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Ensaiar a escrita — Divindades Solitárias, de Andreas Chamorro

Publicado pela Kotter Editorial em 2021, Divindades Solitárias é o livro de estreia do escritor paulistano Andreas Chamorro. Trata-se de…

Laura Redfern Navarro · 2022-03-23 11:55 · 164 claps · 2.5 min read
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Ensaiar a escrita — Divindades Solitárias, de Andreas Chamorro

Publicado pela Kotter Editorial em 2021, Divindades Solitárias é o livro de estreia do escritor paulistano Andreas Chamorro. Trata-se de narrativas curtas que se debruçam acerca do mundo literário, desde a e a criação de um texto ao fenômeno dos booktubers. Em um tom crítico, por vezes ácido, Andreas trabalha essas percepções de maneira subversiva e experimental, emprestando recursos próprios do realismo fantástico e traçando diálogos com autores como Lygia Fagundes Telles, Hilda Hilst e Jorge Luís Borges.

A epígrafe do livro, “Qualquer destino, por longo e complicado que seja, consta na realidade de um único momento: o momento em que o homem sabe para sempre quem é”, de Borges, já nos dá uma pista do que Divindades Solitárias se propõe: a captura, quase fotográfica, do instante da linguagem.

Isto pode ser observado já no conto que introduz o livro, “O Autodidata”, uma espécie de biografia do próprio Andreas Chamorro a partir de suas publicações, relidas por um leitor num tempo futuro. Assim, somos apresentados de maneira distanciada ao escritor, num movimento que confunde a autoria.

Em “O Autodidata”, ficamos a par dos processos criativos, dos projetos e da postura de Chamorro, e um leitor menos atento pode acreditar que se trata de algo realístico, ou que as obras listadas teriam sido publicadas. Isto é porque a escrita do conto se propõe a ser embaraçada. Em tom ensaístico e que se desenvolve numa linguagem própria de um texto objetivo, o conto parece trabalhar precisamente no borrão da proposta ficcional.

No texto seguinte, “O Autodidata, um conto de Borges?” essa percepção vai além — compara a feitura do primeiro conto a um texto de Borges, “Herbert Quain”, se elaborando suas disparidades e semelhanças. Assim, o texto radicaliza ainda mais o tom ensaístico, trazendo citações e um viés de análise literária ao “O Autodidata”, mas sem perder a faceta simbólica do conto ficcional. Um exemplo (p. 26):

“Foi tamanho o meu êxtase que escrevi um ensaio sobre ele, que transcrevo agora.

O Autodidata ou um rascunho para Herbert Quain”

Neste trecho, percebe-se a presença de um narrador (o ensaísta) que subverte a análise priorizando o estranhamento. Enquanto o livro deixa claro a influência de Borges na escrita de Chamorro, aqui o caminho é inverso: Chamorro é a inspiração para Borges, transformado aqui em personagem, ou objeto do ensaio. Ao trazer esse distanciamento, o autor consegue condensar sua intenção na escrita, partindo da invenção.

E essa intenção não se restringe a uma autoficção, mas a uma formação ética de um escritor, de um leitor e de um participante ativo do mundo. Isso se mostra nítido no conto “O Leme da Leitura”, que trabalha com uma proposta distópica — a de uma literatura forçada a adotar um padrão midiático, imediatista e consumista. Aqui, o exagero proposital de Andreas se encontra numa situação aparentemente simples, a de um booktuber que esbarra em uma estante de livros durante a Bienal de 2023. Daí, se constrói uma narrativa recheada de referências, ironias e criticidade — quase como um jogo de dominó.

Por fim, podemos entender que Divindades Solitárias é um livro que ensaia o exercício da escrita, dos recursos literários e da tradução das inquietações em literatura. Um livro de estreia que é, exatamente, um livro de estreia, que revela a construção desse escritor — não como confissão, mas como parte de um processo que prioriza o ficcional. Se voltarmos à epígrafe, que diz “Qualquer destino, por longo e complicado que seja, consta na realidade de um único momento: o momento em que o homem sabe para sempre quem é”, Divindades Solitárias é uma resposta. Que joga de volta à pergunta: “como?”


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