A dor silenciosa de quem não pode existir na relação
Essa época do ano, principalmente, deixa muitas pessoas extremamente emotivas, angustiadas, isoladas — e não é, necessariamente, por…
A dor silenciosa de quem não pode existir na relação

Imagem: Freepik
Essa época do ano, principalmente, deixa muitas pessoas extremamente emotivas, angustiadas, isoladas — e não é, necessariamente, por alguma lembrança ruim, mas pelo que estão vivendo no presente. Sim, as pessoas que são amantes (ou se sentem como tal, como explicarei mais abaixo) sofrem. E muito.
Sem falsos moralismos, é importante entender que nem todo amante é um “destruidor de lar”. Há quem se envolva com pessoas comprometidas sem criar sentimento — é só uma ficada, e por isso não há relacionamento. Quando a sociedade ou a cultura rotula alguém como “amante”, é porque existe um vínculo sexual, mas também um vínculo afetivo. E convenhamos: há sexo sem amor e há amor sem sexo. Mas é praticamente impossível que amor e sexo não se misturem quando há intimidade e tempo de relação.
Já citei Carlos Drummond de Andrade no **meu artigo sobre o impacto emocional das traições*, mas vale repetir: Numa traição há, pelo menos, três pessoas sendo enganadas*. E chegou a hora de falar dessa terceira pessoa.
O final de ano reforça vínculos entre colegas de trabalho, amigos e, especialmente, familiares. É tempo de festas, viagens, e de lotar as redes sociais com boas memórias afetivas.
A pessoa que é amante não estará com quem ama. Ela também não pode (ou não convém) postar fotos do encontro que teve na véspera ou no dia seguinte ao Natal e ao Ano Novo. Ela pode até receber um presente — mas pode dar? Imagine que eu, amante, dou um presente a uma mulher em um relacionamento monogâmico. Se for um objeto, ela terá que esconder, dizer que ganhou de alguém (que vira cúmplice) ou que comprou. Se for um presente de serviço, como uma massagem ou um spa day, ela pode simplesmente sumir para aproveitar ou dizer que se deu esse mimo.
Querendo ou não, isso impacta profundamente quem deu o presente, porque sua demonstração simbólica de amor não será validada — será represada. Some-se a isso a solidão nos dias mais festivos, a certeza de que o relacionamento principal está lá, firme, enquanto você não pode fazer nada. Apenas fingir que está tudo bem.
Psicologicamente, é a dor da invisibilidade, da falta de reconhecimento, de não poder demonstrar o amor em sociedade. E existe outra dor: o medo de perder o pouco que se tem, de forçar um limite e perder até o mínimo.
Não estou romantizando a situação nem apontando culpados. Apenas reconhecendo que isso é estrutural em sociedades patriarcais como a nossa (o que não significa que não existam amantes homens com mulheres casadas — existem, aos milhares — mas a lógica ainda é machista). O primeiro livro que li sobre o tema, ainda na adolescência, foi A Outra: A Amante do Homem Casado, da antropóloga Mirian Goldenberg. E há uma frase impactante que vale aprofundar: As Outras se percebem como as únicas, pois acreditam que o amante não tem relação sexual com a esposa.
Precisamos, então, revisitar o mito do “destruidor de lares”. Não nego que exista, mas não é o mais comum. Quem começa um relacionamento com alguém comprometido numa relação que, em tese, não permite escapadelas, pode até começar por exercício de liberdade e ginástica moral. Mas, se continua, é porque desenvolveu sentimentos e tem esperanças de que o vínculo principal termine. Ou, o mais comum, porque a pessoa comprometida inventa mil desculpas para não cumprir promessas que nunca pretendeu cumprir: “A gente nem dorme junto”, “os filhos são pequenos”, “ela é doente”, “ainda preciso resolver algumas coisas”… Não preciso me estender: todos conhecemos essas desculpas.
Antes de seguir, preciso citar outra autora que me fez repensar tudo o que sei sobre amor e sexo: a sexóloga belga Esther Perel. Para ela, quem busca um amante não está necessariamente buscando outra pessoa, mas uma nova versão de si mesmo. Embora eu entenda essa explicação, acredito que isso pode ser alcançado sem traição — com diálogo honesto dentro da relação.
Ela também diz: A amante ocupa um lugar proibido, mas também um lugar de intensidade. E é justamente essa intensidade que a prende. No entanto, com o tempo, essa intensidade costuma trazer impactos negativos: dependência emocional e até sintomas de transtorno de estresse pós-traumático.
Sem negar as conclusões das autoras, é preciso se perguntar se isso vale a pena. Se está disposta a arcar com as consequências emocionais. E se está preparada para o mais provável: o término. Isso sem falar em algo que, em algum momento, você já se perguntou — ou deveria ter se perguntado: estou causando dor à pessoa traída? E não, não compre a versão da pessoa com quem você se relaciona. Pergunte-se: e se fosse comigo, estaria tudo bem? Você já sabe a resposta.
Quando você percebe que está vivendo uma relação sozinho
Há um ponto ainda mais delicado nessa história toda, e que poucas pessoas admitem até para si mesmas: o momento em que você percebe que está vivendo uma relação sozinho. Não é que a outra pessoa não esteja ali — ela está, mas de forma intermitente, conveniente, calculada. Uma presença parcial que confunde. É um meio-termo que adoece.
A pessoa que se sente amante vive numa espécie de limbo emocional. Não há traição oficial, não há outra família, não há um casamento para competir. Mas há algo tão doloroso quanto: a sensação de que você é sempre a última prioridade. Você não disputa espaço com alguém específico; você disputa com a vida inteira da outra pessoa. E perde.
É o tipo de relação em que você nunca sabe onde pisa. Um dia você recebe carinho, atenção, planos. No outro, silêncio, desculpas vagas, sumiços que não são explicados — e que você aprende a não questionar para não parecer “cobrador”. A pessoa diz que gosta de você, mas não te inclui. Diz que sente saudade, mas não te chama. Diz que quer algo sério, mas não te assume. E você vai aceitando migalhas como se fossem banquetes.
E é aqui que mora a dor mais profunda: a de perceber que você está se adaptando a uma relação que não existe fora da sua cabeça. Você cria justificativas para o comportamento do outro, tenta entender, tenta ser compreensivo, tenta ser paciente. E, sem perceber, vai diminuindo suas próprias necessidades para caber no espaço minúsculo que te oferecem.
A pessoa que se sente amante vive uma forma silenciosa de abandono. Não é o abandono explícito, aquele em que alguém vai embora. É o abandono que acontece enquanto a pessoa continua ali, mas nunca por inteiro. É o abandono que se sente na falta de convite, na falta de presença, na falta de reconhecimento. É o abandono que dói porque não tem nome, não tem status, não tem justificativa. E, por não ter nome, você não sabe nem como reclamar.
E talvez o mais cruel seja isso: você não sabe se está sendo enganado, se está sendo testado, se está sendo usado ou se a pessoa simplesmente não sabe amar por não ter maturidade emocional. E essa dúvida corrói
No final das contas, a pergunta que fica é simples e brutal: se você precisa se esconder para amar, se precisa ser ignorado para manter a paz, se precisa aceitar menos do que merece para não perder alguém… então o que exatamente você está chamando de amor?
메타데이터
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