atendem os requisitos de Deus — disso já estamos cheios.

“Lembre-se do que ouviu e no que acreditou no princípio; agarre-se a isso com firmeza. […] Fortaleça o pouco que resta, pois até mesmo isso está quase morto.”

Obviamente, a figura que usamos até aqui tem suas limitações. A cessação da existência não precisa ser o fim da igreja sem vida. Da parte do Senhor, sempre há esperança para toda comunidade que se reúne sob o Seu Nome, mesmo para aquela igreja “que tem fama de estar viva, mas está morta”. Essa esperança está firmada em um retorno, um retorno em direção ao Senhor.

“Assim diz o Senhor: Ponde-vos nos caminhos, e vede, e perguntai pelas veredas antigas, qual é o bom caminho, e andai por ele; e achareis descanso para as vossas almas; mas eles dizem: Não andaremos nele.” (Jeremias 6:16)

Somos chamados a nos apartarmos do mundo, a retornarmos à Verdade, amando as Escrituras, orando em todo o tempo, nos submetendo ao diagnóstico de Deus sobre nós. Deus chama aos que se reúnem sob o Seu Nome como igreja para que associem doutrina e vida, que vivam em comunhão, que sirvam uns aos outros,“levantando mãos santas, sem ira nem contenda” (1Tm 2:8).

Como obedeceremos, em pleno século 21, às palavra do Senhor em Jeremias 6? Ora, imitando a igreja apostólica:

“E perseveravam na doutrina dos apóstolos, e na comunhão, e no partir do pão, e nas orações. E em toda a alma havia temor, e muitas maravilhas e sinais se faziam pelos apóstolos. E todos os que criam estavam juntos, e tinham tudo em comum. E vendiam suas propriedades e bens, e repartiam com todos, segundo cada um havia de mister. E, perseverando unânimes todos os dias no templo, e partindo o pão em casa, comiam juntos com alegria e singeleza de coração, louvando a Deus, e caindo na graça de todo o povo. E todos os dias acrescentava o Senhor à igreja aqueles que se haviam de salvar.” (Atos 2:42–47)


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